4 de junho de 2026

Conversa Desembestada, e o Caso da Soledad

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Estou neste momento a tentar um novo exercício de escritura: ser explícita. Hoje é domingo, último dia do mês de agosto, e são quase nove horas da noite em Buenos Aires. Mas quando este texto for publicado já será setembro. E eu estou em Monserrat, bairro antigo da zona Sul da Capital Federal – a zona Norte reúne os bairros mais pomposos. Aqui conheci uma italiana de Módena, que após seis meses na Argentina foi morar na República Dominicana. Antes de sua partida deixou-me um de seus livros, Notas de Viaje – Diario en Motocicleta, do Che Guevara, e escreveu-me a dedicatória: “para quien vive la revolución permanentemente como tú”. Ao ler fiquei um pouco decepcionada comigo mesma, porque não tenho intenção de viver nenhuma revolução, estou buscando a tranquilidade e o bem estar; ainda transmito algum burburinho social, será? Nem tenho mais aquela rebeldia, a palavra escrita vem comendo tudo de mim. Bom.. e a italiana foi-se de Buenos Aires, e eu tenho ido tantas vezes a San Telmo passear. Acho que não sei fazer outra coisa, estou sempre no mercado. Por isso descobri que o senhor vendedor das antigas máquinas de escrever Olivetti e Olympia, ele pratica boxe, e em outros tempos chegou a ser bastante reconhecido, um dia pretendo entrevistá-lo. Gosto de saber sobre as pessoas em sua vida pessoal, mas apenas se puder fazer desta curiosidade uma entrevista formal e depois embelezar o processo por meio da palavra escrita. E por falar na importância da curiosidade sobre os outros, certa vez sucedeu-me ficar tão curiosa pela vida de um menino vendedor de bala no metrô, que lhe passei meu número de celular: entregue este papel à sua mãe e diga a ela para me ligar assim que puder. Esse menino é o Luis, e a mãe dele a Soledad. Ela me ligou no dia seguinte. Levei um susto danado, estava enfurnada num escritório, em plena Avenida Callao, próximo a Avenida Corrientes, vivendo o dia-a-dia comum do trabalho em pleno centro portenho. Fiquei atávica, sem saber bem o que fazer com a Soledad, e ela ali ao telefone, monossilábica, quando dizia algo falava arranhado, e para piorar muito baixo. Combinei um encontro para que pudéssemos nos conhecer. Veio a família inteira até o centro portenho: Ariel, o pai das crianças, a Soledad, o menino Luis, o seu outro menino de colo, e a pança dela que sobressaltava o próximo. Moradores da favela localizada nas imediações do bairro Pompeya, conhecida como Villa 21-24, a casa da Soledad ficava ainda à beira do poluído rio Riachuelo.

Quando os vi todos juntos, mesmo assim amontoados, como transmitiam não ter força para nada! O menino Luis era o mais ativo. Acompanhei esta família durante dois meses, eles eram cansados e prostrados demais, porque nunca fizeram mais que tentar sobreviver. Levei Soledad para que ela pudesse ter uma carteira de identidade, e assim solicitar os papeis para ingressar ao plano social do governo, Asignación Universal por Hijo. Depois tentei acompanhar o nascimento do próximo, dei-lhe alguma ajuda de fraldas, porque Soledad às vezes escapava, teria algum desânimo pelos nossos encontros, e para não ganhar muito bolo, utilizei as fraudas como isca. Falei que o Luis não deveria mais trabalhar no metrô, ela contou-me que um dia ele se perdeu entre as estações, e que num outro dia o segurança o mandou de volta para casa, pois ele não poderia vender mercadorias ali. Um dia, me vi sem saída, e sem ter o que fazer com a família da Soledad, e com a Soledad, e eles já estavam encaminhados para receber o subsídio do governo. Não lembro como foi a suposta despedida, mas foi nas vésperas do parto, e Soledad já tinha conseguido assistência completa no hospital público.

Depois de anos, toda essa vivência transformou-se no conto Gentes do Rio, que certamente terei que revisar para torná-lo mais claro. Naquela época, tinha ainda mais medo e menos prática de contar as coisas com abertura, liberdade e desprendimento, então eu escamoteava todas as palavras. Afundo tanto em mim mesma! E talvez as pessoas possam gostar quando sou explícita, como agora. Mas defendo-me, pois mesmo quando reservada demais junto à palavra, escrever é sem dúvida meu maior empenho de claridade. Olha, hoje mesmo exercito: contar tal-qual as coisas como acontecem. E por isso relembro quando conheci Soledad e sua família. Ah! E ainda tem mais. Um dia, por acaso, eu pude reencontrá-la na Villa 21-24, quando aos domingos participava de uma atividade com as crianças, e lá estava Soledad com seus meninos!, sem o pai-Ariel. Logo perguntei por ele, mas ela disse que já não estavam mais juntos. Claro, esse diálogo não existiu assim, porque Soledad continuava desmotivada e cansada demais para conversar. Perguntei sobre o bebê daquela época, e ele estava ali já durinho no colo dela, disse Soledad: é esse. Mas sem dizer todas essas palavras, apenas indicou-me o menino com o corpo. E agora que de modo explícito conto esta história, entendo o achatado modo de se expressar da Soledad, ela não sabe mesmo como sair de si!, mas sabe como ninguém o que é guardar algo consigo, numa involuntária e severa introspecção.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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