5 de junho de 2026

Um sonho interrompido, por Paulo Nogueira Batista Jr.

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Um sonho interrompido

por Paulo Nogueira Batista Jr.

Fui afastado do cargo que ocupava aqui em Xangai no Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como Banco dos Brics. Escrevo em plena mudança, em meio a caixas e caixotes. Estou voltando para o Brasil, depois de mais de dez anos no exterior.

Fico feliz, pois dez anos já era demais. Há tempos pensava na volta, pois estava insatisfeito com o rumo que o NBD vinha tomando. Amigos e familiares diziam, unânimes: “Fica na China, o Brasil está péssimo”. Mas o Brasil, mesmo “péssimo”, é melhor do que a maioria dos países. Os brasileiros é que nem sempre estão à altura do Brasil.

Estou triste, entretanto, pela maneira como fui afastado do banco que ajudei a criar. Mais do que qualquer outro integrante do NBD, estive envolvido, a fundo, no processo que levou à criação do banco e do fundo monetário do Brics. Sonhávamos criar um banco global que estabelecesse novos padrões no financiamento do desenvolvimento.

A minha desestabilização começou por iniciativa de alguns funcionários do governo brasileiro. Destacou-se na operação um certo Marcelo Estevão, assessor do ministro da Fazenda, sujeito atabalhoado que, segundo me disse um ministro de Estado, é motivo de chacota em Brasília. Mas não vou gastar pólvora com ximango. O líder da operação foi o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Mal conheço o Goldfajn, mas, por motivos não totalmente claros, ele meteu na cabeça que precisava forçar a minha saída. Saiu dos seus cuidados como autoridade monetária para liderar uma verdadeira perseguição contra mim.

Para me demitir havia, porém, uma dificuldade. Tinha mandato até 2021 e não podia ser simplesmente afastado. Era preciso demonstrar que eu quebrara o código de conduta do banco.

Colocaram então pressão sobre o presidente do NBD e induziram-no a abrir contra mim dois processos administrativos. O primeiro teve origem na minha recomendação de demitir um funcionário brasileiro, Sergio Suchodolski, que tivera desempenho pífio no período probatório. Esse funcionário foi instado a entrar com queixa contra mim, com alegações de assédio moral. A acusação não prosperou, pois não havia evidências. A única coisa indubitável era a péssima atuação do tal brasileiro.

O que prosperou foi uma segunda acusação: a de que eu teria atentado contra o código de conduta em alguns artigos publicados nesta coluna. A acusação era ridícula. Mas o advogado contratado pelo banco para investigar o assunto concluiu que em alguns poucos artigos eu quebrara a neutralidade política e comentara assuntos político-partidários. Não havia base para tal conclusão, que desmontei por escrito, mas a questão dos artigos era mero pretexto.

Enfim, passou. Ficou uma sensação de decepção e sonho interrompido. É um sonho perfeitamente possível esse de criar um novo banco de desenvolvimento de alcance global, lançado por países emergentes, que poderia em alguns anos rivalizar com o Banco Mundial e outros bancos controlados pelos países desenvolvidos.

Mas os sinais que o NBD está dando, inclusive na forma como me tratou, sugerem que esse sonho dificilmente se realizará. Só uma nova administração poderá revigorar o banco e colocá-lo no rumo sonhado. Talvez o futuro da instituição esteja nas mãos do Brasil, que indicará o seu próximo presidente em 2020.

 

Paulo Nogueira Batista Jr.

Paulo Nogueira Batista é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021. E-mail: [email protected] X: @paulonbjr Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br Portal: www.nogueirabatista.com.br

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7 Comentários
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  1. André Oliveira

    28 de outubro de 2017 7:08 pm

    “Talvez o futuro da
    “Talvez o futuro da instituição esteja nas mãos do Brasil, que indicará o seu próximo presidente em 2020.”

    Quem sabe não será o Lula a indicar em 2020 o novo presidente. Façamos figa.

  2. Ivan de Union

    28 de outubro de 2017 8:58 pm

    Da proxima vez enfie um soco

    Da proxima vez enfie um soco na cara do primeiro que te “acusar”…

    Sorry, folks, mas voce tem que fazer as contas e tirar o time de campo quando nao tem maneira de ganhar.  Felizmente, voce nem tem que contar mortos!

  3. Brnca

    28 de outubro de 2017 9:19 pm

    Um dia

    Um dia ele(s) cai. Pode esperar para ver. E o tombo pode ser feio. Aquele senhor esqueceu rápido o histórico do nazi-fascismo na Europa e agora se abraça lépido e faceiro com seus representantes nacionais e internacionais que querem destruir o que já ficou demonstrado ser a melhor opção para os países emergentes envolvidos na criação do NBD.

  4. Serjão

    28 de outubro de 2017 9:52 pm

    Vai Passar

    É só uma batalha perdida e uma recuada estratégica, a guerra continua.

  5. Fabio !

    28 de outubro de 2017 10:36 pm

    Deus o livre

    Ainda bem que para legitimar sua saida se utilizaram de uma pífia coluna de jornal . 

    Veja o que fizeram com o Dominque Strauss-Kahn para arrancá-lo do FMI . 

  6. Vilson João Batista

    29 de outubro de 2017 1:26 am

    Um sonho interrompido, por Paulo Nogueira Batista Jr. O Jornal d

    Sim, desde ja estou torcendo para que o Lula indique o PRESIDENTE do Banco dos BRICS na ano de 2020, e assim o SONHO vai continuar porque os “SONHOS HUMANOS NÃO ENVELHECEM” … !!!

  7. Aldair

    29 de outubro de 2017 2:37 pm

    Banco do BRICS

    Infelizmente a sabotagem e a compiração dos filhotes de Trump estão conseguindo seus objetivos. Talvez só a China escape.

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