Pazuello tenta lavar as mãos do colapso em Manaus e traz versões divergentes

Ex-ministro disse que fez tudo o que poderia ter feito, responsabilizou governo do Amazonas, e sem contatar autoridades da Venezuela e dos EUA que ofereceram ajuda, Pazuello disse que aceitou "todas as ofertas de oxigênio"

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Jornal GGN – Investigado em inquérito do Ministério Público Federal pelo colapso sanitário do Amazonas, o ex-ministro Eduardo Pazuello lavou as mãos sobre a morte de centenas de pessoas diariamente em Manaus e outras cidades da região, em janeiro deste ano, boa parte asfixiados pela falta de oxigênio nos hospitais.

Em uma sequência de omissões e versões distoantes das apurações oficiais que tramitam na Justiça, o ex-ministro afirmou que fez tudo o que poderia ter feito no episódio, responsabilizou o governo do Amazonas por não ter pedido ajuda antes, afirmou que só soube da falta de oxigênio no dia 10 de janeiro, em reunião presencial com o governador Wilson Lima (PSC), e sem nunca ter entrado em contato com autoridades da Venezuela, que ofereciam insumos, e dos Estados Unidos, que disponibilizaram aeronaves para o transporte dos cilindros de oxigênio, Pazuello disse que aceitou “todas as ofertas de oxigênio”.

Em uma das primeiras divergências com as informações divulgadas oficialmente é que Pazuello negou ter tido conhecimento do email enviado por um representante da White Martins, empresa fornecedora de oxigêncio, no dia 8 de janeiro. O Inquérito do Ministério Público traria essa informação, segundo o senador Humberto Costa, e que também se tornou pública com a divulgação da imprensa, à época.

“Vossa Excelência teve teve conhecimento deste email, da White Martins?”, perguntou o relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL). “Não”, negou o ex-ministro.

“Em que momento o senhor foi informado do risco de desabastecimento em Manaus?”, voltou a perguntar Renan. “No dia 10 [de janeiro], à noite, numa reunião com o Secretário de Saúde [de Manaus]”, respondeu o general.

Entretanto, as versões oficiais do Ministério da Saúde sobre os fatos à época foram diversas vezes modificados, desde que as investigações deram início. Em depoimento à Polícia Federal em Brasília, por exemplo, no dia 4 de janeiro, Pazuello disse que foi informado da falta de oxigênio no dia 10 de janeiro, na viagem que fez à Manaus, a mesma versão entregada, agora, à CPI.

Um documento oficial da Advocacia-Geral da União (AGU) entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), contudo, traz outra informação: de que a Saúde soube da falta de oxigênio no dia 8 pela carta enviada por um representante da White Martins. Logo após a informação dada pela AGU, durante uma entrevista coletiva, ainda em janeiro, no dia 18, Pazuello afirmou que foi avisado pela empresa no dia 8 de janeiro.

Pela terceira vez, contudo, a pasta modificou a versão e informou em um pedido de retificação enviado ao Supremo de que Pazuello disse ter sido informado somente no dia 17 de janeiro.

Agora, à CPI, o ex-ministro volta a falar de 10 de janeiro.

A data favorece a versão de que o Ministério da Saúde teria atuado rapidamente na crise sanitária de Manaus. Isso porque, com esta versão -a quarta diferente-, a sequência do cronograma de ações da pasta teria sido rápido.

“Eu estava em Manaus, com minha equipe, tinha levado toda a minha equipe. Não havia a discussão de oxigênio, havia uma curva de contaminação alta, colapso dos hospitais, eu precisava avançar para lá com meus secretários. Essa foi a razão de ter ido à Manaus. No dia seguinte, às 7h da manhã, me reuni com a White Martins, que colocou para mim que sim estava com dificuldades logísticas grandes. (…) No dia 11, depois da reunião, fizemos a abertura do Centro integrado de Coordenação e Controle com o estado, município e Forças Armadas, e puxamos a coordenação logística para o Centro. No dia 12 ,já chegou a primeira aeronave trazendo oxigênio liquido. Quando entramos, entramos com bastante força”, narrou.

“Por que as medidas tomadas por vossa Excelência não foram suficientes para evitar o colapso?”, perguntou Calheiros. “Tomamos as medidas possíveis, as medidas possíveis a partir do dia 10 foram executadas, todas executadas. Tivemos como tempo de resposta em 4 dias, 5 dias, nós já estavamos com os níveis de estoque sendo restabelecido. Se nós soubessamos antes, poderíamos ter agido antes”, afirmou.

A versão distoante que tiraria de Pazuello a responsabilidade da grave crise sanitária de Manaus e de toda a região do Amazonas em janeiro deste ano foi seguida da tentativa de responsabilizar o governo local, que também é alvo do inquérito do Ministério Público.

“É preciso compreender a missão do Ministério, que é fazer o programa, colocar recursos. A execução é do município, do estado. Quando fomos à Manaus é porque vimos que a situação não estava boa. No momento que soube eu comecei a agir, imediatamente”, disse.

O noticiário da época revela, contudo, que as notícias sobre a falta de oxigênio em Manaus já circulavam antes da chegada de Pazuello e de sua comitiva. O senador Eduardo Braga (MDB-AM) lembrou, também, que mesmo se o então ministro tivesse tomado conhecimento somente no dia 10, até o dia 20 de janeiro milhares de amazonenses morreram pelo colapso, o que não se confirma que a pasta atuou com celeridade, mas ao contrário.

O tema sobre o conhecimento ou não de Eduardo Pazuello da carta enviada pela White Martins não foi completamente esclarecido naquele momento da sessão, porque o caso tramita no Ministério Público em segredo de Justiça e os parlamentares não poderiam vazar informações sobre o caso em andamento.

Ainda sobre o episódio de Manaus, Pazuelo foi questionado sobre não ter entrado em contato com o governo da Venezuela e tampouco com autoridades dos Estados Unidos, que aguardavam informações técnicas da pasta para disponibilizar um avião norte-americano, à espera dessa resposta, para o transporte de cilindros de oxigênio ao Amazonas.

“Por que a gente nunca pediu aquele avião da Boeing?”, perguntou Renan. “Eu aceitei todas as ofertas de oxigênio”, desviou o general.

“O que eu me recordo é que para nós seria excepcional ter, sim [o avião], ‘nós queremos, ponte-aérea Miami e Manaus’. Mas eu pessoalmente não liguei para os EUA, não fiz essa solicitação”, afirmou à CPI. Ao ser questionado o motivo, justificou que não teria sido solicitado a ele as informações por parte das autoridades internacionais.

“Do dia 10 ao dia 20, passaram-se dez dias morrendo em média duzentas pessoas por dia no Amazonas. Foram dois mil amazonenses que morreram. Nós poderíamos ter colocado aquele oxigênio, ministro. E o que nós queremos saber é o seguinte, faltou dinheiro ao governo do Estado pra fazer isso?”

“Não”, respondeu Pazuello. “Faltou vontade política do governo federal em fazer isso?”, questionou Braga. “Não”, disse o ex-ministro. “E por que então não fez? Por que que não deu as informações ao ministro Ernesto Araújo para que o avião dos Estados Unidos pudesse ter ido à Venezuela buscar o oxigênio e levar para o Amazonas pra salvar vidas? É pro povo brasileiro quer saber. Quer saber.”

“O ministério nunca foi instado, o que eu soube do avião por avião foi por telefone, e eu disse sim, o Ministério quer todas as possibilidades. Em nenhum momento me chegou pedido de especificações”, disse Pazuello.

Após as primeiras declarações sobre o tema, o ex-ministro chegou a afirmar que o estoque de oxigênio em Manaus teria ficado negativo durante somente 3 dias. O senador Eduardo Braga (MDB-AM) rebateu: “Informação errada, mentirosa. Não faltou oxigênio no Amazonas apenas 3 dias. Faltou oxigênio na cidade de Manaus por mais de 20 dias. É só ver o número de mortos. É só ver o desespero”, criticou.

“Não são os dados que estão comigo”, restringiu-se a responder.

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Acompanhe o depoimento de Eduardo Pazuello na CPI da Covid:

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