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    Coronavírus e o retrato de um ecossistema de desinformação, por Ricardo Torres

    A OMS tem se esforçado para evitar situações de pânico e insegurança fortalecendo a posição científica, desfazendo rumores, esclarecendo dúvidas e indicando grupos de risco.

    A divulgação de informações imprecisas pode contribuir para um estado de pânico moral. Créditos: reprodução.

    da objETHOS

    Coronavírus e o retrato de um ecossistema de desinformação

    Para além da infecção provocada pelo novo coronavírus, que foi identificado na China e nomeado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como Covid-19, estamos vivenciando o alastramento indiscriminado de notícias falsas sobre o tema. O volume e a nocividade das informações propagadas, especialmente por meios digitais, são reflexos de formatos comunicacionais imersos em um ecossistema que favorece a desinformação.

    Em temas sensíveis como os que envolvem elementos relacionados à saúde, os riscos da disseminação massiva de informações falsas são ampliados e podem ter desdobramentos extremos que, em última instância, levam ao caos social e a um estado de pânico generalizado. Lidar com essa situação impõe um desafio significativo que está causando dificuldades para quem acessa e para quem produz conteúdos jornalísticos.

    Na última quinta-feira, 13 de fevereiro, o portal UOL publicou uma matéria com a seguinte manchete: “Indiano se enforca após suspeita de coronavírus; OMS alerta contra pânico”. Confesso que tive dificuldade para identificar se esse conteúdo era verdadeiro, pois diante de um emaranhado de boatos, mentiras e especulações acaba se tornando difícil depurar os fatos e os dados verídicos. A matéria que tem como base um texto jornalístico publicado no jornal indiano Times of India relata o caso de Bala Krishna, de 50 anos, que apresentava sintomas de gripe e cometeu suicídio por medo de infectar a sua família. Contudo, a infecção por coronavírus foi descartada.

    De qualquer forma, casos limites como o apresentado na matéria demonstram o quão danosa a propagação de conteúdos alarmantes pode ser. Escolhas baseadas em informações imprecisas podem levar a ações precipitadas e errôneas com reflexos em diferentes aspectos da vida social.

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    A OMS tem se esforçado para evitar situações de pânico e insegurança fortalecendo a posição científica, desfazendo rumores, esclarecendo dúvidas e indicando grupos de risco. No entanto, o cenário difuso e hiperbólico abastecido pelo sensacionalismo torna a missão de se informar complexa e custosa. Esse contexto exige reflexão e questionamento sobre as informações que recebemos e compartilhamos. A confiança informacional deve ser ancorada em parâmetros criteriosos de busca, análise e confronto de informações.

    Interesse em saúde e canais de checagem de fatos

    Em uma pesquisa realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), “A ciência e a tecnologia no olhar dos brasileiros” (2015), 78% dos entrevistados afirmaram estar interessados ou muito interessados em temas relacionados a saúde. O alto interesse somado à confiança exacerbada em redes de informações baseadas em características oriundas da proximidade e parentesco configuram arranjos que dificultam o acesso a informações de interesse público que podem ser cruciais para o enfrentamento de momentos críticos como o atual.

    Conforme Tuma e Saldanha (2019), muitos fatores atentam contra a qualidade de informações ligadas à saúde, como os oriundos da própria imprensa, na qual, entre outros, é possível observar o desconhecimento ou falta de capacitação por parte de alguns jornalistas. “Neste sentido, a produção e divulgação de conteúdos por meio da Comunicação e Saúde (C&S) pode ser crucial para reverter esta situação, em especial quando feita de forma detalhada e transparente. A checagem de fatos (​fact-checking​) e de boatos (debunking), que vem se destacando como uma metodologia de crescente adoção por diversas organizações nos últimos anos, reúne esses atributos” (TUMA; SALDANHA, 2019, p. 3).

    Os canais de checagem de fatos e boatos se apresentam como estratégias de mitigação dos problemas ligados à disseminação de informações falsas na esfera da saúde. Iniciativas como o Portal Drauzio Varella e Saúde Sem Fake News, do Governo Federal, buscam identificar a propagação de conteúdos que possam gerar danos aos usuários da informação. No que diz respeito ao coronavírus, o canal estatal identificou e classificou inúmeras informações falsas, conforme podemos ver nos slides abaixo.

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    O processo de comunicação que convive com elementos de risco à saúde pública exige balizas mínimas que sejam factíveis e verificáveis. O parecer de especialistas e estudiosos que acompanham de perto a evolução de epidemias e surtos deve ser acompanhado por jornalistas que tornem esses dados acessíveis e decifráveis para a população.

    Jornalismo nas escolas

    Desde 2017, o objETHOS está realizando o projeto “Educação para crítica de mídia nas escolas públicas”. Através da coordenação do professor Samuel Pantoja Lima, a iniciativa busca levar conhecimento e provocar reflexões sobre o papel da mídia na sociedade. Nesse período, acompanhei inúmeras visitas que propõem rodas de conversa para tratar sobre temas a partir de distintas abordagens jornalísticas. As temáticas discutidas são apontadas pelos próprios alunos e em algumas ocasiões elas estavam associadas à dimensão da saúde.

    De maneira específica, estes debates foram muito produtivos e despertavam o interesse e a atenção dos participantes. Ao longo de cinco semestres de atividades (2017.2 a 2019.2) foi possível passar por nove escolas de Florianópolis e da região metropolitana. A iniciativa buscou apresentar o fenômeno jornalístico aos jovens do ensino médio com abordagens que trataram de saúde mental, suicídio, Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros.

    Experiências como essa, que possibilitam a discussão didática do jornalismo no ambiente escolar, são essenciais para sanar os problemas crônicos que a desinformação está causando. A reflexão crítica proporcionada por essas ocasiões pode oferecer parâmetros que causem a melhoria e a mudança de conduta de indivíduos e grupos nos processos comunicacionais cotidianos que estão na essência da constituição e consolidação dos problemas de comunicação social massivos, como os que estão ocorrendo no caso do coronavírus.

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    Ricardo Torres – Doutorando em Jornalismo no PPGJOR e pesquisador do objETHOS

    Referências

    Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. A ciência e a tecnologia no olhar dos brasileiros. Disponível em: https://www.cgee.org.br/documents/10195/734063/percepcao_web.pdf. Acesso em: 13 fev. 2020.

    TUMA, Ana Beatriz. SALDANHA, Felipe. Fact-checking​ e ​debunking​ na cobertura de saúde: análise comparativa das estratégias utilizadas e temas abordados por serviços brasileiros de checagem. Disponível em: https://www.abraji.org.br/seminario/PDF/6/ANA_BEATRIZ_TUMA_et_al-Fact-checking_e_debunking_na_cobertura_de_saude.pdf. Acesso em: 13 fev. 2020.

    UOL. Indiano se enforca após suspeita de coronavírus; OMS alerta contra pânico. Disponível em:https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/02/13/indiano-se-enforca-apos-suspeita-de-coronavirus-oms-alerta-contra-panico.htm. Acesso em: 13 fev. 2020.

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