24 de junho de 2026

Dalva, por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Dalva tinha fama de atropelar pessoas com sua cadeira de rodas, sobretudo autoridades públicas, mas, naquele dia, chegou atropelada.
Reprodução - Coleção Rodas Sobre Tela

Dalva, mulher em cadeira de rodas, denunciava falta de acessibilidade e abusos de bancos na Promotoria de Justiça.
Ela sofria com problemas de saúde, violência e negligência, e lutava por direitos das pessoas com deficiência.
Dalva enfrentava o descaso dos órgãos públicos e bancos, buscando justiça para si e sua família.

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Dalva

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por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Agir é arrancar da angústia sua certezaJacques Lacan

Escrever é essa demolição de mim em mins. Marcelino Freire

O rugido da cadeira de rodas anunciava tempestades pelos corredores da Promotoria de Justiça e, antes que ela ventasse pela minha porta adentro, jogando na cara a minha imperdoável falta de acessibilidade, eu corria enrolar tapete, afastar sofá, tirar cadeira da frente – ainda que nada disso, de fato, precisasse ser feito. Era imperativo que ela soubesse que meu corpo se afetava pelo corpo dela e que eu tiraria os lugares dos seus lugares para recebê-la.                   

“Ela está subindo”, anunciavam em voz pesada e taciturna, como se tudo, então, estivesse prestes a explodir e sair do nosso controle.

Água, café…  preciso comprar mais biscoito de canela para oferecer a ela.

Dalva tinha fama de atropelar pessoas com sua cadeira de rodas, sobretudo autoridades públicas, mas, naquele dia, chegou atropelada.

Com a clavícula quebrada e a cadeira toda remendada, estava mais furiosa que nunca: conhecia pelo menos uma meia dúzia de Promotores de Justiça, e nenhum resolvia seus problemas – eu, evidentemente, entre eles.

Quebrada e altiva, posicionou a sua cadeira fórmula 1 – o terror das repartições públicas, diante de mim e, antes que eu dissesse que estranhei sua ausência por tanto tempo, desembestou:

– Vocês não resolvem nada, absolutamente nada. Eu achava que a senhora era diferente, mas não é. Da última vez que saí daqui o banco surrupiou mais dinheiro meu. Não duvido que a senhora esteja envolvida nessa máfia de bancos que quer me matar.

Usava camisa de linho vermelha e joias douradas que contrastavam com sua pele negra. Se fosse pintada, em seu trono de rodas, com espadas nas mãos domesticando raios e trovões, ninguém duvidaria: recebi Iansã em minha sala. Usava luvas, sapato de salto alto, às vezes chapéu de brechó; naquele dia, porém, o cabelo estava todo puxado para trás, em um coque que explodia em mini trancinhas, tão simétricas quanto caóticas – meu marido me penteou, explicaria mais tarde, em algum instante em que se descuidou das espadas e das dores.

– Olha aqui, nem mexo o ombro. Minha cadeira quase não funciona mais. Fui arremessada a dois metros dela e fiquei espatifada no asfalto. Os bancos encomendaram minha morte, mandaram aquele carro preto me atropelar, mas ainda não foi dessa vez.  E ainda estou sem geladeira. A senhora lembra que faz seis meses que a geladeira quebrou? Com que dinheiro vou consertar a geladeira se ninguém faz nada contra esses bancos?

Tinha novas feridas para ostentar naquele dia, além das que eu já conhecia das histórias nunca contadas até o fim.

 A filha. Uma doença crônica degenerativa. Um acidente. Alguém fechou o porta malas do carro na sua cabeça. A filha. Em algum momento caiu em um buraco, em outro, se estapeou com a vizinha. A filha. A patroa pagava pouco, mas lhe dava roupas usadas da Daslu. O cachorro morria. A filha. Autista. Os miomas. O passe de ônibus negado. Os úteros. Dela. Da filha. Outra filha. O genro ladrão. Úteros negros. A fila do SUS. A filha no SUS. O marido bom. A bexiga neurológica. O útero que sangra. O útero que não sangra. O não útero. O não. Os nãos. A geladeira quebrada. Aqueles malditos bancos.

Dalva figurava como denunciante em vários procedimentos que tramitavam na Promotoria de Justiça pelo direito das pessoas com deficiência. Em um deles, brigava com os Vereadores porque se sentiu humilhada ao ser proibida de usar o elevador privativo dos edis. Em outro, exigia mudanças nos contratos da Prefeitura Municipal com as concessionárias de ônibus na gestão do passe livre. No último, questionava toda a fila de atendimento de cirurgia do SUS porque um útero sangrava – o da filha. Ou o seu, não sei bem. Todos os úteros sangram de espera, afinal.

 Mas e os bancos? Quem faria alguma coisa contra a sanha das instituições financeiras? Quem a protegeria dos bancos que queriam matá-la?

– A senhora emagreceu, Doutora? Da última vez que vim aqui a senhora estava mais cheinha. Mas ainda precisa dar um jeito nesse cabelo.

Tinha sido esteticista. De gente muito rica, se gabava. Entre a denúncia contra a máfia dos bancos – da qual eu eventualmente fazia parte – e o seu quase assassinato, minha maquiagem estava apagada, a cor da roupa me caía bem, eu parecia cansada, meu sapato era lindo, eu tinha um sorriso e um colo bonitos, mas precisava aparar as pontas duplas do cabelo.

– A senhora também acha que sou louca? 

Olhei para o tapete enrolado no canto da sala e lembrei de Marcelino Freire, que fez um conto, em toda sua fundura, para pedir perdão ao irmão. No conto “a máquina humana”, se perguntou porque sentia vergonha do irmão e porque tinha sido sempre mais fácil imaginá-lo internado em um hospício do que frequentando um instituto de belas artes. Por que ele, escritor, tão premiado, tinha deixado o irmão partir sem entendê-lo? De que alicerces de medo éramos feitos, afinal, nesses tempos sem escuta?

Sem respostas, e em busca de alguma redenção, Marcelino escrevia: “A formulação de um personagem, qualquer um, é um pedido de perdão”.

O irmão do escritor Marcelino Freire, condenado à loucura dos outros, foi atropelado. Seu corpo ficou espatifado no asfalto, como o corpo de Dalva, mas ela, a esta altura, Iansã que era, já ventava de volta pelos corredores de onde veio, atropelando, ela mesma, quem não saísse do seu caminho. Assim como os úteros que esperam, um homem bom, que lhe trançava os cabelos, a esperava no térreo da repartição pública.

Perdão, Dalva.

Desenrolei o tapete, apaguei a luz. E fui cortar as pontas duplas dos meus cabelos. 

Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.

Cristiane Corrêa de Souza HillalPromotora de Justiça do MPSP e integrante do Coletivo Transforma MP

Referências:

A Máquina Humana [ Ensaio Inédito sobre a Loucura ] um conto de Marcelino Freire https://deusateucombr.wordpress.com/2021/02/17/a-maquina-humana-marcelino-freire/

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Cleide Martins

    15 de abril de 2026 4:56 pm

    Que bom saber que ainda há promotores de justiça que afastam os tapetes para a Dona Dalva entrar.

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