As redes sociais e as eleições de 2026
por Tarson Núñez
A evolução das tecnologias da informação no século XXI estabeleceu um novo modelo que alterou de forma definitiva e profunda todas nossas interações sociais. A maior parte das nossas interações cotidianas hoje são realizadas através da internet. As chamadas plataformas são ao mesmo tempo infraestruturas sociais mas também modelos de negócio, de propriedade de um punhado poderosos grupos econômicos. Nossas relações sociais cotidianas, a maneira como nos relacionamos com amigos e parentes hoje ocorrem em grande medida através das redes sociais. As músicas que ouvimos e o conteúdo audiovisual que assistimos nos chegam majoritariamente através de plataformas de streaming e de conteúdo. O comércio eletrônico vai, gradativamente, acabando com os pequenos comerciantes. Nossas relações de trabalho são organizadas através de interfaces e softwares de gestão de projetos. Até mesmo as atividades governamentais são, cada vez mais, canalizadas para ambientes virtuais.
A vida social está hoje cada vez mais inserida neste universo da internet. E com a generalização dos smartphones se reduziu de forma significativa o contingente de pessoas que não tem acesso à internet. A ideia de que haveria um processo de exclusão digital, com muita gente mais pobre sem acesso à internet, se mostrou equivocada. Hoje, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE o uso da internet chega a 90,5% dos brasileiros. A internet como espaço de comunicação é uma realidade para a grande maioria dos cidadãos de nosso país.
Estas mudanças, em tese, não seriam necessariamente problemáticas não fosse o fato de que, como mencionei acima, as plataformas são ao mesmo tempo uma infraestrutura social mas são também um modelo de negócio. Um modelo de negócio baseado na propriedade privada, e como tal voltado essencialmente para a realização de lucros. Uma estrutura tecnológica que se tornou em um elemento essencial para as interações de toda a humanidade é, ao mesmo tempo (e principalmente), um instrumento para a acumulação de riqueza privada.
E o sucesso neste campo é indiscutível. Uma breve consulta (realizada, é claro, pela internet) mostra hoje quem são as pessoas mais ricas do planeta. Na lista dos dez maiores bilionários, que acumulam uma riqueza da ordem de US$ 2,9 trilhões, oito estão relacionados com o setor da Tecnologia da Informação. Apenas o oitavo e o nono colocados são proprietários de empresas de outros setores. E desses oito primeiros colocados, a grande maioria são donos de empresas que foram fundadas nas últimas duas décadas, o que nos dá uma dimensão da rapidez com que esta riqueza enorme foi acumulada.
E numa sociedade capitalista a riqueza e o poder sempre estão associados. Esta acumulação brutal dos últimos vinte anos está associada a um crescimento da influência destas grandes companhias sobre os processos políticos. E esta influência não está mais restrita aos Estados Nacionais uma vez que, por definição, as plataformas operam em uma esfera global, transnacional. Escapam, portanto ao controle das estruturas governamentais da maioria dos países. E mais, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos marca a tomada definitiva do controle do Estado mais poderoso do planeta por estas companhias. Hoje assistimos, com este novo bloco social no poder naquele país, uma fusão dos interesses do establishment de um império em decadência com os dos grandes proprietários das plataformas da internet, as chamadas Big Tech.
Esta é uma mudança profunda e que precisa estar no horizonte das forças democráticas do mundo inteiro. Isto porque a ideologia que agrega este novo bloco de poder é explicitamente antidemocrática. Qualquer consulta às opiniões políticas de figuras como Elon Musk (Tesla, space X), Larry Elison (Oracle), ou Peter Thiel (Palantir) pode ter uma ideia de sua natureza profundamente autoritária, elitista e antidemocrática. Todos defendem abertamente um modelo político onde o poder seja exercido por uma elite econômica e tecnológica. Mas isso vai ser tema para um outro artigo.
Neste momento o que me interessa é alertar que todo este instrumental de controle da opinião pública não vai, em hipótese alguma, atuar de forma neutra no processo eleitoral brasileiro deste final de ano. É evidente, e isto pode ser visto nos documentos do Departamento de Estado norte-americano, nos pronunciamentos de Trump e de Marco Rubio, que o governo dos Estados Unidos está decidido a impedir que a esquerda continue no governo do Brasil. E é de se esperar que para isto possa contar com o engajamento dos seus aliados das Big Tech. Até porque uma das pautas importantes do atual governo do Brasil tem sido a regulamentação e o controle das plataformas, o que é absolutamente inaceitável para os seus proprietários.
Esta dinâmica política deveria ser levada mais a sério pelo campo democrático, que em sua maioria tem se caracterizado pela incompreensão do fenômeno e pela dificuldade em construir estratégias eficazes para encarar este processo. É muito recente o envolvimento do campo progressista nas redes sociais e este envolvimento muitas vezes se caracteriza por reproduzir nas redes o mesmo modelo de linguagem e conteúdo da política tradicional. Discursos longos, linguagem formal, pouca espontaneidade. Via de regra o campo popular tem se mostrado extremamente tradicional em sua comunicação, e por isso menos efetivo nas redes do que a direita.
É claro que existem as exceções. A campanha de Zohran Mandani em Nova York, assim como a de muitos candidatos dos Democratas Socialistas no período recente foram muito efetivas nas redes, comunicando e mobilizando um contingente significativo de ativistas nas suas campanhas. E mesmo aqui no Brasil já temos um número significativo de quadros políticos, ativistas sociais e influencers que se apropriam de forma inovadora das redes sociais. Saber utilizar bem as redes sociais, com todos os seus instrumentos, é cada vez mais decisivo na política. Por conta disso as estratégias de campanha eleitoral cada vez mais se concentram em atingir o eleitorado através deste ecossistema informacional.
Isto é altamente positivo, e tem dado resultados. A recente e bem-sucedida campanha contra a jornada 6 x 1, é um exemplo eloquente de uma pauta que surgiu nas redes, de fora para dentro do sistema político, e ganhou corações e mentes Brasil afora. Isso mostra que as redes são sim um poderoso instrumento político de comunicação e de mobilização. Por conta disso é possível constatar que uma parte significativa da estratégia eleitoral construída pelo campo democrático está sendo estruturada através de ações nas redes sociais. Tanto o governo como os partidos que o apoiam hoje gastam uma parte significativa dos seus recursos materiais e políticos em intervenções nas redes.
Mas este relativo sucesso não deve obscurecer o fato de que estes não são espaços neutros. Muito menos isentos e desinteressados. Se de fato, como tentei demonstrar acima, os donos do mundo digital estão decididos a intervir no processo eleitoral, corremos um alto risco ao concentrar esforços em um campo que pode se revelar uma armadilha. O mundo virtual tem donos, e estes donos têm lado na disputa. É evidente que não é possível intervir no debate político hoje sem passar pelas redes sociais, mas isso não deve ser feito de forma ingênua.
Hoje o campo da internet já é em grande parte hegemonizado pela direita. Os políticos com mais seguidores, os influencers mais bem sucedidos tendem a ser majoritariamente do campo conservador. Isto se dá em grande medida por conta da natureza da sua mensagem, baseada na emoção, na simplificação grosseira dos argumentos, no apelo a “fake news”. Enquanto a esquerda busca uma linguagem racional e tenta tratar de temas complexos através de um discurso convencional, a direita se baseia na emoção, no medo, na raiva. Mas me parece possível avançar na hipótese de que, para além das diferenças na linguagem e no conteúdo, existam também determinações de outra natureza a justificar o sucesso de políticos conservadores na internet.
Primeiro por conta de um dado objetivo, o dinheiro. Por conta do modelo de negócio das plataformas, quem paga mais, aparece mais. O algoritmo não é neutro e dá mais espaço para quem tem mais recursos financeiros. Além disso dinheiro que pode ser aplicado na mobilização de robôs, ou de pessoas contratadas para difundir e impulsionar conteúdos. A direita brasileira tem se mostrado muito efetiva neste campo. Mas é possível também que os milhões de seguidores dos políticos e influencers da direita resultem de mais do que isso, talvez de alguma simpatia política que tenha influência sobre os algoritmos das plataformas. Por trás dos milhões de seguidores de políticos e influencers da direita, mais do que adesão popular pode haver também os efeitos de um algoritmo deliberadamente enviesado para a direita. E tudo indica que, dada a natureza estratégica da disputa eleitoral na oitava economia do mundo, líder dos BRICS, o mundo virtual pode vir a se tornar ainda mais favorável à direita e hostil ao campo progressista.
Minha hipótese é de que este ano vamos assistir a uma intervenção político-estratégica ainda mais profunda no âmbito das plataformas. Isto já vem acontecendo de maneira pontual. Através do uso das “regras da comunidade” muitos perfis do campo das esquerdas já têm sido bloqueados em distintas plataformas. Esta ofensiva tem sido relativamente ostensiva em relação a muitos perfis relacionados à causa palestina, assim como de figuras relevantes do campo da esquerda. Ao mesmo tempo perfis da direita, com mensagens muito mais agressivas, são preservados. E é de se esperar que esta dinâmica seja potencializada na disputa eleitoral de outubro, com a extrema-direita tendo sua presença amplificada e o campo progressista tendo sua presença suprimida. E não há instrumentos institucionais efetivos para neutralizar este processo. O TSE não tem capacidade técnica nem política para prevenir este tipo de conduta. E sob a direção de Nunes Marques este tribunal dificilmente terá vontade política para isto.
Portanto é fundamental que o campo democrático compreenda a dificuldade do cenário. É evidente que não se pode abrir mão de uma ação política através das redes. No entanto, não se pode ser ingênuo acerca da complexidade deste cenário. É fundamental atuar através nas redes sociais, mas, ao mesmo tempo, é preciso estar preparado para enfrentar o bloqueio que tende a acontecer. Jogar muito esforço neste campo virtual é importante, mas é preciso também ter um plano alternativo no caso de que esta hipótese se revele correta.
Paralelamente à comunicação pelas redes o campo popular precisa construir canais próprios de conexão com a cidadania. Mais do que um instrumento de comunicação, as redes devem ser um instrumento de engajamento e comunicação direta do campo político popular com as suas bases. Uma ação eficaz nas redes não deve ser encarada apenas como uma forma de comunicação com os eleitores. As redes, por sua própria natureza, devem ser utilizadas no sentido de transformar o simpatizante em ativista, o ativista em militante do campo popular. E sobretudo, estabelecer uma relação com os cidadãos para além do mundo das redes sociais. Mais do que eleitores, a democracia precisa de indivíduos e coletivos com autonomia e espírito crítico.
A presença física, o olho no olho, a criação de espaços de diálogo e de construção de ações coletivas ainda são, e serão por muito tempo, os fundamentos de uma política transformadora. Criar espaços de escuta, de convivência, de organização, de compartilhamento de experiências para além do mundo virtual é a forma mais efetiva de enfrentar as dificuldades que certamente vão surgir no mundo virtual. Dessa forma pode ser possível, ao mesmo tempo, utilizar as redes como instrumento de campanha e contornar as armadilhas que certamente os donos das redes vão colocar em nosso caminho.
Tarson Núñez – Doutor em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador associado ao INCT Observatório das Metrópoles
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