21 de maio de 2026

Brasilatividades, por Damares Medina

O povo é força criadora. O povo é potência que não cabe inteira no direito, nem nas molduras rígidas da política formal.

O Brasil é um país de contrastes e história interrompida, com povos originários e múltiplas ancestralidades. O carnaval expressa a potência popular, corpo e alegria como formas de resistência e política sensível. A democracia brasileira enfrenta o desafio de transformar a diversidade e força do povo em projeto político inclusivo.

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Brasilatividades

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por Damares Medina

O Brasil não cabe na pauta estreita do poder.

Talvez porque o Brasil seja feito de Brasilatividades.

Uma palavra inventada, sim — mas necessária. Porque tudo aqui é superlativo e ativo ao mesmo tempo. O território é gigantesco, as contradições são imensas, as dores profundas, as alegrias expansivas. Nada no Brasil é contido. Tudo acontece em excesso, em fluxo, em movimento. O Brasil não é um estado; é um processo. Não é um substantivo imóvel; é um verbo em permanente conjugação.

As cidades respiram a própria história.

Algumas como peso. Outras como fluxo.

Há lugares onde a memória se organiza em linha reta — famílias, nomes, casas, séculos sobrepostos sem ruptura. E há lugares como o Brasil, onde a história foi interrompida, saqueada, silenciada. Onde povos originários já estavam aqui muito antes de 1500, e tiveram seus corpos violentados, suas línguas proibidas, seus nomes apagados.

Esse corte permanece.

Ele atravessa os corpos, a relação com a nudez, com a alegria, com o espaço público. O corpo livre, o corpo nu, o corpo em movimento sempre foram tratados como ameaça. Especialmente o corpo feminino. Especialmente num país que importou moralismos coloniais para tentar domesticar uma vitalidade que nunca foi europeia.

Talvez por isso o carnaval incomode tanto.

Porque ali o corpo reaparece sem pedir licença.

Não como espetáculo, mas como presença. Multidão em movimento, música, criação coletiva, tempo dedicado ao gesto, ao ritmo, à cor. Alegria não como distração, mas como força. Espinosa chamaria isso de potência comum: quando muitos corpos, afetados juntos, aumentam sua capacidade de agir.

O poder teme isso.

Porque o poder prefere corpos contidos, tristes, disciplinados.

O Brasil, no entanto, é excesso. É mistura. É um povo formado por trajetórias quebradas, ancestralidades cruzadas, memórias que não se encaixam num único relato. Um país com cidades de nomes indígenas, habitadas por descendentes de imigrantes europeus, africanos, asiáticos. Uma identidade em permanente elaboração — e, por isso mesmo, profundamente desafiadora.

Essa condição produz uma crise: o brasileiro muitas vezes não sabe quem é. Procura fora o que precisa reconstruir dentro. Idealiza outras geografias, consome pertencimentos importados, tenta vestir identidades prontas. Mas o caminho não está fora.

Está aqui.

No que fomos, no que nos tiraram, e no que insistimos em ser apesar disso.

Está na festa, na música, no corpo que dança, no povo que se reúne.

Enquanto isso, a política institucional se fecha em disputas estreitas, capturadas por elites que tratam o poder como propriedade. A agenda pública gira em torno de conflitos que pouco dizem ao país real. O povo aparece apenas como problema, ruído ou ameaça.

Mas o povo é outra coisa.

O povo é força criadora.

O povo é potência que não cabe inteira no direito, nem nas molduras rígidas da política formal.

O carnaval revela isso com clareza quase desconcertante. Ele não resolve tudo. Ele não é puro. Ele não é inocente. Mas ele lembra algo essencial: a democracia não começa no tribunal nem no parlamento. Ela começa quando os corpos podem existir juntos, sem medo, sem vergonha, sem captura.

Relegar isso a uma nota de rodapé do calendário é não entender o Brasil.

Ali há política em estado sensível.

Há memória viva.

Há um povo experimentando, ainda que por instantes, a própria centralidade.

O Brasil é um desafio.

Nossa democracia é um desafio.

Talvez porque governar um povo assim — múltiplo, excessivo, ferido e criativo — exija algo que ainda não aprendemos plenamente: transformar potência em projeto sem destruir a força que a sustenta. Fazer da política o avesso da captura. Reconhecer que o povo não é desvio nem ameaça.

O povo brasileiro é poder.

E talvez o único modo de compreendê-lo seja aceitar suas Brasilatividades — esse excesso vital, indomesticável, que insiste em criar vida, sentido e democracia mesmo quando tudo parece interditado.

Damares Medina – Advogada, professora doutora de Direito Constitucional com pós-doutorado em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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