9 de julho de 2026

Depois dos sonhos do pai, por Luiz Henrique Lima Faria

Costuma-se dizer que muitos pais projetam nos filhos os sonhos que não conseguiram realizar. Talvez isso realmente aconteça
Imagem: Divulgação: Pixabay.com

Depois dos sonhos do pai

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por Luiz Henrique Lima Faria*

Seu filho, que eu ainda lembrava como um garotinho, já havia passado dos vinte e cinco anos. Enquanto falava sobre a vida do rapaz, meu amigo percebeu algo curioso. Praticamente todos os sonhos que tivera na juventude haviam se realizado na vida do filho.

O filho aprendera a tocar diversos instrumentos musicais, entre eles a guitarra elétrica. Não era músico profissional, mas era capaz de tocar praticamente todos os riffs das bandas de rock que ambos admiravam. Desenvolvera um gosto musical refinado, distante da música comercial. Um antigo sonho do pai realizado pelo filho.

Também falava fluentemente vários idiomas e havia morado por um período fora do Brasil. Não os dominava como um nativo, mas transitava por outros países com naturalidade, compreendendo pessoas e culturas sem dificuldade. Outro sonho da juventude do pai realizado pelo filho.

Cuidava do corpo com disciplina, mantinha uma rotina de exercícios físicos e uma atenção constante à própria saúde. Transformara a pele em uma tela artística repleta de imagens cuidadosamente escolhidas. Não era atleta, mas alcançara uma forma física admirada por muitos de seus contemporâneos. Mais um sonho do pai realizado pelo filho.

Agora cursava os últimos períodos de Medicina. Era um estudante dedicado, respeitado pelos professores e reconhecido pelos colegas pelo bom desempenho. Esse talvez fosse o único sonho que o pai jamais teria tentado realizar. Admirava profundamente a profissão, mas nunca suportou a visão de sangue. Ainda assim, aquele sonho impossível para o pai havia se tornado realidade no filho.

Depois de contar tudo isso, meu amigo fez uma pausa e disse:

“Sabe o que é mais interessante? Acho que meu filho realizou praticamente todos os sonhos que eu tinha quando era jovem. O melhor é pensar que, se em tão pouco tempo ele já realizou os meus sonhos mais impossíveis, imagine o que ainda há de realizar no tanto de vida que tem pela frente.”

Costuma-se dizer que muitos pais projetam nos filhos os sonhos que não conseguiram realizar. Talvez isso realmente aconteça. Mas a história que ouvi ontem me fez pensar em outra possibilidade. Há uma enorme diferença entre desejar que um filho realize os sonhos do pai e perceber, com alegria, que ele já conquistou liberdade suficiente para sonhar além deles.

*Luiz Henrique Lima Faria é Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

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