Operações policiais no Rio superam 2019 e impedem ações solidárias em favelas

Em abril houve 57,9% mais mortes decorrentes de operação policial no Rio do que o mesmo mês do ano passado, diz estudo

Voluntários que distribuem cestas básicas e vivem em comunidades relatam dificuldade diante de tiroteios - Frente CDD/Divulgação

do Brasil de Fato

Operações policiais no Rio superam 2019 e impedem ações solidárias em favelas

Eduardo Miranda
Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |

Uma ação da Polícia Militar e do Batalhão de Operações Especiais (Bope) terminou com um jovem morto na noite de quarta-feira (20) na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio. João Vitor Gomes da Rocha, de 18 anos, foi atingido enquanto acontecia a entrega de 200 cestas básicas por voluntários do bairro, na localidade Pantanal. O jovem foi levado por policiais no “caveirão” para o hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas não resistiu.

Nas redes sociais, o conselheiro tutelar e educador popular Jota Marques, que integra a Frente CDD, responsável pelas cestas, disse que os policiais apontaram armas para os voluntários enquanto eles tentavam entrar em um carro depois da ação. “Somos todos da Cidade de Deus, educadores, trabalhadores locais, artistas. Estávamos numa ação entregando 200 cestas básicas”, disse Marques, esclarecendo que nenhum membro da Frente CDD foi ferido.

Em um vídeo que circulou logo após a operação, um outro membro do coletivo relatou a situação em detalhes, de dentro da casa de um morador, na localidade Pantanal, onde as cestas estavam sendo entregues.

“E aí, seu governador, tudo bem com você? Estamos dentro da casa de moradores, com nossa roupa infectada porque a bala está comendo lá fora e estamos aqui, encurralados, com crianças chorando e com medo. Estávamos levando cesta básica para as pessoas para fazer o que o Estado não faz, porque o Estado só leva bala para dentro da favela. Muito obrigado, seu governador”, comentou o outro integrante da Frente CDD.

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A operação na Cidade de Deus ocorreu um dia depois de uma outra ação de agentes de segurança pública provocar a morte de um adolescente de 14 anos no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. O estudante João Pedro Mattos Pinto estava no quintal de casa quando traficantes pularam o muro para fugir. Agentes da Polícia Federal e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) fizeram vários disparos e o jovem foi baleado na barriga e morreu.

De acordo com a ONG Rio de Paz, que esteve na casa de João Pedro horas depois de a família reconhecer o corpo do jovem no IML de São Gonçalo, havia 72 marcas de tiros no local. Um representante da ONG disse que os tiros atingiram todos os cômodos da casa, também aparelhos domésticos, como a televisão da sala.

Mais incursões 

Dados divulgados nesta quinta-feira (21) pela Rede de Observatórios da Segurança, projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), mostram que as operações policiais no combate ao tráfico de drogas superaram os números de 2019. Com isso, a letalidade policial também aumentou. Em abril de 2020, houve 57,9% mais mortes decorrentes de ação policial do que o mesmo mês de 2019. Em maio de 2020, até o dia 19, o total de mortes também superou o mesmo período no ano anterior.

As mortes em operações monitoradas em 2020, que tiveram uma forte queda no começo da epidemia (-82,6% em março), superaram as do ano passado em abril e maio (aumento de 57,9% em abril e 16,7% até 19 de maio). Os dados indicam que, durante a epidemia, nos meses de abril e maio, as polícias do Estado do Rio de Janeiro usaram mais força letal do que em 2019, quando o Rio de Janeiro teve o recorde de 1.810 mortes causadas por intervenção policial.

Para a coordenadora do Observatório de Segurança, a pesquisadora Silvia Ramos, o governador Wilson Witzel (PSC) repete o erro e se torna omisso. Ela afirma ainda, em entrevista ao Brasil de Fato, que o chefe do Executivo é “omisso por apoiar esse tipo de ação e pensar que não terá responsabilidade sobre atos tão violentos e tão brutais”.

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“Esses dados chocantes atestam uma política de segurança que está se repetindo descontroladamente, produzindo muitos danos e sem efeito positivo. Qual é o tipo de efeito positivo disso? Nenhum. Grupos armados locais se enraízam e adentram mais pela comunidade, produzem mais sofrimento para os moradores e daqui a 15 dias a polícia volta e produz um novo tiroteio. Essa política de muito confronto, muita morte, pouca inteligência e nenhuma investigação resulta em brutalidade e morte de crianças dentro de casa. Não se justifica, não se sustenta”, critica a pesquisadora.

Voluntários no alvo

A sensação de que a violência urbana não arrefeceu nem mesmo com a pandemia e a suspensão do funcionamento do comércio e de escolas, por exemplo, é confirmada pelos diversos relatos de ONGs que, assim como a Frente CDD, tentam fazer trabalho voluntário distribuindo alimentos e produtos de limpeza para pessoas das comunidades que estão sem trabalhar e outras que não tiveram acesso ao auxílio emergencial do governo federal.

No final de abril, por exemplo, foi a vez de voluntários do Gabinete de Crise do Alemão, composto pelos coletivos Papo Reto, Voz das Comunidades e Mulheres do Alemão serem obrigados a interromper a distribuição de alimentos e produtos na área que compõe o complexo de favelas da zona norte da cidade. Assim como ocorreu ontem na Cidade de Deus, voluntários tiveram que entrar na casa de moradores para sair do alvo de tiroteios.

“Durante a pandemia, tudo mudou. Políticas públicas mudaram, não só na saúde, mas na educação, na assistência social, em meio ambiente. Por que as políticas de segurança pública voltaram a ser o que eram e em condições ainda piores? Nesse momento, enquanto voluntários distribuem alimentos e campanhas tentam convencer os moradores de permanecerem em casa, a polícia obsessivamente produz terror e cada batalhão age por si e na base da violência. Onde está o governador Witzel? Será que está aplaudindo os tiros na cabecinha? Ele tem que responder por isso na sua biografia e na história do Rio de Janeiro”, completou Silvia Ramos, do Observatório de Segurança.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

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Edição: Mariana Pitasse

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