Azul, rosa e a criação permanente de crises, por Gilberto Maringoni

Azul, rosa e a criação permanente de crises

por Gilberto Maringoni

A exaltação da ministra Damares Alves às cores supostamente destinadas a meninos e a meninas viralizou nas redes. O brado retumbante é anacrônico e exala preconceito. Mas é também a comemoração de uma vitória da direita fundamentalista nas chamadas pautas identitárias.

Jair Bolsonaro fez de temas ligados à sexualidade um dos vetores principais de sua campanha. Kit gay, mamadeira de piroca e outros factóides inexistentes no mundo real serviram de munição para um combate simbólico sério. E a esquerda perdeu. 

Se for feita uma pesquisa entre a população, com a pergunta “O sr./sra. acha mesmo que azul é de menino e rosa é de menina?”, é bem possível que a maioria responda “Sim, acho”.

Assim, a ministra Damares pode ter dito um absurdo para bolhas de classe média intelectualizada, mas reiterado a mais pura verdade para a maioria.

VALE OUTRA PERGUNTA, dessa vez para os setores progressistas: que objetivo a titular da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos tinha com a sentença, proferida quase em êxtase, além de comemorar vitória?

O dilema das cores nada tem de secundário na luta ideológica desatada pelo governo Bollsonaro.

É inútil repetir que enquanto se discutem roupas de meninos e de meninas, Paulo Guedes vai fazendo barbaridades. Trata-se de uma única batalha.

A AÇÃO CENTRAL da nova gestão é a disputa ideológica, ou “guerras culturais”, como querem os mais modernos. Em português claro, uma disputa de hegemonia. Isso se dá criando-se uma mistificação – falsa consciência – na agenda nacional, o que envolve a escolha de inimigos a todo momento e o apelo a conceitos totalizantes, como “nação”, “pátria”, “amor” etc. Aqui estariam todos os brasileiros “de bem”.

Quem estiver contra o governo, logo será acusado de inimigo da pátria, assim como a facada no candidato-presidente foi denunciada por ele como obra dos “inimigos da pátria”, em discurso no púlpito do Palácio.

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A criação de uma mitologia sobre o grande mal que paira sobre todos nós – o socialismo, a esquerda, a ideologia de gênero, o bolivarianismo, o politicamente correto e outros – é central na produção de ações oficiais nos próximos meses: tensão e turbulência.

O GOVERNO BOLSONARO não apenas é produto de uma profunda crise, como precisa urgentemente fabricar crises para se manter em pé. Assim, jamais fará apelos “à união de todos” ou à “pacificação”. Repetindo: a Pátria do bolsonarismo é a Pátria dos cidadãos de bem. Não é a de todos. Quem estiver de fora deve ser triturado!

O capitão tem de transmitir à população a ideia de comandar um país em guerra. E qualquer guerra em qualquer tempo precisa de um inimigo visível.

O bordão criado pela ministra Damares integra esse roteiro de tensão permanente como ação administrativa. O alvo é muito mais que a “ideologia de gênero”. É o que seria um braço do grande mal existente em nossa sociedade.

Nesse raciocínio, não há contradição entre combater o besteirol anil-róseo e fazer frente ao desmonte provocado pela política econômica.

Os planos de Paulo Guedes só podem ser aplicados em um país em permanente e crescente estado de crise, em que todos estejam permanentemente com os nervos a flor da pele.

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7 comentários

  1. É o tipo de situação em que a

    É o tipo de situação em que a pessoa pega a sua visão de mundo, por mais tosca que seja, e começa a ler e apontar o dedo.

    Não tem muito a ver com ciência, e olha que vai ter muita gente que discordará, pois em ciência também se equivoca. 

    A se olhar nas vitrines de lojas de roupas masculinas e o rosa é usado como cor em camisa social…

    O medo travestiu-se de esperança. 

  2. A Globo inventou um nós contra eles.

    Para cumprir seu papel no golpe a Mídia e em particular a Globo criou o mito de que o PT havia polarizado e criado na sociedade um nós contra eles.

    Bolsonaro vai criar um governo de eu  contra todos. E quem não está comigo é meu inimigo.

    Seria engraçadinho  e infantil  se fossem crianças…….

  3. os Araras dirrubarao a ministra das cores
    A falta de apoio da funai no caso atual invasao de terra dos araras derrubara a ministra e calará o presidente internacionalmente… afinal a linha vermelha que separa area do incra e terra indigena é compromisso desde os tempos da abertura da transamazonica pelos generais. Seja bem vindo ao Brasil a visita dos assessores do Senado Americano.

  4. Cortina de Fumaça

    Os sub-fantoches do bolsonrismo continuarão a criar factoides para entrenter os lacradores e a esquerda caviar enquanto o chicago boy faz seu truque de fazer a riqueza nacional desaparecer e tirar um divida pública impagavel da cartola.

  5. Retrocesso total

    Amigos, será que os 89 milhões de pessoas, tão cidadãos, que democraticamente não votaram no Bolsonaro, ou deixaram(abstiveram-se de votar,) quanto os 57 milhões de eleitores que elegeram-no, terão que ficar 4 anos, neste clima de terror, criado “de cima para baixo” em troca de um hipotético governo de reconstrução ? 

    Se esse for o preço, acho que não poderemos pagar tão caro preço, e antevejo uma revolução social, que certamente será feita, por estes 2/3 de brasileiros, que querem progresso com liberdade, e não retrocesso institucional, debaixo de cipoadas. 

    Queremos um Brasil sem intolerâncias; Sem perseguições, por razões étnicas e/ou políticas; Sem decisões governamentais, tomadas por fundamentalismo religioso.

    Queremos um Brasil aonde todos tenhamos os mesmos direitos.

    Queremos um país tão coloridamente mixto, como um arco-íris, e não uma nação vestida por ideologia de gêneros( ou falta dela) de azul e de rosa.

  6. As contas não batem…

    “a ministra Damares pode ter dito um absurdo para bolhas de classe média intelectualizada, mas reiterado a mais pura verdade para a maioria.”

    Mas se olharmos os mapas de votação, veremos que Bolsonaro venceu em todas as “bolhas de classe média”, intelectualizadas ou não, e perdeu nos bolsões de pobreza.

    Não sei se a classe média acredita no besteirol bolsonariano, mas com certeza votou nele (mais de uma vez ouvi/li eleitores de Bolsonaro expressarem a certeza absoluta de que Bolsonaro não faria o que prometia fazer: não iria mexer na Previdência, não iria perseguir professores, não iria submeter o Ministério Público, não iria autorizar as polícias a atirarem para matar. Por que as pessoas votam em um candidato para que ele não implemente a sua plataforma? Caso a ser estudado.)

    No mais, concordo com a tese central do texto: as abobrinhas “culturais” são parte integrante do pacote bolsonarista. Deixar de combatê-las em nome de “centrar” na ofensiva econômica de Guedes é pedir para perder nas duas frentes.

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