A Árvore Seca do Mucaba
por Nadejda Marques
No dia 4 de abril, Angola celebra o Dia da Paz e Reconciliação Nacional. A data marca o Memorando de Entendimento Complementar de Luena de 2002 e o fim de uma guerra civil de 22 anos responsável pela morte de mais de 500 mil pessoas e outros mais de milhares de feridos, refugiados e deslocados internos.
A primeira vez que estive em Angola foi logo após o acordo de paz. Tudo me marcou profundamente. As ruínas, a destruição, a pobreza extrema, os amputados (vítimas das minas terrestres), as crianças nas ruas, os órfãos. Após mais de 30 anos de conflito (10 anos de luta pela independência e 22 anos de guerra civil), a vida queria brotar por todos os cantos. O povo estava farto da guerra, ainda que o conflito em Cabinda se alastraria por mais vários anos. Os tambores tocavam. Os refugiados se organizavam para voltar do Congo, da Zâmbia. Os deslocados internos já marchavam a pé para seus lugares de origem. Os ex-combatentes da UNITA que não eram designados a postos nas forças armadas do governo do MPLA e do Presidente Eduardo Santos, entregavam as armas; eram desmobilizados e aguardavam em campos para serem transportados para suas províncias. Todos queriam reencontrar familiares, amigos e retornar a suas comunidades.
Para auxiliar nessa busca, o governo organizou um programa de TV em praça pública onde as pessoas iam para se apresentar, gravar mensagens e tentar encontrar algum familiar, alguma pessoa conhecida. Faziam-se filas enormes por uma vaga no programa “Ponto de Encontro” na praça da Independência em Luanda. E, naquela multidão de pessoas, contavam-se histórias.
Na melhor das tradições orais, contavam-se histórias da guerra e também da vida. Muitas delas juntavam e misturavam as duas coisas como se uma fosse parte da outra e vice-versa. Ora mencionavam momentos históricos importantes, ora lugares geográficos marcantes. Como Angola tem vários grupos étnicos e diversas línguas, as vezes os contos eram adaptados para incluir algum aspecto que o identificasse com uma comunidade específica. As histórias também tinham versões diferentes e cada novo narrador e ouvinte era livre para acrescentar uma cor diferente, um odor, um detalhe que fora negligenciado na versão anterior.
Os personagens dessas histórias encantadas muitas vezes eram crianças. Não é à toa que um dos grandes escritores angolanos, Pepetela, em um de seus livros mais famosos “Aventuras de Gnunga”, escolheu uma criança para ser seu protagonista principal. Assim como as crianças, a natureza, inocente vítima dos crimes de guerra, também era protagonista importante nessas histórias. Uma delas era da Árvore seca do Mucaba que, não se sabe ao certo porque se alastrou por toda a parte e todos sabiam contar de cor. Talvez seria por seu simbolismo que representava Angola e um pouco da história de sobrevivência dos angolanos. Tamanha proporção ganhou o conto que foi publicado no jornal Ecos do Uíge, na página 11 da edição de maio de 2002. Resumidamente, conto aqui a minha versão do que foi noticiado.
Árvore seca e caída levanta-se no município do Mucaba
Na localidade de Kilanda-Landa, município de Mucaba, 60 quilômetros ao norte da capital da província do Uíge, um tronco de árvore seca e caída a três anos reergueu-se a 1 de abril, um dia conhecido internacionalmente como de mentiras, mas o facto em alusão é pura verdade. No dia 4 de abril, a árvore cobriu-se em flor. Uma flor branca de aroma suave que atraia pássaros e borboletas nunca antes vistos na região.
A árvore vulgarmente conhecida no Uíge pelo nome de “mussinga-singa”, caiu em 1999, estando já totalmente seca, e as mulheres das redondezas iam tirando todos os dias a lenha de seu tronco para a cozinhar. O facto da árvore se reerguer e ainda por cima florir, seria considerado insólito se não fosse pelas tantas testemunhas do ocorrido. Já no primeiro dia, provocou suspiros e desmaios as primeiras mulheres que apareceram no local para lenhar. Algumas tentaram inclusive conotar o acontecimento a outros de feitiçaria registrados na região. Mas, não se acreditavam nem assim. Seria uma mágica muito poderosa.
As autoridades locais criaram então uma Comissão que se deslocou ao local para apurar a veracidade do facto. A única conclusão que chegaram é que a árvore existe e dá flores duas vezes ao ano. Uma no mês de abril, flores da paz, e outra no mês de novembro, flores da independência.
Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.
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