Os juros, a dívida pública e os terraplanistas do jornalismo econômico, por Luis Nassif

Na entrevista com Mônica de Bolle, uma afirmação dela pode ter passado despercebida para a maioria dos leitores: a de que existe agora um  consenso entre os analistas econômicos de que o custo da dívida interna é função direta das taxas de juros praticadas.

Trata-se da revisão de um daqueles dogmas que permanecem soltos no ar, como ectoplasmas do rentismo, para justificar as taxas de juros praticadas nas últimas décadas: a de que as taxas refletiam o maior risco fiscal do país.

Não adiantava argumentar que, como maior devedor do sistema, o Tesouro tinha plenas condições de impor suas taxas. Se recusasse a adquirir títulos públicos, onde o mercado ancoraria sua gigantesca liquidez? Mesmo nos tempos do governo Dilma Rousseff, no qual as taxas caíram mais rapidamente, não houve nenhuma notícia de recusa do mercado em participar dos leilões. O terrorismo da mídia não se dava em cima de fatos, mas de opiniões.

O jogo pró-taxas jamais se preocupou com a coerência porque, entre os receptadores de notícias, havia uma cobertura totalmente acrítica, baseada em chavões. Em uma semana, as taxas eram altas porque a dívida pública era elevada. Na outra, as taxas eram altas porque as expectativas de inflação era elevadas. Agora, a taxa é alta (relativamente) para evitar o retorno de expectativas de inflação elevada.

Ora, não se trata de um tema banal, mas de algo que impactava diretamente o orçamento. Mesmo assim, aceitavam-se as “verdades” do mercado com a mesma irresponsabilidade científica dos terraplanistas. Quem ousasse apontar para as  inconsistências do diagnóstico era imediatamente demonizado, apontado como ignorante em economia.

Leia também:  Por que Deltan Dallagnol não entrega seu celular para a perícia?, por Luis Nassif

Nesse tempo todo, subtraiu-se da saúde, das escolas, da infraestrutura, milhões a mais de recursos do que as merrecas apregoadas pela Lava Jato, como recuperação de recursos.

E ainda se é obrigado a ler sumidades liberais, como Deltan Dllagnol ou o inacreditável Luís Roberto Barroso, apregoarem que a saúde é ruim por culpada corrupção – que, em termos percentuais, é infinitamente menor do que a corrupção institucionalizada da política monetária.

Éo sinal mais eloquente que o fator qualidade jamais pesou na cobertura econômica. Décadas de papo furado na cobertura econômica não resultaram nem na punição mais óbvia para os diagnósticos errados: a exposição da incompetência dos analistas, de ir atrás das opiniões da “moda”. Basta mudar de opinião, com a leveza dos que trocam de roupa a cada estação.

Leia também Xadrez da crise do pensamento macro-econômico brasileiro.

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Boa tarde, Você conhece o livro "DEMOCRACY IN CHAINS", da historiadora NANCY MacLEAN''? Cita o projeto de James Buchanan(premio Nobel de economia) com a ajuda de Charles Koch(uma das maiores fortunas americanas,finaciador do partido Republicano), para implantar uma agenda liberal de racismo, destruição da seguridade social, desmonte da saúde e da escola pública. Foi um dos mentores do plano econômico do Pinochet. IPSIS LITERIS o plano do Guedes. Abraço

Carlos Augusto Terras

Uma das táticas do dito mercado para alavancar, ou mesmo só assegurar seus ganhos estratosféricos nesses últimos anos, é o uso do terrorismo econômico. E o vetor para isso é um certo tipo de mídia comprometida até o osso com o sistema. Para retroagirmos muito no tempo, basta lembrar que a variável INFLAÇÃO após o Plano Real serviu de desculpa para o exercício de uma Política Monetária danosa pelas duas pontas: retração da Demanda e elevação da Dívida Interna e consequente desequilíbrio nas contas públicas. Decerto que os preços ficaram, estão controlados, mas mais em função do desaquecimento da economia que da Política Monetária. Essa um mero álibi. Só que a ciranda alcançou o grau do paroxismo, qual seja, o risco da própria insolvência do Estado tanto pelo perfil como pelo montante da dívida. O que fazer, então? Ora, mirar na Política Fiscal, mais exatamente na coluna das Despesas, dando-a como a responsável-mor pelas nossas desditas. E o remédio amargo, tal qual foram as altas de juros anteriormente, seria as sacrossantas reformas. Em destaque a da Previdência. E o país com seus duzentos milhões de "almas" demandando por emprego, renda, educação, saúde, infraestrutura, que aguarde pela próxima manipulação.

15 comentários

  1. Boa tarde,
    Você conhece o livro “DEMOCRACY IN CHAINS”, da historiadora NANCY MacLEAN”?
    Cita o projeto de James Buchanan(premio Nobel de economia) com a ajuda de Charles Koch(uma das maiores fortunas americanas,finaciador do partido Republicano), para implantar uma agenda liberal de racismo, destruição da seguridade social, desmonte da saúde e da escola pública.
    Foi um dos mentores do plano econômico do Pinochet.
    IPSIS LITERIS o plano do Guedes.
    Abraço

  2. A bússola desse pessoal é uma só: se “a esquerda” diz uma coisa, eles são contra, contestam. Ainda ouço boçalidade de mercado dos anos 70, anos em que Pedro Malan, Arida e outros diziam que o Brasil não podia melhorará distribuição de renda porque “não tinha renda” pra distribuir…

    São uns sem vergonha, “intelectuais” antiintelectuais, intelectuais sem vergonha.

  3. É por isso, caro Nassif que a revisão da dívida se faz necessária. Uma necessidade financeira, para diminuir a dívida e os juros, mas também ética, para se apontar o crime que sucessivos BCs cometeram contra a população desde o plano real (inclusive os Bcs de petistas, só a Dilma quis mexer no vespeiro da banca, mas depois desistiu).

    A revisão da dívida deveria ser um dos pilares do programa das esquerdas, explicando que não é calote, mas reparação da corrupção institucionalizadas que drenos trilhões do povo para o fianacismo. O máximo que pode ocorrer é a banca quebrar. Se isto acontecer, é só o governo estatizá-la, pois já um cartel mesmo. A China funciona muito bem com uma banca estatal.

    Produzir dinheiro não necessita de concorrência para se fazer bem e um monopólio estatal na área, com 5 bancos estatais, não traria problema nenhum ao páis, aliás os juros aos consumidor e às empresas poderiam cair a níveis civilizados com toda a banca nas mãos do governo.

    Como benefício extra, a estatização da banca acabaria de vez com o poder financeiro dos rentistas por aqui, inclusive sobre a mídia.

  4. Eu, que não sou formado em econmia mas gosto do assunto, já sabia disso desdo o tempo em que o Roberto Campos era vivo… Não não podemos esperar grande coisa dos “comentaristas economicos”.
    Eles falam e escrevem o que o patrão manda.

  5. O livro texto adotado na AMAN ainda é aquela cartilha usada na alfabetização de Bolsonaro, intitulada caminho do saber. Tentaram mudar, mas os alunos da AMAN não se adaptaram.

  6. A turma alinhada a Olavo de Carvalho, Bolsonaro, Moro, MBL, Barroso etc. morre de rir quando percebe algum idiota acreditando em bobagens como dizer que a Terra é plana.

    “Se há quem acredite em que a Terra é plana – ou pelo menos fica em dúvida quando dizemos isso (porque abusamos da autoridade que esses idiotas nos conferem), porque não haverá quem acredite nas outras mentiras todas que contamos?”

    Sabe aquela pessoa que diz que, se ficou rica depois que passou a ser pastora, é porque não apenas existe um deus (o dinheiro caiu do céu e não saiu dos bolsos dos idiotas) como esse deus é seu amigo? Os Dallagnol da vida? Então…

    “Destino manifesto”, bah… e depois ainda dizem que os árabes é que são fundamentalistas religiosos.

  7. O principal problema foi o PT com Lula e Dilma terem aceitado o ‘sentimento’ do mercado como uma lei natural.
    O resto é história.

  8. As taxas de juros são altas pois as taxas de juros são altas , resolva a questão das taxas de juros altas que elas continuarão altas.

  9. Será mesmo que a Mônica disse isso? Ela não tem pensamento tão simplório assim. Hoje é o mercado que pressiona por juros mais baixo, como será que o Nassif explicaria tal fato? cri. cri, cri

  10. Uma das táticas do dito mercado para alavancar, ou mesmo só assegurar seus ganhos estratosféricos nesses últimos anos, é o uso do terrorismo econômico. E o vetor para isso é um certo tipo de mídia comprometida até o osso com o sistema.
    Para retroagirmos muito no tempo, basta lembrar que a variável INFLAÇÃO após o Plano Real serviu de desculpa para o exercício de uma Política Monetária danosa pelas duas pontas: retração da Demanda e elevação da Dívida Interna e consequente desequilíbrio nas contas públicas.
    Decerto que os preços ficaram, estão controlados, mas mais em função do desaquecimento da economia que da Política Monetária. Essa um mero álibi.
    Só que a ciranda alcançou o grau do paroxismo, qual seja, o risco da própria insolvência do Estado tanto pelo perfil como pelo montante da dívida. O que fazer, então?
    Ora, mirar na Política Fiscal, mais exatamente na coluna das Despesas, dando-a como a responsável-mor pelas nossas desditas. E o remédio amargo, tal qual foram as altas de juros anteriormente, seria as sacrossantas reformas. Em destaque a da Previdência.
    E o país com seus duzentos milhões de “almas” demandando por emprego, renda, educação, saúde, infraestrutura, que aguarde pela próxima manipulação.

  11. Cada vez mais me convenço que nossa academia não forma pensadores, forma idiotas diplomados. Pior, idiotas e arrogantes (bem coisa de classe média mesmo).
    O que tenho que escutar da maioria esmagadora dos que compõem o sistema judiciário e esses economistas de m**** são a prova do que digo. Como, em nome de Deus, esses néscios não conseguiam enxergar que a taxa de juros que incinde sobre a dívida pública estrangula a economia?
    Pra mim, não ver uma obviedade dessas é prova de que não são acostumados a pensar. Só conseguem repetir as fórmulas dos livros. Nada mais. Sendo assim, uma foca amestrada faz melhor o serviço dela.
    Temos que repensar urgentemente todo o ensino do país.

  12. Mas 6,5% ao ano da taxa básica de juros, Selic é taxa de juros abusiva?

    Nos tempos de Lula e FHC eram realmente pois estavam acima de 20%.

    Mas hoje está em 6,5% nominal. E qual a taxa real de juros?

    Sobre 1 milhão de reais investidos no tesouro selic, os rentistas brasileiros receberão ao final de 1 ano 65 mil reais de juros. Será mesmo?

    Resgatando esse juro vem na fonte um imposto de renda de 15%. Então os rentistas estão recebendo, na verdade, 55 mil reais.

    Mas o seu 1 milhão do começo do ano não vale mais 1 milhão no fim do ano por causa da inflação que hoje está em 4,5%. Então desses 55 mil reais, 45 mil foram consumidos pela inflação. Sobraram 10 mil reais.

    10 mil reais sobre 1 milhão dá 1% ao ano.

    Então os rentistas brasileiros estão ganhando 1% ao ano ao emprestar o seu dinheiro para o governo.

    Agora pergunto. 1% AO ANO é taxa de juros abusiva?

  13. + comentários

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