As observações são do historiador Manuel Domingues, um dos grades especialistas em história militar, em entrevista à TV GGN.

Qual o papel das Forças Armadas? A defesa do país, conforme expresso na Constituição. Só que a defesa do país é um sistema. Desse sistema fazem parte as FFAAs..mas também a indústria de defesa, a ciência e a tecnologia, a diplomacia assegurando alianças e paz com os países vizinhos. Todos esses parâmetros estão sendo desmontados, sem nenhuma interferência das Forças Armadas.

Ou seja, estão se imiscuindo em todos os setores da vida nacional, comandando a saúde, o meio ambiente, mas demonstrando desprezo absoluto por sua missão constitucional.

Sem uma ideia sequer sobre o sistema de defesa, qual a lógica de civis, como Raul Jungman e Aldo Rabello, se juntarem a militares da reserva, como Sérgio Etchgoyen, para defender aumento do orçamento para a defesa? Quem garante que esse dinheiro será usado para a defesa, se as FFAAs abdicaram completamente do conceito de defesa nacional?

Hoje em dia, a indústria de defesa está sendo desmontada, a venda da Embraer foi aceita sem um pio. Ciência e tecnologia estão sendo destruídos  de maneira inédita, sem uma reação sequer das Forças Armadas. O último Plano Nacional de Defesa colocava como uma das missões das Forças Armadas a defesa da Amazonia azul – a costa brasileira, onde está o pré-sal. A Petrobras está sendo desmontada, o pré-sal rifado, sem uma reação sequer dos militares.

O Plano Nacional de Defesa se tornou uma peça morta. Em vez de um projeto nacional que consultasse a academia, a indústria e outros setores envolvidos, virou uma peça decorativa e os dados das Forças Armadas, são uma caixa preta.

Em outros tempos tinha-se um país intelectualmente pobre, anota Domingues. Coube as FFAAs mapear o país, levar o Estado para os rincões mais profundos. Com o tempo o país cresceu, tornou-se complexo, com um conhecimento da sociedade civil muito superior ao conhecimento militar. Em vez de trazer esse conhecimento para dentro da corporação, as FFAAs s fecharam mais ainda, passaram a esconder os dados, a não aceitar nenhum estudo de fora. Em grande parte, devido aos expurgos ocorridos depois do golpe de 64.

Antes dele, nos anos 50,os Clubes Militares foram palco de discussões fundamentais, com pensadores de altíssimo nível, tanto os nacionalistas, como Horta Barbosa, como os liberais, como Juarez Távora. Hoje em dia, as discussões militares são um deserto de idéias, um monumento ao pensamento único com a figura do inimigo interno ocupando todos os espaços, como se estivéssemos ainda na Guerra Fria.

Com o golpe de 1964 houve um rapa nas FFAAs, com o expurgo de todos os militares que pensassem de forma diferente. Com isso, o pensamento interno tornou-se cada vez mais monofásico, sem nenhuma capacidade de absorver novas ideias, entender a complexidade da sociedade, diz Domingues.

Os militares gostam de criticar o Judiciário, continua ele, mas o comportamento é absolutamente idêntico. Criaram-se castas, nas quais os oficiais de hoje são filhos e netos de oficiais de ontem. Desde os 10 anos só convivem no ambiente militar, não tendo nenhuma sensibilidade para conhecer o mundo externou, interagir com a sociedade civil, compartilhar de princípios e conhecimento.

Há um trato com a imprensa, diz Domingues, que divulga salários dos juízes e desembargadores, mas não os dos oficias. Também não há informações que permitam avaliar a eficiência das FFAAs. Quanto custa uma obra tocada pela engenharia? Não se tem ideia. Assim como não se tem ideia da maneira como administram as tropas, a intendência, a estrutura burocrática.

Em suma, as FFAAs entram em nova etapa de interferência na vida pública nacional, sem que se conheçam, até agora, ideias mínimas sobre um projeto de país minimamente defensável,

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