Elon Musk aumentou sua fortuna para 1 trilhão de dólares. É notícia para ser lamentada ou comemorada?
por Petronio Portella Filho
Um trilhão é uma quantia difícil de imaginar. Qual seria, por exemplo, a duração de um trilhão de segundos? Se Musk sacasse 1 trilhão em notas de 100 dólares, qual o peso das cédulas? Se colocasse as cédulas de 100 dólares lado a lado, a trilha iria até a China?
Vou responder as três perguntas ao final. Antes gostaria de refletir sobre o personagem Elon Musk. Seus admiradores acreditam que ele seria um exemplo da mão invisível de Adam Smith. O pai da Economia escreveu que o indivíduo movido por interesses egoístas — através de uma mão invisível — estaria contribuindo para o bem coletivo.
Na verdade, o grande filósofo mencionou a “mão invisível” uma única vez nas 920 páginas de A Riqueza das Nações, e não como regra geral do capitalismo. Ele escreveu que um indivíduo que faça investimento na indústria local, em vez de no exterior, seria guiado por uma mão invisível a promover o bem coletivo. Sugiro aos leitores que confirmem o que escrevi na Amazon: Wealth of Nations (1776), Adam Smith, ClassicBooks, Livro IV, capítulo 2, versão kindle gratuita.
Adam Smith foi de fato um entusiasta do capitalismo competitivo e do comercio internacional, mas ele escreveu muitas coisas que causariam horror a Musk e ao politico que ele elegeu, Donald Trump.
Smith foi, por exemplo, um crítico severo do imperialismo britânico. Ele registrou as injustiças sofridas pelos povos colonizados e o fato de que o povo inglês não usufruía das conquistas militares. Argumentava, citando números, que seria mais lucrativo para o Império Britânico se expandir fazendo acordos comerciais pacíficos em vez de guerras onerosas. A Inglaterra e os EUA não seguiram seu conselho; a China, sim.
O liberalismo econômico defendido por Adam Smith em nada se parecia com a defesa do Estado Mínimo, muito menos com a apropriação do Estado por bilionários, como acontece hoje nos EUA.
Smith defendia um papel forte do Estado impondo leis, tributação progressiva, regulação bancária, gastos públicos em infraestrutura e a educação pública e gratuita das massas. Ele temia que a divisão do trabalho transformasse os trabalhadores no operário oligofrênico retratado por Charles Chaplin em Tempos Modernos.
Tal qual economistas de esquerda, Adam Smith elogiava os mercados competitivos e desconfiava dos monopólios e oligopólios. Quando, décadas atrás, o Brasil estava sendo explorado por um cartel de bancos credores, defendi a moratória da dívida externa citando entre outros Adam Smith:
“Pessoas do mesmo ramo raramente se reúnem, ainda que para se divertirem, sem que a reunião termine em um conluio para aumentar os preços ou numa trama contra o interesse público.”
Para terminar, vou explicar com exemplos o significado de um trilhão. Um trilhão de segundos são 31.688 anos. A fortuna de Musk em cédulas de 100 dólares pesaria 10 mil toneladas. Se Elon colocasse as notas de 100 dólares lado a lado, elas se estenderiam por 1,6 milhões de km e dariam 39 voltas na Terra.
Imaginem tal fortuna nas mãos do indivíduo que comprou o Twitter para divulgar fake news. E que, após comprar votos para eleger Donald Trump, fez saudação nazista durante a cerimônia de posse.
Petronio Portella Filho é economista formado na UnB, com mestrado na Universidade de Minnesota e doutorado na Unicamp. Consultor concursado do Senado Federal, é autor dos livros A Moratória Soberana, Os Sapatos do Espantalho e Mentiras que Contam Sobre a Economia Brasileira.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário