Caymmi, o ligeiro, por Zê Carota

Caymmi, o ligeiro

por Zê Carota

recentemente, de passagem pelo Rio para produzir um evento pela firma, aproveitei um final de semana pra visitar um querido amigo que há muito não via, o qual mudou-se para Paquetá.

(um registro: para se ir à ilha, toma-se a balsa, partindo da Praça XV, no Centro, cuja beleza tão única luta bravamente contra o abandono a que lhe condena o atual prefeito, o fariseu crivella, cujo interesse por arquitetura e história limita-se a erguer aqueles mistos de templos e cassinos que lotará quanto mais deformar a verdade dos fatos e o Novo Testamento.

era feriado, então a estação estava apinhada de gente – trabalhadores, a maioria – com trajes de banho (na ilha, gastam menos com tal lazer, e principal: não são discriminados pelas tropas de elite da zona sul, que se creem donas das praias), carregando isopores do tamanho de frigobares, sacolas com matulas e panelas, instrumentos musicais, guarda-sóis etc, uma tela viva do Di Cavalcanti, e o melhor ainda vem depois.

 

leva-se uma hora, hora e pouco, no trajeto, pela Baía de Guanabara, até a ilha, e nem pense no tédio habitual a viagens em embarcações.

com menos de cinco minutos de viagem, o papo é batido aos goles de cafezinhos muito cheirosos, servidos de multcoloridas garrafas térmicas sacadas dos embornais, acompanhados de merendinhas mil, todas embaladas em trouxinhas de papel filme ou alumínio.

a partir dos 15 minutos de viagem, porém, a coisa fica séria: ouve-se, por toda balsa, uma rajada de anéis de latinhas de cerveja, que não faz ninguém tombar, mas levantar, e, aos brindes, sambar – sim, sambar, porque tem início um pagode tão energético, que coloca um sorriso de 13 mil volts na cara até de quem não pode dançar, como este manco que vos relata o colosso.

perdão por me estender muito, mas, com o país rumo ao naufrágio – Rio na proa -, achei importante dividir essa versão tropical da metáfora existencial feita pelos músicos do Titanic.)

voltando ao busílis do post, nos últimos anos, muitos músicos mudaram-se para Paquetá, dentre eles, o grande (em todos os sentidos) Bolão, percussionista disputado a cotoveladas e catiripapos por qualquer gigante da música popular que você imaginar.

amigo do amigo que fui visitar, ao nos ver no Quintal da Regina alisando as panças ungidas pelo esplêndido Arroz de Hauçá (prato filho de escravos nigerianos com escravos baianos, que é a especialidade da formidável cozinheira que dá nome ao estabelecimento, casada com o lendário craque e soldado da democracia contra a ditadura, Afonsinho), Bolão sentou-se à nossa mesa para tomar café e jogar conversa fora, arte na qual é tão exímio quanto o é tocando pandeiros, tamborins, congas, agogôs, ganzás e afins.

de todas as muitas histórias (nacionais e internacionais) que tem pra contar, e dentre as que nos contou no papo, destaco a que tem Caymmi como protagonista.

Bolão tem um vozeirão proporcional ao seu corpanzil e ao seu talento musical, donde imitar Caymmi, que admira profundamente, sempre lhe foi prazer – e também para os outros, que lhe pediam fazer seu número preferido, cantando a clássica “O Mar”.
mas, sucesso de público à parte, faltava-lhe realizar seu sonho doirado: imitar Caymmi para o próprio.

certo dia, trabalhando num álbum cujo produtor era o mesmo que estava produzindo um álbum de Caymmi, Bolão lhe fez sua imitação do mestre, depois lhe confessou seu sonho, o qual, entre divertido e sensibilizado, o produtor viabilizou, levando Bolão, um dia lá, ao estúdio em que Caymmi gravava as canções para o novo trabalho.

apresentações feitas, admirações manifestas mutuamente, Bolão, após revelar seu sonho ao ídolo, a este pediu autorização para realizá-lo.
com certa hesitação, Caymmi autorizou, e Bolão soltou o gogó: “O mar, quando quebra na praia, é bonito / É bonito”.

impressionado, Caymmi reagiu aos aplausos, com aquele seu sorriso mais iluminado do que o Farol da Barra, abraçou Bolão e, muito a sério, lhe pediu:

– meu filho, grave aí pra mim, grave. eu estou com tanta preguiça de trabalhar hoje…
 

bom domingo, com a melhor versão já feita para uma das sublimes belezas caymmicas.

 

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