São curiosos esses tempos de polarização. A polarização explícita é dor de cabeça: expõe o radical a represálias da outra parte. Além disso, desde o aparecimento do bolsonarismo, não ficou de bom tom, na mídia, a defesa explícita das jogadas da direita.
Alguns colunistas passaram a desenvolver, então, o que se poderia taxar de falácia da falsa isonomia. Posam de isentos, fazem a defesa de acusações distorcidas contra um lado e, recorrendo ao mito da isenção, se valem do recurso da falsa equivalência.
É o caso do professor Pablo Ortellado, em sua coluna semanal em O Globo, “Briga entre pop e sertanejo faz mal à cultura“
Acompanho a carreira jornalística do professor Pablo Ortellado desde os tempos em que era o principal defensor dos black blocs nas manifestações de rua. O movimento era o principal álibi das forças de segurança para criminalizar a banda da esquerda das manifestações. Ortellado defendia as quebradeiras dos black blocs e atacava seus críticos de esquerda.
Depois, foi bancado pela revista Veja – no auge do jornalismo de esgoto -, através da Agência APública, para um estudo destinado a criminalizar os chamados blogs progressistas. Foi um estudo cheio de viés pró-contratante.
Começava pela constatação de que os usuários dos blogs eram muito mais velhos do que os usuários, por exemplo da UOL. Desde os tempos dos jornais, qualquer observador sabia que leitores de editorias de política e economia eram mais velhos do que os de esporte e variedades. Em vez de comparar leitores de políticas e economia dos veículos, Ortellado comparou o leitor da UOL, interessado em sites de celebridades, ou infantis, ou salas de bate-papo, com leitores de sites interessados em política e economia.
Foi o menor dos pecados. O grave foi ter montado uma comparação entre sites de ultra-direita, claramente difusores de notícias falsas, com sites de esquerda de cunho jornalístico. O trabalho foi apresentado em um evento montado pela Veja para o mercado publicitário, o que levou ao veto de publicidade das agências nesses sites.
A desonestidade intelectual foi remunerada pela Veja e lhe assegurou, tempos depois, o posto de colunista da Folha, ocupando o espaço supostamente destinado à esquerda. Todo seu trabalho consistiu em fazer a autocrítica da esquerda – jamais a crítica da direita ou a defesa de teses de esquerda.
Aos poucos foi se desenhando, para mim, um tipo esperto de militância de direita, para atenderà demanda da mídia: aquela que não se assume de direita, para espicaçar à esquerda com supostas autocríticas – e não tem crítica mais eficaz contra a esquerda do que a suposta autocrítica de um suposto pensador de esquerda.
Em O Globo, repetiu a fórmula. Dias atrás fez uma defesa da contratação de sertanejos por prefeituras, por cifras milionárias. No início, faz uma defesa da Lei Rouanet e critica algumas fake news sobre ela. A defesa é um álibi para uma suposta posição paritária em defesa dos sertanejos. Se a Lei Rouanet pode, as prefeituras podem. E toca a buscar a isonomia entre entidades totalmente distintas: grandes empresas privadas e pequenas prefeituras.
As reportagens sobre o tema trazem as seguintes informações e suspeitas:
- muitos dos shows são financiado com verbas de orçamento secreto;
- As contratações têm o claro intuito político, já que de prefeituras bolsonaristas contratando artistas que se manifestam publicamente em defesa do bolsonarismo;
- Há suspeitas de que parte dos cachês milionários retornem aos contratantes. Aliás, é prática corriqueira nessas contratações,
- O conceito de caro ou barato não se limita ao valor do cachê, mas à condição financeira de quem pagou. Os shows ocorrem, em geral, em prefeituras pequenas, com carência de investimentos em áreas essenciais.
Nosso bravo intelectual, no entanto, reduz toda a discussão à questão da dispensa de licitação:
“A dispensa de licitação para a contratação de artistas é uma prática legítima e bem estabelecida como instrumento de políticas culturais. Em geral, para compra e contratação de serviços, a administração pública precisa comparar preços, por meio de levantamento ou pregão. Quando os serviços não são comparáveis, como é o caso da apresentação de artistas, a licitação não se aplica. A prefeitura pode contratar diretamente, desde que pague valores de mercado. Todas as prefeituras e governos fazem assim, inclusive os de esquerda”.
A comparação com as contratações pela Lei Rouanet é indecente. Na Lei Rouanet – como reconhece Ortellado – quem contrata são empresas de mercado, que efetuam análises de mercado, tem retorno publicitário e de imagem e os recursos saem de suas verbas de marketing. Além disso, são submetidas a princípios de compliance e fiscalizadas pelos acionistas e pela mídia.
Esta coluna é mais um capítulo no que se poderia taxar de nova escola da retórica da falácia em ambiente polarizado.
ze sergio/sorocabanoburaco
6 de junho de 2022 2:38 pmCLEPTOCRACIA. 92 ANOS. Num filme mexicano, o Exército chega e leva a vaca e galinhas do Sitiante. É pra combater a Guerrilha criminosa. Logo depois aparecem os Guerrilheiros e roubam seu porco e carneiro. É pra combater este Governo Corrupto. O pobre Agricultor desabafa sua realidade: “Não importa de que lado você está ou qual lado vença, é sempre minha Família que passa fome”. Esta é realidade das falácias de Lei Rouanet dos Esquerdopatas ou Cachês Sertanejos dos Bolsonaristas. O que importa isto para o Povo Brasileiro?? É sempre o roubado que paga para todos. CLEPTOCRACIA.92 ANOS. (Hoje na Imprensa)Renan Calheiros envia das Verbas dos Congressistas, mais de 15 Milhões de Reais para cerca de uma dezena de Municípios pagarem por Shows de Artistas Renomados. Cidades da miséria subsaariana do interior de AL, menos de 50 mil habitantes de IDH’s animalescos ou sub-humanos. Cidades que agora sofrem as consequências das chuvas pela falta de Urbanização da ‘Indústria da Favelização e da Miséria’. Realidade semelhante a PE e Recife. 92 anos de Elites do ESTADO CAUDILHISTA DITATORIAL ASSASSINO ESQUERDOPATA FASCISTA. Indústria da Seca que produz a mesma realidade trágica nas chuvas. FOME??!! Pobre país rico. Falta dinheiro pra que? Falta dinheiro pra quem? Mas de muito fácil explicação.
Eduardo O. Silva
6 de junho de 2022 5:24 pmCaro Nassif é desta forma que a grande mídia finge dar espaço para diferentes opiniões fazendo a manutenção de um estado de coisas insustentável ecológica e socialmente, mas que produz muitos, muitos lucros. É a pluralidade do jornalismos de uma nota só. O pior é ter tanta gente marinada no medo cego da dado-esfera dos smartphones de dumb-peaple, que prefere a eterna repetição do mais do mesmo às transformações que são cada vez mais urgentes.
Um abraço e parabéns pelo trabalho.
Moacir R. de Pontes
6 de junho de 2022 7:39 pmFalácia da falsa isonomia… E aparece um comentário aqui mesmo… ativamente assumindo!
José de Almeida Bispo
7 de junho de 2022 7:23 amE já enganaram e ainda enganarão muitos.
O que tenho recebido de videozinho simpático, lógico, perfeito, de Leandro Karnal… distribuídos por militantes petistas e até esquerdistas radicais não está no gibi.
Jair Costa
7 de junho de 2022 3:26 pmA contratação através da chamada “dispensa da licitação” é uma brecha encontrada pelos
licitantes das prefeituras para desviar dinheiro público. E é excelente para esse propósito, há
a dispensa de licitação por carta simples, e não há limite de valores. O legislador criou essa
dispensa não para incentivo cultural, é um grave erro argumentar isso, a dispensa foi criada
por conta do princípio da “exclusividade” do artista (não há outro com o mesmo nome) agora
a lei é fraca quando pede no requisito “desde que consagrado pela crítica especializada ou
pela opinião pública”.
Vejam as vantagens: Não há limite de valores, o artista entrega tudo em só dia e vai embora da
cidade, os participantes da farra vão para o camarote exclusivo beber, curtir e comemorar com
o prefeito. Aí é só contar o dinheiro.
Segue o Silêncio dos Artistas no Brasil a Respeito de Gusttavo Lima
9 de junho de 2022 10:56 amNassif eu tenho minha teoria. Segura essa.
Alguém do meio artístico se pronunciou? Algum grande cantor se pronunciou?
Só a Anitta não foi?
Não é estranho? É. Mas nem tanto.
O silêncio é geral, os cantores não falam nada, bico calado, mas isso tem uma causa.
CUMPLICIDADE, eles sabem do esquema de propinas das prefeituras há décadas.
Ou participam do esquema ou não ganham dinheiro. Então para não prejudicar o negócio
e todo mundo de bico calado para não atrapalhar o negócio deles.
Falta uma grande aparato de investigação envolvendo ser montado para pegar todos.
Veja que muitos cantores, atuais e antigos, poderiam perder todo seu patrimônio se
estiverm envolvido.
Segue o silêncio.