Agradecimento público, por Rui Daher

Por Rui Daher

Uso deste blog, modesta área de serviços da mansão intelectual GGN, para agradecer de todo o coração, nele incluídas pontes de safena e flechas de cupido, aos milhões de pessoas que no domingo, 13 de março de 2016, saíram às ruas de todo o País para defender a classe social a que sempre pertenci.

Nasci numa das melhores maternidades da cidade – ah, sim, na Avenida Paulista, salve, salve. Morei no centro de São Paulo quando ele era chique e charmoso. Apartamentos espaçosos, com telefone, geladeira, rádios, móveis e tapetes de luxo. Para mantê-los asseados, claro, precisávamos empregadas domésticas e enceradeiras, nada de escovão.

Era comum irmos à praia, em Santos, e nos hospedarmos nos hotéis Atlântico ou Balneário. Quando não, aos domingos, frequentávamos as sociais do Jockey Club.

Filho único e mimado, estudei em colégio católico tradicional e caro. Quando os primeiros televisores foram lançados, meu pai comprou um. Marca Invictus, creio. Provável sugestão de meu futuro.

E assim foi. Ótimas universidades, bons empregos, viagens internacionais, razoável patrimônio, filhos em escolas de elite e círculo social também.

Na levada que todos conhecem e se reproduz há séculos, passei a vida repetindo: “eu mereço, fiz por merecer, tenho méritos”.

Agradeço, pois, a quem deixou o merecido descanso dominical e teve a coragem de enfrentar as ruas para defender o meu mérito.

Há alguns anos eu vinha percebendo sinais que ameaçavam o que duramente conquistei. Tentativas estranhas de similaridade se espalhando por elevadores sociais, supermercados, shoppings, aeroportos, cidades do exterior.

Democracia, eleições livres, voz às minorias, geralmente, levam a isso. Logo fazem do mérito coisa menor. Negam o fato de que os humanos nascem com aptidões próprias, diferentes cores de pele, heranças de antepasssados que não perderam oportunidades. Por que eleições se os eleitos já foram escolhidos?

Já vinha pensando, consultara religiosos, de onde estaria saindo tanto mérito? Como podia um país assim atrasado, de baixa escolaridade, de uma hora para outra, ter milhões de meritosos? Algo haveria de errado. Não era normal. Hoje, graças ao juiz Moro, seu auxiliar Gilmar Mendes, as Organizações Globo e a revista Veja, felizmente, já sabemos.

Mais uma vez, obrigado por terem me representado. Se eu tivesse uma camisa amarela estaria lá com VOCÊS.

Como dizia o consagrado cronista social, Ibrahim Sued (1924-1995): sorry, periferia. Cadê seu mérito?

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37 comentários

  1. Café Society, mais uma versão.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=OGPAEA3oTGo%5D

    Doutor de anedota e de champanhota,
    Estou acontecendo no café soçaite,
    Só digo enchanté, muito merci, all right,
    Troquei a luz do dia pela luz da Light.
    Agora estou somente contra a Dama de Preto,
    Nos dez mais elegantes eu estou também,
    Adoro riverside, só pesco em Cabo Frio,
    Decididamente eu sou gente bem.
    Enquanto a plebe rude na cidade dorme,
    Eu ando com Jacinto que é também de Thormes,
    Teresas e Dolores falam bem de mim,
    Já fui até citado na coluna do Ibrahim.
    E quando alguém pergunta como é que pode
    Papai de black-tie jantando com Didu,
    Eu peço outro uísque embora seja pronto.
    Como é que pode? Depois eu conto.

    • Era esta que eu queria, Almeida

      lembrava-me da letra quase inteira, mas não conseguia encontrar. Obrigado pelas duas ótimas contribuições. Você, como dizia Ivan Lessa, “entendeu o espírito da coisa”.

  2. Quero agradecer especialmente

    Quero agradecer especialmente àquela gente pobre da Baixada Fluminense, que nós só aceitamos que venha à Zona Sul para trabalhar de doméstica, balconista , segurança, PM …. Ou quando precisamos que venham engrossar os protestos em defesa dos nossos justos privilégios! Mas que não ousem vir poluir nossas praias e os nossos shoppings Village Mall com os seus desodorantes vencidos. Sorry, Nova Iguaçu e adjacências.

  3. A Banca do Distinto

    Gostaria de parabenizar a todos: ao Rui pelo excelente texto, ao Almeida pelas músicas contextuais!

    Mas, com a devida intromissão, acho que não poderia faltar este samba do inesquecível Billy Blanco: A Banca do Distinto.

    https://www.youtube.com/watch?v=51WZXaguCGs

    Não fala com pobre, não dá mão a pretoNão carrega embrulhoPra que tanta pose, doutorPra que esse orgulhoA bruxa que é cega esbarra na genteE a vida estancaO enfarte lhe pega, doutorE acaba essa bancaA vaidade é assim, põe o bobo no altoE retira a escadaMas fica por perto esperando sentadaMais cedo ou mais tarde ele acaba no chãoMais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinalTodo mundo é igual quando a vida terminaCom terra em cima e na horizontal Saudações Democráticas!

  4. Qual é o ponto a esquerda caviar?

    Sr. Daher,

    Não sou tão abastado quanto você, porém posso dizer que pertenço a sua classe social.

    Como um de seus parametros são os passeios em shoppings, vejo que a frenquencia das classe mais baixas caiu muito. Eu deveria estar comemorando? desculpe estou protestando.

    Trabalho em uma industria metalurgica desde 1994 que tinha cerca de 1500 funcionários. Hoje somos pouco mais de 800. A grande maioria demitida são operários de classe mais baixa. Eu tenho boa solidez na minha posição. Eu deveria estar comemorando? desculpe estou protestando?

    Creio que para ricos, classe média e pobres, um pais bom é aquele que todos tenham boa educação e condição financeira para a boa convivência. Assim existirá segurança para as familias.

    Portanto quando alguem quer a melhora do Brasil, isso é para todos.

    Vivo no mundo real, fora das redomas de ideias sem consequencias. Esse discursso populista de lutas de classe não cola mais.

    Cai na real. O Brasil está quebrado. A situação é séria. Muitas famílias, principalmente as de classe baixa, estão em apuros. 

    • Luta de classes não é escolha, é fato social.

      Veja seu exemplo. Os oitocentos demitidos deviam estar protestando, mas é você, que manteve o emprego, quem diz estar. Você já se perguntou, por que os protestos são marcados para pontos das cidades, como a Avenida Paulista, em Sampa, ou a Atlântica, no Rio?

      Os protestos deveriam ser marcados em lugares como o Complexo do Alemão, no Rio, pois é lá que moram os maiores prejudicados com a crise. A turma da zona sul faria um pequeno sacrifício, queimaria um pouquinho de gasolina em suas mercedez, audis e bmws, iriam montados com suas jóias, rolex, ipads, etc, até lugares como o Alemão fazerem o protesto com a rapaziada de lá.

      Não haveria problema, é vocẽ mesmo quem diz que esse negócio de”lutas de classe não cola mais”. O pessoal da  periferia gosta muito de receber a turma endinheirada e bastante equipada por lá. É sempre uma oportunidade de fazer uma certa “redistribuição de renda”, já que pelas vias da economia política promovem muito a acumulação e dificultam a vida dos pobres.

    • Sr. Lopes,

      1. Sim, somos da mesma classe social e, hoje, não sou mais abastado. Fui; 2. O Sr. protesta se esquecendo de esquecendo que o desemprego antes dos governos do PT passava dos 12%, portanto, quem permitiu passeios a shopping foi o aumento de renda propiciado pelos empregos formais e reajustes do salário mínimo; 3. O Sr. protesta e tem todo o direito para isso por que vive numa democracia que a “esquerda caviar” ajudou a conquistar; 4.Nenhum governo, aliás de forma equivocada, favoreceu mais a indústria metalúrgica do que o 1º governo Dilma, agora, a farra de venda da ind´stria automobilística e eletrodomésticos, etc. poderia continuar batendo recorde atrás de recorde indefinidamente? Deu “bolha” em sua empresa que este governo fez chegar a 1.500 funcionários.

      Sei que o Brasil está quebrado, afinal a Globo e a Veja são honestas, mas se algum protesto o senhor deveria comparecer o indicado seria o de 18 de março. Populismo e luta de classes existe muito mais do que o senhor pensa no Brasil. Pior, faz séculos e o senhor nem percebeu.

    • Rico ri à toa…

      Benvindo à nossa Sala de Recepção 

      Habitada por gente simples e tão pobre
      Que só tem o sol que a todos cobre
      Como podes, mangueira, cantar?

      Pois então saiba que não desejamos mais nada
      A noite, a lua prateada
      Silenciosa, ouve as nossas canções

      Tem lá no alto um cruzeiro
      Onde fazemos nossas orações
      E temos orgulho de ser os primeiros campeões

      Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora
      E as outras escolas até choram
      Invejando a tua posição

      Minha mangueira essa sala de recepção
      Aqui se abraça inimigo
      Como se fosse irmão

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=mpEsgxfzfoc%5D

  5. Excelente

    Rui,

    Seu texto me fez lembrar o site do Prof. Hariovaldo. Alguns desavisados e menos providos de neurônios entram lá e compartilham, achando que é verdade. As limitações impedem de perceber a ironia. Acho que você corre o mesmo risco.

    • Se eles não perceberem a

      Se eles não perceberem a ironia, o “mérito” é todo deles.

      Alias, para mim esse termo já virou pejorativo. É tanto “meritoso” dizendo as mais bizarras ignorâncias, que ainda bem que eu não tenho isso. 

      PS: Fui tentar passar para técnico da receita num concurso. Cheguei a comprar as apostilias, mas não aguentei e desisti. O salário está fazendo falta. Mas acho que não suportaria conviver com tanto “meritoso” todo dia num escritório. Prefiro ser camelô! 

      • Olha, Juliano,

        acredite, a vida em escritórios com “meritosos” é simplesmente insuportável. Muitas vezes não vale a grana. E vai que de camelôs a gente chegue a Sílvio Santos. Vamos de humor sem mérito, meu caro. Abraço

  6. crítica perfeita

    Rui,

    Formidável.

    E aquela faixa sobre o Donald Trump, de onde saiu ? E eu criticava a Sarah Palin,  de qualquer maneira, é muito esquisito não ter aparecido nestes últimos vinte anos nenhum nome política com envergadura para presidir o brasilsil ou USA, só existem os aecim, trumps ou coisa que o valha, o que traduz a qualidade da crasse política nos últimos tempos, um verdadeiro flagelo.

    Quanto ao texto propriamente dito, muitos dos que não te conhece levarão ao pé da letra, pois a meritocracia está impregnada na mente de milhares, é a turma do ” não se dá o peixe, mas a vara prá pescar”.

    Um abraço

     

    • Alfredo, obrigado,

      o que mais me impressionou foi a faixa sobre o Trump. Tanto que vou explorar o tema na próxima coluna sobre agronegócios na CartaCapital. Será que esses imbecis entendem o que aquela bruxa loira pode significar para nossa agropecuária? Será que sabem o nível de proteção que virá. Os EUA, nesse setor, não são clientes, mas concorrentes. É burrice. E os meus méritos são todos ficcionais, deixemos que falem. Grande abraço.

  7. Com humor sempre

    Se eu enviar o artigo do Rui para sinhas, sinhazinhas e sinhôs de meu conhecimento, sei que certamente vão pirar com o texto. Vão acreditar em cada virgula e vão se sentir orgulhosos. Acho que so a musica talvez coloque uma pulga atras da orelha da casa média. 

    E essa faixa sobre o Brasil na campanha desse maluco, hein… De arrepriar. Deus nos acuda de um governo tucano aqui e esse doido la.

  8. indispensável elogiar, embora

    indispensável elogiar, embora o texto fale por si mesmo…

    vale muito mais pelos excelentes comentárioe ótimas contribuições para contextualizá-lo…

    mostra o alto nível e o espírito de quem respeita a diversidade humana e social….

    neste sentido, chega a emocionar, pois é muito triste passar a vida ouvindo baixarias…

    está ficando meio raro algum afago pela inteligencia humana…

    por iss,  o enorme respeito por esses textos tão brilhantes…

    isso nos enobreve, dá força para vivermos, enfrentarmos os obstáculos,

    entendermos que com ironia e sutileza podemos tb desmascar um monte de falácias…

  9. Ótimo

    Adorei, e depois  comecei a rir sozinho. pois relembrei algumas pessoas que a vida nos faz conhecer. Eu conclui que alguns não  vão, de fato,  captar a ironia.

    Como diria um destes conhecidos: É uma questão de mérito: você sabe com quem está falando???

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