Continuam as desventuras dos Cavaleiros do Apocalipse, por Sebastião Nunes

Enquanto isso, dois anjos sinistros, representando a ignorância e a estupidez, sobrevoavam não a floresta amazônica, mas os céus de Brasília

Continuam as desventuras dos Cavaleiros do Apocalipse

Por Sebastião Nunes

4.000 quilômetros é chão para encardir.

Tratava-se, porém, da derrota que deviam cumprir os cavaleiros presos, em sua longa caminhada pedonal rumo à Petrolina, PE, conforme sentença extrajudicial dos seres da mata, encabeçados pelo Saci-pererê.

Sucede que, mal cumpridos 20 metros, o cavaleiro Flávio, senador poderoso, viu-se às voltas com uma surucucu pico-de-jaca, considerada a cobra mais venenosa da América do Sul, que lhe aplicou violenta dentada na bunda.

Pobre surucucu! Ali mesmo caiu contorcendo-se em dores e ali mesmo finou-se, em meio ao mais atroz sofrimento.

Puxa-saco como sempre, acorreu às pressas o escudeiro-Moro, empunhando uma maleta de primeiros socorros, emprestada pelo jabuti-piranga, da qual prestamente extraiu gaze, ervas e esparadrapo, pensando as feridas do subchefe-01, que se esvaia em doridas lamentações, como se o céu lhe estivesse a cair na cabeça.

– Deixa de besteira, Flávio – ponderou o cavaleiro Messias, valentão como ele só, vendo que o tiro da cobra lhe saíra (a ela, surucucu) pela culatra. – Seu (dele, Flávio) veneno é muito mais poderoso. Veja como a infeliz se contorce em dores.

– Frescura pura! – arreliou-se o cavaleiro Eduardo, deputado federal e subchefe-02, que nutria profunda ojeriza pelos dengues do irmão-em-armas-e-parceiro-em-milicianos-poderes. – Mais valia que calasse a boca e se comportasse como…

Nem ao menos concluíra a frase quando, chovendo de altos arvoredos, atacou o bando de apenados grosso enxame de abelhas pretas mel-de-cachorro, conhecidas pela tendência chatíssima de se enroscarem no cabelo dos atacados, e também pelos nomes de arapuá, arapuã, aripuá, irapuá, arapica, arapu, axupé, caapuã, cabapuã, cupira, urapuca, guaxupé, enrola-cabelo e torce-cabelo.

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Com exceção de dois seguranças carecas, todos os apenados eram por demais cabeludos, de modo que se tornaram densos cachos de abelhas mel-de-cachorro, pondo-se a pulapular e a sacolejar, tomados de verdadeiro pânico pela infestação.

Foi tudo muito rápido.

Mal se enroscaram nos cabeludos meliantes, foram elas, as ditas abelhas pretas, feridas de morte, tombando em agonia ao solo, por efeito de não sei qual malignidade congênita oriunda da suada pele dos atacados.

FEROCIDADE POUCA É BOBAGEM

Como é sabido, as abelhas pretas mel-de-cachorro acumulam nos pelos grossa camada de resina colante, com a qual se fixam no cabelo das vítimas, que se tornam uma melequeira só, exigindo prolongados banhos.

Comandados pelo Saci, orientando-se quase às cegas pela profusão de cola que lhes estava presa aos cabelos da cabeça e das grossas sobrancelhas, conseguiram chegar a outro igarapé, no qual, nus em pelo, profusamente se banharam.

– Que delícia de água! – comentou o cavaleiro Carlos, vereador e subchefe-03, agitando-se na água que nem cachorro recém-nascido e esquecido da condenação.

Mas a delícia durou pouco. No que acabou de falar, sentiu a mordida no pinto, seguida de outra na coxa e outra na perna e outra no lombo e outras…

– Ai, ai, ai – puseram-se todos a gritar desesperados, em virtude de rude ataque de pequenas mas ferozes piranhas, completamente diversas daquelas que os assediavam diuturnamente nos palácios, no senado e nas câmaras, em busca de dólares e de euros, em que eram pródigos tanto em acumular quanto em distribuir.

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Dessa vez quem lhes valeu foram os demais seres irmanados da floresta, pois se acaso deixados à sanha das pequenas comilonas, só lhes restaria a ossada branca.

Assim é que foram rapidamente sacados do igarapé, sendo prontamente curados com ervas diversas, apesar de assassinos condenados a cumprir pena.

Quanto às piranhas, coitadas, de barriga para cima, soltando bolhas de sangue pela boca, bexiguinhas repletas de ar malsão, emitiam o derradeiro suspiro, envenenadas que foram pelo sangue tóxico dos prisioneiros.

Só que o Saci, matutando em seguida com o Boitatá, disse:

Está me parecendo que esses indivíduos não são aqui benquistos, além de serem portadores de altíssima malignidade. Mal e mal palmilharam 30 metros e já foram perseguidos por cobras, abelhas e piranhas, matando todos os atacantes.

– Fico imaginando – ponderou a Iara – quando toparem onça-pintada faminta, cascavel-de-quatro-ventas, carapanã, aranha armadeira, jacaré-açu e sucuri. Vai ser um deus nos acuda infernal. Será uma matança generalizada de lado a lado.

– Sabem o que estou pensando? – intrometeu-se o Caipora. – Ruins do jeito que são, melhor é largar essa cambada aqui no meio do mato, eles que se virem.

– Não – ponderou o Saci. – Não podemos ser como eles. Se alguém tem de dar exemplo somos nós. Quem sabe eles acabam aprendendo bondade com a gente, depois de sofrerem nos 4.000 quilômetros que terão de palmilhar?

Enquanto isso, dois anjos sinistros, representando a ignorância e a estupidez, sobrevoavam não a floresta amazônica, mas os céus de Brasília, a infeliz capital de um país eternamente exposto à vergonha e ao desalento.

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