Covid-19 – Tornamos a empacar?, por Felipe A. P. L. Costa

Trocando em miúdos, é perfeitamente possível arrastar e aprofundar o sofrimento da população até dezembro. Até lá, não custa lembrar, não haverá qualquer recuperação econômica duradoura. Apenas pilhagens e algumas golfadas.

Covid-19 – Tornamos a empacar?

por Felipe A. P. L. Costa [*]

O Ministério da Saúde acaba de divulgar as estatísticas de hoje (26): 46.860 casos e 990 mortes. No cômputo geral, já seriam 1.274.974 casos e 55.961 mortes.

A escalada nas estatísticas ao longo desta semana mostra como foram precipitadas as medidas de afrouxamento adotadas pelos governantes nas duas semanas anteriores (8-21/6). No ritmo atual, parece inevitável que o número de casos chegue bem perto de 1,5 milhão até o dia 30/6, como eu havia estimado (de modo otimista) no início do mês (ver artigo ‘O país irá contabilizar entre 1,5 milhão e 2,2 milhões de casos até o fim de junho’).

O que há por trás dessa escalada?

No âmbito deste artigo, a resposta à pergunta acima é mais ou menos óbvia: a taxa de crescimento no número de novos casos.

Mas o que foi que houve? O que houve foi que a média semanal da taxa de crescimento, cujo valor já poderia estar próximo ou até abaixo de 1% [1], parou de declinar e estagnou. O que nos permite imaginar que a próxima semana será igual ou ainda pior que a atual [2].

Relembrando.

Em 31/5, após sete semanas chafurdando entre 6% e 8% (ver a figura que ilustra este artigo), eis que a média semanal caiu para 5,1% (25-31/5), o menor valor até então.

Daí por diante, a média seguiu declinando, ainda que na semana passada tenha emitido sinais de que poderia encalhar de novo. Vejamos os resultados: caiu de 4,3% (1-7/6) para 3,3% (8-14/6) e daí para 3,2% (15-21/6). A média da semana em curso (a ser computada no domingo, 28) deverá ficar entre 3% e 3,2%.

*

FIGURA. A figura que ilustra este artigo mostra a variação na taxa de crescimento diário no número de novos casos da Covid-19 na população brasileira (eixo vertical; β expresso em porcentagem), entre 21/3 e hoje (26/6). Doze agregados de pontos podem ser identificados (A-L) e um 13º (M) ainda está em formação (para detalhes, ver nota 1). As setas estariam a representar algo como a direção e o sentido da força dominante dentro de cada agregado: setas pretas empurram para baixo e as vermelhas, para cima. (A ausência de seta indica a falta de uma direção definida.) A linha tracejada representa algo como a trajetória média de todos os pontos. (Em termos de análise estatística, basta dizer que os resultados são significativos.) Em vermelho escuro, os resultados de março; em rosa claro, os de abril; em azul claro, os de maio; em marro claro, os de junho; os quadrados em azul escuro correspondem a domingos. O gráfico menor no canto superior direito ilustra a variação no tempo de duplicação (TD) no número de casos, ao longo do mesmo intervalo de tempo do gráfico maior. (O eixo vertical indica o valor de TD, em dias.) Os valores extremos da série foram 3,1 (31/3) e 42,7 (21/6), indicando que (a) mantido o valor de β obtido para 31/3, seriam necessários 3,1 dias para dobrar o número de casos; e (b) mantido o valor de 21/6, seriam necessários 42,7 dias para dobrar o número de casos. Em meio a sucessivas oscilações, é possível notar uma lenta escalada da curva.

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*

Ouso dizer que nós estamos empacados. De novo.

E repito aqui o que escrevi em artigo anterior – Que os governantes atentem para o seguinte: assim como era possível que a nossa média semanal já estivesse em um patamar próximo a 1% (ver aqui), com um número bem inferior de casos e, por extensão, de mortes, é perfeitamente possível permanecer em banho-maria até dezembro.

Trocando em miúdos, é perfeitamente possível arrastar e aprofundar o sofrimento da população até dezembro. Até lá, não custa lembrar, não haverá qualquer recuperação econômica duradoura. Apenas pilhagens e algumas golfadas.

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Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Monitorando a pandemia. Para avaliar a disseminação da Covid-19 (em qualquer escala geográfica – mundial, nacional ou estadual), sigo calculando uma taxa de crescimento diário no número de novos casos (i.e., no número de indivíduos infectados com o SARS-CoV-2). Esta taxa (simbolizada aqui pela letra grega minúscula β) tem sido definida como β = ln {Y(t+1) / Y(t)}, onde Y(t+1) é o número de casos no dia (t+1), Y(t) é o número de casos no dia anterior, e ln indica logaritmo natural.

A taxa de crescimento não é uma constante, de sorte que o valor de β pode oscilar de um dia para o outro. Se a oscilação é de cima para baixo, dizemos que o parâmetro declinou; se é de baixo para cima, dizemos que o parâmetro escalou. Caso não haja oscilação ou caso a oscilação seja inexpressiva, rotulamos momentaneamente o valor de estacionário. Para exemplos de como calcular o valor de β e o tempo de duplicação, ver a compilação A pandemia e a longa agonia de um país desgovernado.

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Construindo um gráfico. Quando os valores de β são colocados em um gráfico (ver a figura que acompanha este artigo), 12 agregados de pontos (elipses A-I) podem ser identificados (e um 13º parece estar em formação), a saber:

(A) Entre 21 e 30/3, intervalo durante o qual a taxa de crescimento declinou desde β = 24,8% até β = 7,6% (houve um excepcional 37,1%, em 22/3, mas aí se trata de um ponto fora da curva);

(B) Entre 31/3 e 6/4, quando, após uma inesperada e significativa escalada (30-31/3), a taxa tornou a declinar, dessa vez desde β = 24,8% até β = 8,3%;

(C) Entre 7 e 14/4, quando, após uma segunda e significativa escalada (6-7/4), a taxa tornou a declinar uma terceira vez, desde β = 16,1% até β = 5,5%;

(D) Entre 15 e 21/4, quando, após uma terceira escalada (14-15/4), a taxa tornou a declinar uma quarta vez, variando desde β = 12,1% até β = 5%;

(E) Entre 22 e 30/4, intervalo durante o qual – pela primeira vez! – a taxa oscilou para cima, variando entre β = 5,8% e β = 10,4%;

(F) Entre 1 e 9/5, quando, após uma queda expressiva (30/4-1/5), a taxa tornou a oscilar para cima uma segunda vez, variando entre β = 4,9% e β = 9,2%;

(G) Entre 10 e 16/5, quando, após uma queda significativa (9-10/5), a taxa oscilou para cima uma terceira vez, agora variando entre β = 3,5% e β = 7,5%;

(H) Entre 17 e 22/5, quando, após mais uma queda significativa (16-17/5), a taxa oscilou para cima uma quarta vez, agora variando entre β = 3,4% e β = 7,3%;

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(I) Entre 23 e 30/5, quando, após uma pequena queda (22-23/5), a taxa oscilou para cima uma quinta vez, variando entre β = 3,2% e β = 7,2%;

(J) Entre 31/5 e 6/6, quando, após uma queda bem expressiva (30-31/5), a taxa oscilou para cima uma sexta vez, agora variando entre β = 2,4% e β = 5,5%;

(K) Entre 7 e 13/6, quando, após uma pequena queda (6-7/6), a taxa variou (mas sem direção definida) entre β = 2,4% e β = 4,5%; e

(L) Entre 14 e 20/6, quando, após uma semana de aparente estagnação (7-13/6), a taxa tornou a oscilar para cima uma sétima vez, variando entre β = 2% e β = 5,6%.

[2] Os governantes precisam sinalizar de que lado eles estão. Ou eles estão ao lado da sociedade ou eles estão preocupados com os negócios. É inconcebível, por exemplo, que o governador de SP, em uma vã (e tola) tentativa de querer agradar a gregos e troianos, fique a anunciar – quase que diariamente – que vai relaxar esta ou aquela medida, abrir este ou aquele setor da economia. Cansa, desanima, desmobiliza. Ele já deveria saber: assentada a poeira da demagogia, a terra desolada que sobra é prontamente explorada por gaiatos ainda mais oportunistas. Dito de outro modo: o governador deveria parar de apertar a corda que ele próprio colocou em torno do pescoço.

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2 comentários

  1. Até pelo desconhecimento da doença,mas não somente isso,parece que as medidas tomadas pelos governantes tem muito mais um caráter burocrático do que efetivo. Na maioria das cidades as restrições tem sido respeitadas parcialmente e,conforme demonstrado em diversas matérias na mídia golpista,não é nenhum pouco difícil encontrar pessoas aglomeradas,sem respeitar o devido distanciamento e sem máscaras. Tudo na frente das autoridades que deveriam se esforçar para conscientizar e evitar que isso aconteça.
    Assim,a verdade é que estamos em cada um por si e,para os crentes,Deus para todos.

    • Não podemos deixar de mencionar que as “autoridades” são golpistas seguidores do boçalnaro e seus generais golpistas ditadores mourão, heleno, braga, vilas-boas etc etc etc etc etc etc….

      só com muita ajuda de Deus nos livraremos das milícias-milicos-maçônicas que piratearem o Brasil e os brasileiros não golpistas.

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