Crônica do gorjeteiro, por Rui Daher

Quando foram endinheirados, mandavam ver. Não sei como não se conheceram naquela época. Frequentavam lugares chiques, lojas, cabeleireiros, restaurantes.

Crônica do gorjeteiro, por Rui Daher

Tenho um amigo que conheceu e, ótimo escritor, expandiu personagem real como exclusividade em nossas trocas de mensagens humorísticas. Até hoje, nunca foi citado, publicamente. Eles dois frequentam o mesmo clube a exercícios e lazeres. Enquanto o amigo é reservado e cético, o outro se expande em assobios que expõem as melhores canções já compostas no planeta. Costumamos citá-lo como um aggiornamento de William Fourneaut, falecido na década de 1950, moço, antes de chegar aos 50 anos de idade. Fez muito sucesso na TV Tupi com a orquestra do francês Georges Henry. Parece bobo, mas hoje em dia nos faz amenizar as aflições com um Brasil depauperado.

E mais não digo. O personagem é dele e o deixo seguir a saga, se quiser.
O meu é personagem é Raul. Grande e requisitado executivo, entre os anos 1970 e final dos 1990. Até que, bobão, sem ser dono de porra nenhuma, mas vaidoso, diretor-executivo de uma empresa que faturava 200 milhões de dólares, assinou a tudo o que, na época, pediram.

Afinal, pensava, como recusar? Não era ele o principal gestor? Bancos e fornecedores pressionando, as acionistas preocupadas em importar sedas e nutrição animal para seus pets, Raul ouvia: “pode assinar, temos patrimônio pessoal e obrigação moral com você”.

Fez, perdeu seu patrimônio, construído a salário, nome, carreira, e o patrimônio e as obrigações das acionistas nunca apareceram.

Raul segura essa barra há 22 anos. Permitiu-se, no entanto, conhecer inimigos, muitos, e um sujeito tão bom e interessante quanto o assobiador de meu amigo, o Desidério.
Duas características comuns os uniram. Primeiro, que ambos quebraram. Raul com uma empresa e Desidério com uma fazenda. Além disso, os dois são inveterados doadores de gorjetas.

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Quando foram endinheirados, mandavam ver. Não sei como não se conheceram naquela época. Frequentavam lugares chiques, lojas, cabeleireiros, restaurantes. As gorjetas nos Ca D’Oro, Rodeio, Fasano, Tatti, La Tambouille, Roma, Jardim de Napoli, Don Curro, tantos outros, eram famosas.

No exterior, Raul ouvia: “pra quê tanto, você nunca voltará aqui?”. Respondia: “Importa? O serviço não foi ótimo? Qual a diferença se ele se chama Guignard ou Silva?”
Quebraram, mas não mudaram na generosidade

Mesmo quando nos maiores perrengues financeiros, dão um jeito de agraciar quem algum serviço lhes prestou. Algum troquinho, o dinheiro, pouco, tornou-se o menos importante.
Raul, contava de sua vida. Falava de suas preferências, gostos culturais, esportivos, culinárias e perguntava, com atenção, sobre as dos outros.

“Seu bebê já nasceu? Como está sua mulher, Elias”? “Ótima! Mais um chope, sêo Raul”? “Nossa que bom. Fique mais em casa. Acarinhe-o”. “Claro. Eu e minha mulher, estamos muito felizes”. “Enquanto eu aqui estiver, quererei saber de vocês”.

Talvez, sei lá, ele tem 25 anos e me traz Jacks, massas, Heinekens, o que eu pedir. No final dou-lhe algum e ele me agradece e diz: “Vai com Deus, sêo Rui”.
Devolve com um amém, e sobe ao quarto para escrever.

Da mesma forma que o companheiro Raul, a primeira coisa que Desidério faz é perguntar o nome do gajo e se apresentar. Logo engata: “assim meus pais me batizaram lá em Alagoas. Fazer o quê”? E cai em estrondosa gargalhada. Daí em diante, tudo sai leve.

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Nem sempre pega no sono rápido. Demora, tentando lembrar para não trocar no café-da-manhã quem o Valdir quem o Alexandre. E a agenda de trabalho do dia seguinte que, geralmente, começa às sete horas. Mas é bom. Foi o que restou, pós debacle. Rico não ficou, escritor não será, e por aqui fica, pouco reconhecimento.

Mas os “gorjeteiros” não param aí. Às vezes viajam juntos. Contam de suas vidas, se entregam, Desidério: “não gosto daquele piloto de avião de merda, patrão rico, bolsonarista por burrice ou puxa-saquismo, que lá fora para fumar e olha feio para mim, desde que eu menti que o meu charuto era um “puro” cubano”. Raul, fui além: lembra quando, antes das eleições, eu baixinho e velho, numa discussão, levantei-me com uma garrafa apontada pra cabeça dele e o mandei tomar no cu”?

Foi coonestado por todos.

– Tchau, Elias. Dê lembranças à esposa Joyce e ao moleque (também, são tantos, que não dá para lembrar todos os nomes).

E assim Raul e Desidério percorrem a vida, ainda, até que a cultura, a gentileza e a educação possam, um dia, sobreviver ao Brasil 17.

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