Uma “inflação benéfica'”?

UMA “INFLAÇÃO BENÉFICA”? UM POUCO MAIS DE INFLAÇÃO? – Façamos um debate sobre o histórico de inflação nos EUA, até para traçar um cenário comparativo com o Brasil.

Uma breve análise sobre o histórico de inflação nos EUA, com uma amostragem de 102 anos – entre 1914 e 2015 – nos dá algumas informações importantes.

Antes dessas informações, cabe destacar que a meta atual de inflação no Brasil é de 4,5% ao ano, com margem de 02 pontos percentuais para mais ou para menos (meta entre 2,5% e 6,5% ao ano).

Vejamos algumas informações a respeito da inflação lá na terra do Tio Sam¹:

1) A média de inflação nos últimos 102 anos é de 3,2% ao ano.

2) Não há inflação acima de 5% ao ano há 25 anos, desde 1990.

3) Não há inflação acima de 6,5% ao ano há 34 anos, desde 1981.

4) Nos 102 últimos anos não há absolutamente nenhum registro de inflação superior a 20% ao ano.

5) Em apenas 10 anos, dos 102 analisados, a inflação norte-americana ficou acima dos 10% ao ano.

6) Em apenas 16 anos, dos 102 anos em análise, a inflação nos EUA ficou acima do patamar de 6,5% ao ano (teto da meta atual do Brasil).

Passemos agora ao patamar mediano de inflação nos EUA, década por década:

-Década de 10 (1914 a 1920): 10,7% ao ano;
-Década de 20 (1921 a 1930): -1,7% ao ano;
-Década de 30 (1931 a 1940): -1,6% ao ano;
-Década de 40 (1941 a 1950): 5,6% ao ano;
-Década de 50 (1951 a 1960): 2,0% ao ano;
-Década de 60 (1961 a 1970): 2,7% ao ano;
-Década de 70 (1971 a 1980): 7,8% ao ano;
-Década de 80 (1981 a 1990): 4,7% ao ano;
-Década de 90 (1991 a 2000): 2,8% ao ano;
-Década de 00 (2001 a 2010): 2,3% ao ano;
-Década de 10 (2011 a 2015²): 1,6% ao ano.

Note-se que os EUA não adotavam o sistema de metas de inflação até janeiro de 2012. A partir dessa data a meta ficou oficialmente estabelecida em 2% ao ano.

A década de 70 foi marcada por um patamar elevado de inflação. Essa inflação só foi debelada a partir de 1981 quando o então presidente do FED, Paul Volcker, elevou subitamente a taxa de juros, que chegou a ficar acima de 21% ao ano.

Esse aumento fulminante na taxa de juros debelou a inflação dos anos 70 mas quebrou vários países mundo afora, incluindo o Brasil (crise da dívida externa).

Há algumas correntes de pensamento em Pindorama que advogam a tese de que um pouco mais de inflação é algo benéfico para o crescimento econômico. É uma defesa até respeitável, mas olhando para a experiência histórica da maior economia do Planeta Terra essa tese fica carente de base fática.

Se pode perfeitamente pensar, de acordo com os dados históricos, que essa estória de um pouco mais de inflação, como mola propulsora do desenvolvimento, é pura e simplesmente uma falácia.

Cumpre destacar que pior do que a inflação muito elevada, que corrói o poder de compra das classes laborais, é a deflação. As décadas de 20 e 30 do século passado, nos EUA, ilustram bem essa questão.

A inflação média no Brasil, desde a implantação do Plano Real de Itamar Franco, em julho de 1994, até dezembro 2014, ficou em 7,6% ao ano. É um avanço em termos históricos, mas ainda é um patamar médio consideravelmente elevado.

E por fim, é preciso dizer que o problema maior do Brasil atual não é a política monetária, mas sim a política fiscal. É preciso fazer uma recomposição fiscal, eliminando o déficit primário que tivemos em 2014 (0,6% do PIB).

Somente no ano passado o governo federal perdeu R$ 104 bilhões em renúncias e desonerações fiscais diversas.

Cortando essas renúncias pela metade já se poderia atingir plenamente a meta de superávit primário para 2015, de 1,13% do PIB (meta essa que é a menor dos 13 anos de governos do PT até aqui, com exceção do déficit verificado em 2014).

Nos últimos 30 anos, desde a redemocratização, o Brasil só teve déficit primário em apenas 06 oportunidades. Foi nos anos de 1987, 1988, 1989, 1996, 1997 e 2014.

Fazendo a recomposição fiscal abre-se espaço para uma política monetária menos contracionista. Esse é o caminho correto, não o de imaginar que uma tal de “benéfica inflação” irá resolver os problemas estruturais do Brasil.

¹ Com informações do US Inflation (Table of Historical Inflation Rates by Month and Year / 1914-2015). http://www.usinflationcalculator.com/inflation/historical-inflation-rates/

² Inflação de 2015 medida até o fechamento do primeiro quadrimestre (entre janeiro e abril).

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