A vantagem comparativa do grotesco, por Henrique Morrone
No clima tropical, a cópia tende a superar o original dos climas mais temperados.
Assim como o crescimento da produtividade, o aumento da relação capital-trabalho e outras regularidades do capitalismo, essa deveria ser reconhecida como um fato estilizado. Talvez o mais persistente de todos.
A periferia finalmente encontrou sua vantagem comparativa.
Não foi na indústria, na ciência ou na tecnologia. Foi na capacidade de aperfeiçoar o grotesco importado.
O centro inventa. A periferia radicaliza.
E, quando o original parece ter atingido o limite do absurdo, surge uma cópia tropical para demonstrar que ainda havia espaço para piorar.
Vejamos.
O impalatável assume formas particularmente indigestas nos trópicos. Comecemos pelos exemplos mais amenos. Temos darwinistas mais darwinistas que Darwin. No outro extremo, marxistas mais marxistas que Marx. Os discípulos frequentemente superam os mestres, sobretudo quando dispensam a inconveniência de compreendê-los.
Mas estou fugindo do tópico tropical.
Retornemos.
A periferia importa as ideias do centro, mas costuma dispensar suas poucas virtudes. Conserva os defeitos e acrescenta os seus. É uma espécie de substituição de importações às avessas.
Importa-se a doutrina, nacionaliza-se o desastre.
Na economia, o fenômeno é particularmente notável.
A austeridade chega dos países centrais como uma necessidade técnica. Nos trópicos, transforma-se em virtude moral. Cortar gastos deixa de ser um instrumento de política econômica e passa a ser uma demonstração de caráter.
Quanto maior o corte, maior a virtude.
A tesoura ganha prestígio acadêmico. O investimento público torna-se suspeito. A pesquisa científica, um luxo. Os salários, um obstáculo à prosperidade.
Os privilégios, naturalmente, permanecem intocados.
Afinal, é preciso preservar os incentivos.
Tomemos o caso de Milei, na Argentina. Seu ultraliberalismo não é uma reprodução fiel do nacionalismo econômico de Trump. As doutrinas diferem, mas compartilham o gosto pelo espetáculo, pelo confronto institucional e pela transformação da política em demonstração de força.
Trump oferece tarifas, ameaças e cortes. Milei acrescentou a motosserra.
Uma inovação tecnológica da periferia.
A velha tesoura do ajuste fiscal já não era suficiente. Era preciso mecanizar o corte, aumentar sua produtividade e reduzir o tempo socialmente necessário para destruir políticas públicas.
Marx provavelmente não imaginou essa aplicação de sua teoria.
E o Brasil?
O país possui uma longa tradição de aperfeiçoamento das ideias importadas. Aqui, a austeridade já conviveu com juros elevados, investimentos públicos comprimidos e uma extraordinária capacidade de preservar privilégios enquanto se exigem sacrifícios da população.
Mas sempre é possível avançar.
Imaginemos um eventual primeiro mandato de Flávio Bolsonaro.
Se a tese da vantagem comparativa do grotesco estiver correta, não deveríamos esperar uma simples reprodução de Trump. Seria pouco ambicioso. A cópia tropical precisaria superar o original.
O programa poderia ser apresentado como uma revolução da eficiência.
Cortes no financiamento à pesquisa. Redução dos investimentos em infraestrutura. Arrocho dos salários do funcionalismo. Compressão das políticas sociais.
Tudo em nome do crescimento.
Quanto aos privilégios políticos e familiares, esses poderiam ser classificados como investimentos estratégicos. Afinal, determinadas despesas não são gastos. São incentivos à iniciativa privada dos próprios beneficiários.
A moralização do Estado caminharia de mãos dadas com sua apropriação privada.
A tesoura trabalharia intensamente.
O PIB, nem tanto.
Os cortes retirariam demanda de uma economia já fragilizada. O investimento privado, diante da retração das vendas e da deterioração das expectativas, teria poucos motivos para assumir o protagonismo prometido.
Mas os economistas da confiança não se deixariam abater.
A fada da confiança seria convocada.
Ela chegaria com sua varinha mágica, encarregada de transformar cortes de gastos em investimentos, desemprego em empreendedorismo e queda da renda em prosperidade futura.
O PIB, entretanto, estaria deprimido.
O médico recomendaria exercícios, alimentação adequada e algum estímulo à circulação. A equipe econômica prescreveria jejum, repouso absoluto e doses adicionais de austeridade.
— Mas o paciente está piorando, doutor.
— É a recuperação.
— Ele perdeu peso, força e disposição.
— Está ficando competitivo.
— E se não sobreviver?
— Faltou confiança.
O curioso é que a teoria econômica tradicional sempre reservou à periferia a condição de atrasada. Sua missão histórica seria alcançar o centro, reproduzir suas instituições e incorporar suas tecnologias.
Entretanto, no terreno do grotesco, a convergência parece operar em sentido contrário.
A periferia não precisa alcançar o centro.
Pode ultrapassá-lo.
Eis uma vantagem comparativa extraordinária. Dispensa investimentos em educação, laboratórios, infraestrutura e inovação. Basta importar uma ideia ruim, eliminar suas ressalvas e acrescentar uma boa dose de fanatismo local.
A produtividade do grotesco cresce. Sua intensidade aumenta. O custo social se multiplica.
E, diferentemente da indústria, não há risco de desindustrialização desse setor. A capacidade instalada parece inesgotável.
Talvez estejamos diante de uma nova regularidade do capitalismo periférico.
O centro produz o original. A periferia aperfeiçoa a cópia.
E, quando finalmente conseguimos superar os países desenvolvidos em alguma coisa, descobrimos que era justamente naquilo em que deveríamos ter permanecido atrasados.
Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário