A Selic no Cume da Montanha:
quem perde o fôlego e quem não sente a altitude
por Henrique Morrone
Um dia, na economia brasileira, a taxa Selic decidiu escalar uma montanha.
Não foi impulso aventureiro. Foi decisão técnica, cuidadosamente planejada, aprovada em reuniões formais e acompanhada por relatórios meticulosos. Cada passo da subida era apresentado como necessário. Cada metro conquistado prometia um horizonte mais seguro.
No início, a trilha parecia razoável. A inflação, disseram, exigia esforço. A economia brasileira, acostumada a terrenos irregulares, aceitou acompanhar a expedição.
A Selic avançou.
Primeiro devagar, depois com mais confiança. A cada parada surgia um novo acampamento-base. Os comunicados explicavam a estratégia. O objetivo permanecia o mesmo: alcançar o ponto exato em que a inflação perderia o fôlego.
Vista da trilha, a paisagem parecia controlável.
Mas subir tem consequências.
Quanto mais a Selic avançava, mais rarefeito ficava o ar. O investimento começou a respirar com dificuldade. Alguns projetos simplesmente começaram a rolar montanha abaixo. O crédito encurtou o passo. O consumo reduziu o ritmo.
Lá de baixo, a economia observava a subida.
Alguns setores tentavam acompanhar. Outros simplesmente paravam. Empresas adiavam decisões. Famílias recalculavam gastos. O horizonte prometido pela expedição parecia cada vez mais distante.
Ainda assim, a escalada continuou.
Os relatórios insistiam na disciplina da travessia. Subir era preciso. A inflação precisava sentir o peso da altitude.
Até que a Selic finalmente chegou ao cume.
Ali, no ponto mais alto da montanha monetária, fincou sua bandeira. A missão parecia cumprida. A inflação, ao menos nas planilhas, dava sinais de cansaço.
Agora, poderia dar um passo cauteloso até 14,75%.
Mas montanhas têm outro problema.
A descida.
Esta deve ser cautelosa, matreira — descer de mansinho, quase parando, para não despencar. Afinal, o investidor é uma criatura sensível à altitude e a mudanças bruscas no terreno.
Há, contudo, uma exceção notável.
O rentista.
Entre todas as criaturas desse ecossistema, ele é a única verdadeiramente insensível à altitude. Quanto mais rarefeito o ar, mais confortável se torna sua posição. Onde falta fôlego à economia real, sobra rendimento para quem observa a paisagem do alto.
Lá embaixo, porém, a economia já não respira como antes.
O investimento perdeu parte do fôlego. O crédito tornou-se cauteloso. Projetos interrompidos raramente retomam a marcha exatamente de onde pararam.
Do cume, a paisagem parece estável.
Da base, o ar continua difícil.
Montanhas monetárias têm esse efeito curioso: quem chega ao topo acredita ter dominado a paisagem.
Lá embaixo, a economia apenas tenta voltar a respirar.
E enquanto os relatórios celebram a conquista da altitude ideal, empresas, famílias e trabalhadores descobrem uma pequena diferença entre teoria e montanhismo:
quem escala juros pode até controlar a paisagem — mas a natureza da economia raramente obedece ao montanhismo monetário.
Henrique Morrone é economista, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e PhD em Economia pela University of Utah.
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Rui Ribeiro
23 de março de 2026 8:06 amA imprensa murdochiana prepara o espírito dos oprimidos para continuarem pagando altas taxas de juros para os especuladores. Apesar da confusão, ela tenta nos explicar porque os juros continuarão altos por muito tempo.
“Ter um país com juros baixos parece agora tão dfistante quanto carros a gasogênio”.
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-de-vasconcellos/2026/03/o-banco-central-cortou-os-juros-o-mercado-nao.shtml