Crônica: “lugar onde o laboratório narrativo está mais em movimento”, disse Piglia. Por Maíra Vasconcelos

E dentro do fracasso é possível enumerar vários tipos de derrubação.

Crônica: “lugar onde o laboratório narrativo está mais em movimento”, disse Piglia

por Maíra Vasconcelos

Ouça a crônica 111109_001

Sobre o título falarei mais adiante. Como de costume, ainda não escrevi a crônica que desejo escrever. Seis anos se passaram, nesse jornal, e permanece comigo o impasse do texto. Encontrar um formato para dizer, escrevo crônicas no jornal. A voz, ao que parece, é apenas essa com a qual agora escrevo, formada pelo fato de não conseguir ainda fugir do tom da reflexão extrema. Reelaborar e esfumaçar a reflexão dentro de outro molde de palavras, pretendo algo assim. Evidentemente, há nesses anos, tentativas sucessivas.

Assim, considero este um trabalho inacabado. Mas, ao que parece, é preferível trabalhar com o que realmente se tem em mãos. Nem mais nem menos. Enquanto o desejo puxa tudo para logo mais adiante.

E enquanto não escrevo a crônica que busco, justifico o título desse texto. Outro dia, escutava uma conversa sobre o gênero crônica. Falavam despretensiosamente sobre o assunto Ricardo Piglia e Juan Villoro – pareceria Emilio Renzi sentado em um café discutindo literatura com amigos, e ver assim a cena é resultado das estratégias irretocáveis de Piglia. Escutava-os com muita atenção, e tive certo alívio. Encontrava ali uma justificativa para o fato de nunca ter escrito uma crônica. Ainda que justificar-se não seja recomendável, como sabemos – diferente de títulos de prosas e poemas que devem justificar-se, de algum modo. Se a crônica é, na atualidade, um lugar de experimentação narrativa, como eles dizem ser, certo alívio tenho em experimentar e não em repetir fórmulas. E repito a palavra alívio porque tem a ver com respirar, é o respiro do aliviado. Mesmo que a tal experimentação, fatalmente, e na maioria das vezes, leve ao erro. Igual música experimental que, facilmente, pode cair no buraco de ser só barulho misturado. Logo, o erro muito continuado pode levar ao fracasso. E dentro do fracasso é possível enumerar vários tipos de derrubação. E após toda derrubada, por exemplo, talvez se possa encontrar, e isso não é seguro, de seguro tem-se apenas o risco, uma forma de se falar-narrar.

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Bom, e sobre esses aspectos do trabalho da escrita será possível identificar um punhado de outras entrevistas e conversas de escritores memoráveis. E, mais uma vez, escrever ou não uma reflexão sobre. Sim, escreverei. Ao menos por enquanto, e com o que tenho em mãos, seguir sucessivamente empapada pelo atual modo reflexivo estampado na palavra experimentada, talvez no erro, talvez fracassada, talvez tentativa, talvez cansada, talvez muito ativa e movimentada, como dizem.

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