FIFAgate entra na quarta semana de julgamento com acusações de Hawilla

Entenda como funcionou o esquema de pagamentos pela Traffic para direitos de transmissão a diversos cartolas. Gravações telefônicas, mensagens de texto e comprovantes bancários são provas levantadas por Hawilla em colaboração com a Justiça norte-americana. Detalhes foram dados na audiência desta segunda e terça-feira
 

Foto: Spencer Platt/Getty Images
 
Jornal GGN – Na quarta semana do julgamento do escândalo de corrupção na FIFA pela Corte do Brooklyn, nos Estados Unidos, o depoimento do empresário brasileiro J. Hawilla, proprietário da empresa de marketing esportivo Traffic, é o destaque das investigações. 
 
Os detalhes de como funcionava o esquema de pagamento de propinas a cartolas como o ex-presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, ao ex-presidente da Associação de Futebol Argentino, Julio Grondona, e ao ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, renderam a Hawilla o perdão de parte dos crimes cometidos. Ainda assim, o empresário deve receber uma pena de até 80 anos, além do pagamento de multa que já está sendo feito.
 
Boa parte do depoimento de Hawilla na manhã de hoje foi destinado a transmitir diversas gravações dele, em chamadas telefônicas a Kleber Leite, dono da empresa de marketing esportivo Klefer e ex-presidente do Flamengo, sobre as propinas envolvendo a Copa do Brasil. 
 
As gravações já haviam sido entregues pelo ex-presidente da Traffic à Justiça norte-americana, e foram feitas, inclusive, em colaboração com o FBI durante o processo de delação do empresário no julgamento do FIFAGate.
 
Na noite desta segunda-feira (04), o Uol conversou com Kleber Leite, que colocou em xeque a veracidade das transcrições, cujos trechos foram acessados pelo jornal. “Estranho profundamente isso. Você ouviu o áudio? Transcrição é uma coisa relativa. Tanto que há a transcrição do áudio de uma conversa do Hawilla comigo que não corresponde à realidade. Coloco em dúvida tudo isso, não é verdade. São três pessoas sendo julgadas, e passam a tarde sem nada que se relacione às três pessoas. São réus confessos contando piadas, proezas da vida deles. São áudios que absolutamente não correspondem à realidade. É um atentado à democracia”, havia dito.
 
Entretanto, para não restar dúvidas sobre os conteúdos das chamadas, as gravações foram transmitidas na manhã desta terça na Corte do Brooklyn. E foi imediatamente após serem ouvidas que Hawilla começou a detalhar caso a caso sobre as provas reveladas.
 
As gravações teriam sido feitas nos primeiros meses de 2014, quando o ex-presidente da Traffic trabalhava para obter de Leite a confissão do pagamento de propinas a Ricardo Teixeira, Jose Maria Marín e Marco Polo Del Nero, e também para esclarecer à Justiça quanto teria sido destinado a cada um dos cartolas.
 
De acordo com o jornalista do BuzzfeedNews Ken Bensinger, em determinado momento, Leite mostra a desconfiança na chamada: “Eu acho que o telefone é uma coisa muito perigosa, sabe… Acho que é melhor a gente falar sobre isso pessoalmente”, teria manifestado o empresário e ex-presidente do Flamengo.
 
Foi apenas no dia 31 de março daquele ano que Leite envia a Hawilla uma mensagem de texto com a informação do pagamento de propina: “No passado era 1,5. Agora, contando o passado e futuro, adicionado, 2.0”. A referência era que o plano anterior era para pagar um total de R$ 1,5 milhão pra três funcionários, mas houve um aumento para R$ 2 milhões.
 
Ainda, para comprovar sua fala, além da própria mensagem de texto, o empresário anexou cópias de transferêncais bancárias, em dólares, equivalentes a R$ 1 milhão da Traffic destinadas à Klefer, como metade dos pagamentos de subornos, com a referência da transferência escrita “Copa do Brasil 2013”.
 
Novamente, repetiu que houve repasses de propinas a Teixeira, Marco Polo e Marin. No depoimento, contou que após um mês da assinatura do acordo, Kleber Leite o chamou para dizer que “tínhamos um acordo para pagar subornos”. Inicialmente, Leite teria dito que seriam R$ 1,5 milhão por ano, o total de R$ 500 mil para cada um dos cartolas.
 
De acordo com Ken Bensinger, que acompanha os depoimentos, as propinas eram pagas para direitos comerciais e de televisão, para direitos de patrocínio e para contratos com as agências.
 
“A categoria de direitos inclui a Copa da CONCACAF e Champions League, os campeonatos da Copa Libertadores, Copa América, Copa Sudamericana, Sul-americano Sub-17, Sub-19 e Sub-20; Centenário da Copa América; Copa do Caribe; Copa do Brasil e amistosos brasileiros; Eliminatórias da Copa do Mundo em casa, a Copa do Mundo FIFA, e os jogos olímpicos da CONCACAF e da CONMEBOL”, informou o jornalista.
 
Já para os direitos de patrocínio, Hawilla não foi responsabilizado pelos crimes que remontam a 1989, de marcas como a Umbro; Nike Europa; Coca-Cola Brasil; Coca-Cola; e Pepsi-Cola. Questionado pelo tribunal norte-americano sobre estes acordos, Hawilla disse que se tratavam de “empresas legais”.
 
Da mesma forma, o empresário brasileiro não será acusado pelas negociações feitas, entre 1995 e 2014, com a Match Hospitality AG, empresa inglesa e mexicana que controla a maior parte da comercialização de bilhetes da FIFA, hospitalidade e acomodações, e detinha estes direitos para a Copa do Mundo de 2014 e a Copa das Confederações 2013.
 
“Outro tema que gerou também imunidade a Hawilla foram os contratos de representação da Traffic com a CBF do Brasil e com a Match Hospitality AG. Não forneceram detalhes, mas Hawilla e o Grupo Águia do Brasil foram os responsáveis da Match por vender bilhetes e pacotes VIP do Mundial de 2014”, detalhou, ainda Bensinger, sobre o julgamento.
 
Por confessar parte da culpa, o brasileiro J. Hawilla concordou em pagar US$ 151 milhões ao governo dos Estados Unidos, sendo que US$ 25 milhões destes teriam que ser pagos no momento em que se confessou, e o restante deveriam ser divididos em duas parcelas posteriores. 
 
Ele ainda não cumpriu com o acordo da multa estabelecida pela justiça norte-americana. Culpando a crise econômica brasileira, o empresário disse que não conseguiu vender a Traffic, o que agora se tornaria ainda mais difícil. Por isso, pediu um maior limite de prazo. Do total, ainda deve US$ 106 milhões.
 
 
 
 

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