10 de julho de 2026

Crise política é a elite destruindo a ameaça ao poder, por Luis Fernando Verissimo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Do O Globo

A ilusão

Por Luis Fernando Verissimo

Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real

Gosto de imaginar a História como uma velha e pachorrenta senhora que tem o que nenhum de nós tem: tempo para pensar nas coisas e para julgar o que aconteceu com a sabedoria — bem, com a sabedoria das velhas senhoras. Nós vivemos atrás de um contexto maior que explique tudo mas estamos sempre esbarrando nos limites da nossa compreensão, nos perdendo nas paixões do momento presente. Nos falta a distância do momento. Nos falta a virtude madura da isenção. Enfim, nos falta tudo o que a História tem de sobra.

Uma das vantagens de pensar na História como uma pessoa é que podemos ampliar a fantasia e imaginá-la como uma interlocutora, misteriosamente acessível para um papo.

— Vamos fazer de conta que eu viajei no tempo e a encontrei nesta mesa de bar.

— A História não tem faz de conta, meu filho. A História é sempre real, doa a quem doer.

— Mas a gente vive ouvindo falar de revisões históricas…

— As revisões são a História se repensando, não se desmentindo. O que você quer?

— Eu queria falar com a senhora sobre o Brasil de 2016.

— Brasil, Brasil…

— PT. Lula. Impeachment.

— Ah, sim. Me lembrei agora. Faz tanto tempo…

— O que significou tudo aquilo?

— Foi o fim de uma ilusão. Pelo menos foi assim que eu cataloguei.

— Foi o fim da ilusão petista de mudar o Brasil?

— Mais, mais. Foi o fim da ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo.

Um pouco surpreso com a eloquência da História, pensei em perguntar qual seria o resultado do impeachment. Me contive. Também não ousei pedir que ela consultasse seus arquivos e me dissesse se o Eduardo Cunha seria presidente do Brasil.

Eu não queria ouvir a resposta.

Luis Fernando Verissimo é escritor

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

21 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Jorge Rebolla

    14 de abril de 2016 3:53 pm

    Estava a Dilma no seu lugar…

    …e veio o Temer a lhe fazer mal, o Temer é o Cunha, o Cunha é o Serra, o Serra é o Aécio, o Aécio é o Jovair, o Jovair é o Pauzinho, o Pauzinho é o Skaf, o Skaf é o Armínio, o Armínio é o Soros, o Soros são os Marinhos, Os Marinhos são o câncer, o câncer é a Globo, a Globo é a metástase, e a metástase não quer Dilma a governar.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=JzCMGI7VCv8%5D

     

    1. Vagalume do Brejo

      14 de abril de 2016 5:57 pm

      hahahaha…
      perfeita a

      hahahaha…

      perfeita a analise.

       

    2. Maria Luisa

      14 de abril de 2016 6:01 pm

      Excelente, Rebolla

      E quando é que se acabara com essa metastase ? Sera que o governo Dilma – se vencer essa guerra – tera força, condições e coragem para enfrentar o problema da Midia no Brasil ? Porque se o PMDB chegar ao poder através de golpe e a corrupção de deputados na Câmara, teremos uma longa noite pela frente e o câncer continuara sua progressão.

  2. Reginaldo RJ

    14 de abril de 2016 3:57 pm

    não entendo como um escritor

    não entendo como um escritor progressista como o LFV trabalha para as empresas Globo.. espero que seja como que um inimigo infiltrado nas trincheiras do conservadorismo para iluminar os incautos.. mas mesmo assim, será que ele se utiliza ou doa para os movimentos sociais parte da baba que deve ganhar da Casagrande (Globo)?

    por fim, estou confiante no fiasco do impitim, Não Passaram!!!

    1. Frederico69

      14 de abril de 2016 9:48 pm

      ele vende a força de trabalho que tem, não a consciência!

      é simples.

  3. maria rodrigues

    14 de abril de 2016 4:40 pm

    Ontem tive um pequeno

    Ontem tive um pequeno desprazer em ver Jô com sua Meninas. É vergonhoso assistir a essa mulheres, e ver bem nos olhos de cada uma o sentimento de quem faz hornal para os patrões. A tal da Luché (não sei escrever), olhou pra plateia, disse estar diante de jovens, e deu uma lição de política, e do futuro que eles esperam se o impeachment não passar. Da plateia não se ouvia um ai. Jô também deixou correr. Luciana Hipólitco, que parece estar com sequelas de Chicungunia, muito debilitada, mesmo assim, deslivava veneno contra Dilma e o PT. Vi pouco, e fui dormir; coisa melhor e mais saudável pra fazer.

    E pensar que Veríssimo, também da Globo, é capaz de mais uma vez escrever um artigo tão iluminado com esse. Com outro viés, porque ele é independente, diz o que sente, é respeitado – pelo menos até que um qualquer bata em sua cara -, e, embora saindo de um quadro clínico tão delicado, mostra estar atento aos problemas brasileiros, sempre nos ensinando.

    Eu amo Veríssimo, e estou lendo seus dois últimos livros com maior prazer. Ele é demais!

    1. mauro f. lima

      14 de abril de 2016 5:18 pm

      Comentário a …Ontem tive um pequeno…

      Pois, pra um sábio, achei seu texto muito pessimista. Até parece que não esixtem os países da Escandinávia, a Alemanha, França.

    2. mauro f. lima

      14 de abril de 2016 5:21 pm

      Comentário a …Ontem tive um pequeno…

      Pois, pra um sábio, achei seu texto muito pessimista. Até parece que não esixtem os países da Escandinávia, a Alemanha, França.

      1. B.V.D.

        15 de abril de 2016 12:43 am

        A Islândia dá inveja

        O 1º ministro caiu na semana que descobriram que ele tinha empresa off-shore.

  4. Giuseppe Junior

    14 de abril de 2016 4:42 pm

    Um texto, uma reflexão, que

    Um texto, uma reflexão, que vai ficar para a História.

  5. Dema

    14 de abril de 2016 5:12 pm

    esqueçam

    Infelizmente ja era, simplesmente mais uma vez teremos que contar uma historia triste para nossos netos daqui alguns anos, uma vez que novamente o sonho acabou, voltamos ao que sempre fomos, um pais cuja as elites estao pouco se lixando com o Brasil, estao preocupados unica e exclusivamente consigo mesmo e cagando na cabeça dos pobres. Mais uma vez o Brasil perde o bonde da historia! Depois nao adianta chorar, aquela historia de que o cavalo so passa celado uma so na vida, para o Brasil ja passou varias vezes, tenho medo que essa tenha sido a ultima. Como dizemos no ditado popular, o PT tem que assumir sua parcela de culpa e a presidenta Dilma idem, assistiram o golpe de baixo de seus narizes e nao acreditaram que aquilo era verdade, agora amigos infelizmente eh muito tarde!

  6. Pedro Mundim

    14 de abril de 2016 6:19 pm

    Governo não é só para os pobres

    A ideia de reduzir o papel do governo ao assistacialismo encontra eco profundo na mentalidade do povão, para quem o governo dever ser como aquele coronér que distribui sacos de arroz a seus protegidos, e também é endossada por políticos populistas, já que o emprego de Pai dos Pobres costuma ser muito bem remunerado. O problema é que ninguém é pai dos pobres sem ter o dinheiro dos ricos, de modo que todo governo que começa como Pai dos Pobres termina como a Mãe dos Ricos.

    Quem cria as riqueza de um país são os ricos, aqueles que possuem capital e capacidade de empreender. A riqueza que produzem e injetam na sociedade tira as massas da pobreza sem que estes tenham que depender da benevolência de um pai dos pobres qualquer. Um governo que se assume somente para os pobres, até por uma questão de coerência entre proposta e atos, a longo prazo sempre termina por conduzir todos à pobreza.

    1. Maria do Carmo Pereira de Oliveira

      14 de abril de 2016 11:26 pm

      O senhor por alguma acaso é

      O senhor por alguma acaso é louco???? Desde que o mundo é mundo são os ricos os maiores beneficiados em todas as instâncias de poder, por quantos governos e modelos econômicos já foram estabelecidos. Quando surge um governo trabalhista, que tenta distribuir um pouquinho, um nico, um nadinha de nada da riqueza e melhorar um tiquinho a vida do povão, os ricos dão um chilique! Ninguém aqui recebe esmola, não! Trabalhamos e trabalhamos duro para seguir adiante, mesmo contra todas as vicissitudes. Quem está dizendo que o governo SÓ governou para os pobres? Os governos petistas foram muito mais generosos com os ricos do que com os pobres, a diferença é que, para vocês (os ricos?), subsídios e desonerações fiscais são um direito e para os trabalhadores, bolsa-alimentação (para quem morria de fome), acesso à educação superior e ao crédito, são esmolas, né?! A verdade é que pessoas como o senhor (que deve ser um milionário falido ou um classe média endividado…) não engolem o fato de seus espaços de “poder” começarem a ser divididos com os pobres. É duro mesmo para os “doutores” verem o filho da faxineira sentando no mesmo banco da faculdade do seu “filhinho”, afinal, é direito adquirido o filho do rico estudar nas boas universidades… Vocês são uns cínicos e hipócritas! Pode continuar com seu mimimi, seu tapado egoísta! Esse movimento é inexorável, só segue adiante e vocês vão ter que nos engolir nas universidades, nos aeroportos, nos shoppings, na direção de nossos carros! Ah, e nos aviões rumo ao exterior, porque nós, agora, viajamos para a Europa tanto quanto vocês…

    2. Ulisses s

      14 de abril de 2016 11:38 pm

      Foi FGAGAC que:

      Criou 20 milhões de empregos? Que de devedor do FMI hoje é credor com reservas de quase 400Bi? Que investiu como nunca no PAC (linhas ferroviáris, transposição do SF, tirou o país do apagão com linhas de transmissão, hidreeletricas, eólicas? Que investiu na Ptrobras com estaleiros e refinarias? Que entregou linhas eletricas e 3 milhões de casas reativando a construção civil. Que de emnos de 1 milhão de carros se vende hoje mais de 3 milhões. Finalmente, passou da 14 para a 7 economia do mundo? Todos ficaram rico seu muidinho!

  7. Guilherme da Silva

    14 de abril de 2016 7:18 pm

    Quase perfeito, só faltou ele

    Quase perfeito, só faltou ele perguntar qual seria o preço por ele escrever isso… pq ele corre grande risco de ser esquartejado, ter sua casa demolida e o terreno salgado pelo pessoal do “je sui cunha”, pois esse é o modus operanti da SA!

  8. Pereira LF

    15 de abril de 2016 12:18 am

    O Veríssimo surpreendente

    Desta vez o Veríssimo  produziu uma crôniquinha abaixo da média. Muito piegas essa idéia de governo dos pobres perseguido por conservadores maldosos que não toleram o bem estar dos desfavorecidos. Generalização desonesta do contratado Global. Sua ingenuidade política e capachismo ideológico são de lascar. Fora isso ele é ótimo.  

  9. B.V.D.

    15 de abril de 2016 1:06 am

    Ensinando o padre a rezar missa

    Sugiro que o Veríssimo faça uma coluna agradecendo o Cunha.

    Ele pode mostrar as falhas dele e dos seus apoiadores, e a hipocrisia dos que lhe são coniventes.

    E agradecer ele ser quem é, pois se fosse Genocida (ou qualquer pessoa pior que ele), com esta câmara dos deputados e estes ministros pilatianos do STF, seríamos o inferno na terra.

    Exagerando 1 pouco, ao questionar apoiadores do impeachment do porque ignorarem o EC e depois ver que o continuam ignorando. Imagino como deve ter sido pros opositores do Hitler ver o povo apoia-lo.

  10. Selma Alduini Gouveia

    15 de abril de 2016 3:18 am

    Eu diria, caos político,

    Eu diria, caos político, produzido pela elite e mídia com a finalidade de destruir Sonhos…. Sonhos de inclusão, igualdade e fraternidade, arriando toda a liberdade!

  11. altamiro souza

    15 de abril de 2016 3:21 am

    xomo smpre genial, é de

    xomo smpre genial, é de família,  o pai tb posicionou-se contra o golpe em seu tempo…

  12. keppel

    15 de abril de 2016 5:30 am

    É “Vero”! – É Veríssimo!

    Dentre tantos Fernandos na história recente do Brasil…

    Um que, de fato, conhece a alma do povo brasileiro.

    Neste Fernando, eu confio!

    “Quem sai aos seus, não degenera!”

     

  13. João Gonçalves

    16 de abril de 2016 10:41 am

    Eu não consigo entender como
    Eu não consigo entender como é que a pessoa diz que os ricos brasileiros é que mantém a renda para os pobres quando na verdade todo mundo sabe como se deu a exploração pela coroa portuguesa, que por quase quatrocentos anos usou os negros para que estes construíssem toda a estrutura patrimonial brasileira e que no dia 14 de Maio de 1888 foram expulsos das propriedades que eles mesmos construíram com suor, sangue e Lágrimas e entretanto foram expulsos sobre o pretexto ideológico da carta da Abolição de uma falsa heroína Princesa Isabel. Isto é um absurdo! isso é um pouco mais de cem anos e ainda a comunidade carcerária é reflexo de tudo isso… e agora ver os paladinos dizerem que a classe rica é que distribui comdinheiro para a pobreza me poupe viu…

Recomendados para você

Recomendados