Digam o gosto pra mim, por Ana Laura Prates

Elis era jovem velha, giganta meninona. Transviada e luxuosa. Falava com marcianos, avisando que pra variar estávamos em guerra. Cantava a separação melancólica de nossos pais, no tapete, atrás da porta, murmurando baixinho.

Digam o gosto pra mim

por Ana Laura Prates

(escrito em 2016)

Quero lhe falar das coisas que aprendi nos discos. Eu tinha por volta de 14 anos, e estudava em uma escola pública – a Escola Estadual Bento de Abreu, conhecida como EEBA, no interior de São Paulo. Era boa aluna, afinal, já havia a cara amarrada, a falta de abraço, a falta de espaço, a falta de ar, que sufoco louco; só faltava ainda por cima, dar problema na escola. Para ser mais exata, estou quase certa que minha mãe só foi chamada na escola duas vezes. Na primeira, a diretora perguntou se ela sabia que eu militava em uma organização secundarista clandestina. Sim, respondeu. Estávamos em plena ditadura, eles haviam vencido, e o sinal estava fechado pra nós que éramos jovens, éramos os filhos da revolução, digo, do golpe; éramos burgueses sem religião, o futuro da nação.  

Na segunda vez, essa que vou contar, a diretora preveniu que eu estava andando com maconheiro; maconheiro aqui não era nome comum, mas tinha nome próprio. O dito maconheiro em questão não estudava nessa escola, mas aparecia sempre na hora da saída, para conversar com a gente, pontual e veloz em sua mobilete. Ele era a paixão de uma das minhas melhores amigas, a mais descolada, mas a primeira vez que nos falamos foi durante um assim chamado, salvo traição da memória, “Festival da primavera”. Era uma grande festa interiorana do esporte juvenil, e pra não dizer que não falei das flores, era uma festa repleta de botões que um dia iriam florescer no verão, mas que brotavam agora, na primavera da vida. As finais dos jogos ocorriam no EEBA porque lá havia um miniginásio de esportes chamado pela contraditória alcunha de “Gigantinho”, em homenagem diminutiva ao ginásio oficial da cidade que respondia pelo apelido pleonástico de “Gigantão”. Estávamos lá, em uma dessas tardes quentes de jogos primaveris, afinal aquela cidade era a morada do sol, quando o dito maconheiro, que eu já sabia quem era porque vivíamos em uma cidade do interior onde todo mundo conhece todo mundo; exceto a mim, que eu achava que ninguém conhecia, por me considerar sem graça e invisível; mas como eu dizia, estávamos lá quando o dito maconheiro se aproximou com um sorriso enorme e disse: “Oi, eu te ouvi cantar no festival. Você canta muito bem. Meu nome é Hugo. Você é a Ana Laura, né?!” O festival em questão era outro, não esse, sem traição da memória, “Festival da primavera”.

O festival a que ele se referia era um festival de música brasileira. Aqui a memória me trai, pois nem remotamente lembro o nome do festival de música do qual eu havia participado mês passado ao festival da primavera, que acontecia quando entrava setembro; isso eu me lembro, também pudera! O porquê de lembrar perfeitamente o nome do festival de esportes, do qual eu não passava de membro da torcida, e não lembrar o nome do festival no qual eu cantara bem, segundo Hugo acaba de me contar, é um desses mistérios entre o céu e a terra, impossível de ser alcançado por nossa vã filosofia. Lembro bem do festival Gota d’água, que aconteceu no EEBA, no qual não cantei, nem bem nem mal, pois ainda era uma menininha. Agora, em agosto de 1981, eu era uma meninona, e havia participado de um festival de música do qual não lembro o nome.  O Hugo, dito pela diretora o maconheiro, com quem em breve eu passaria a “andar”, era, eu bem sabia, o Hugo Prata, um Hugo que por duas letras poderia ser meu parente, mas não era; eu já o conhecia de vista, porque naquele tempo, naquela morada do sol, todo mundo conhecia todo mundo, mesmo a mim, sem graça e invisível, mas que pelo visto, ouvido e comentado, cantava bem. Depois disso, nos poucos anos que se seguiram, como sempre acontecia com os adolescentes de uma cidade do interior no início dos anos oitenta, nos encontrávamos sempre por acaso, no centro, nos barzinhos, mas principalmente nas praças, onde tocávamos violão e bebíamos vinho Chapinha – o único condizente com nossas bolsas de couro e com nossas alpargatas. Ignorávamos solenemente o conselho de não andar nos bares, esquecer os amigos, não andar nas praças, não correr perigos. Sim, a diretora tinha razão, também fumávamos maconha, é claro. Mas não sei por que a diretora o teria batizado, ao Hugo, de o maconheiro com quem eu estava andando, já que o que não faltavam na escola eram maconheiros com quem eu andava e cantava. Talvez porque fosse considerado forasteiro, assim como eu também me sentia naquela cidade, tanto que do mesmo jeito que veio se foi um pouco antes de mim, que fui logo depois, sozinha pra capital.

Essa seria apenas uma singela história de adolescentes visíveis e invisíveis do interior de São Paulo, no início dos anos oitenta; não fosse o fato de que era o início dos anos oitenta, século XX, no interior de São Paulo, Brasil, e de que os dias eram assim, com tantos perigos, com falta de abrigos, com falta de escolhas e falta de ar. Não podíamos pôr o dedo na nossa ferida, encostávamos a porta, pois nossa conversa não podia vazar, mas mesmo assim fazíamos a hora, não esperávamos acontecer. Eram dias densos, tensos, com uma consistência invisível que, entretanto, podia ser cortada com uma faca, se faca amolada tivéssemos. Não tínhamos facas, muito menos amoladas, não éramos assim tão rebeldes, nem tampouco tão maconheiros. Mas tínhamos o brilho cego de paixão e fé, e mais do que qualquer outra coisa, tínhamos a música, e enquanto houvesse espaço, tempo, corpo e algum modo de dizer não, nós cantávamos. Andávamos uns com ou outros assim, caminhando e cantando e seguindo a canção, nas escolas, nas ruas, campos, construções. Nos festivais, em casa, nas praças, nos bosques de eucalipto e nas cachoeiras onde íamos ver o pôr-do-sol que sempre renovava e brilhava de novo nosso sorriso. A música transbordava, abundava, escorria, inundava nossas almas adolescentes, dando contorno e orientação para nossa angústia e nosso medo. Sabíamos que viver era melhor que sonhar, mas sabíamos, igualmente, que qualquer canto era melhor do que a vida de qualquer pessoa. Então, cantávamos: Tom, Edu, Francis, Vinícius, Nara, Chico, Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Milton, Lô, Luis Melodia, Ivan Lins, Belchior, João Bosco, e tantos outros e outras. Nossos ídolos ainda eram os mesmos e não mais nos deixávamos enganar pelas aparências, embora usássemos velhas roupas coloridas que não nos serviam mais. Cazuza, Renato, Herbert e Arnaldo ainda eram jovens adolescentes como nós, errando nas guitarras os acordes das canções dos nossos mesmos ídolos; mas já ensaiando a nova mudança que em breve iria acontecer. Em um dia que não estava longe, viveríamos em soníferas ilhas; exagerados, conclamaríamos o quanto éramos legais e tínhamos coração por trás de nossas lentes, pediríamos atenção por sermos maiores abandonados, interessados por mentiras sinceras, e nossa geração seria doravante chamada, justa ou injustamente, não de geração chapinha, ou de geração maconheira, mas de geração Coca-Cola.

No início dos anos 80, ainda não sentíamos nem víamos nada disso, nossos heróis, pelo menos os nacionais, ainda não tinham morrido de overdose, embora nossos inimigos estivessem no poder desde que nos conhecíamos por gente. No início dos anos 80, nós, menininhas e meninonas, gigantinhos e gigantões, éramos velhos, cambaleantes e escondidos, éramos os mesmos e vivíamos como nossos pais e ainda precisávamos todos rejuvenescer; apesar de nossa aparência enganosa de botões primaveris, principalmente quando entrava setembro. Cantávamos e dançávamos na corda bamba de sombrinha, e em cada passo dessa linha podíamos nos machucar, nesse circo místico precário e contraditório, onde conviviam de modo tenso e cruel memória, censura, rebeldia, repressão, militância, calor, clandestinidade, exposição, corpo jovem, filosofia vã, maconha, chapinha, mobilete, paralisia, esporte, música, Nara, Bethânia, banquinho, violão, guitarra, prates, pratas, antes, depois, pôr-do-sol, arco-íris cor de sangue, juventude transviada e finalmente, o auxílio luxuoso de um pandeiro. Naqueles dias, que eram assim, havia uma esperança equilibrista encarnada na voz de uma mulher, que merecia viver e amar como outra qualquer do planeta. Essa mulher era chamada Elis. Elis Regina.

Elis era jovem velha, giganta meninona. Transviada e luxuosa. Falava com marcianos, avisando que pra variar estávamos em guerra. Cantava a separação melancólica de nossos pais, no tapete, atrás da porta, murmurando baixinho. Sensual, ficava louca quando desapareciam as palavras e outros sons enchiam os espaços. Ouvindo Maísa, nosso mundo caía, ouvindo Nara, recuperávamos nossa opinião, ouvindo Rita, fazíamos amor por telepatia, ouvindo Bethânia ecoávamos nosso grito de alerta, ouvindo Gal, nos faltava um pedaço, mas logo nos redimíamos na alegre festa do interior. Mas com Elis, éramos arrastados, upa, pra lá e pra cá; éramos arrasados, atravessados, revistados e revirados do avesso; vivíamos e aprendíamos a jogar, sentíamos na pele as águas de março fechando o verão, mesmo que estivéssemos em pleno festival da primavera, em setembro. Elis cantava as coisas que a gente se esquecia de dizer, dando voz e destino ao nosso desespero. Elis, que chamava meu pai de Julinho, quando eram amigos no beco das garrafas, e que tinha usado sua calça emprestada no comercial de carpete; essa Elis, a amiga do Julinho, ainda tinha o mérito de, com sua voz, trazer meu pai um pouco mais perto de mim, pelas histórias com cheiro de ciúme envelhecido que minha mãe contava, num tempo em que, os dias eram assim, e ele se metia com garrafas nos beco da vida. Com Elis sabíamos que, se quiséssemos falar com deus, tínhamos que ficar a sós e apagar a luz; com Elis, tão novos, já sabíamos que a estrada no final ia dar em nada do que pensávamos encontrar, e que um dia, o sol ia pegar o trem azul. Um dia Elis pegou o trem azul, e partiu num rabo de foguete. Chorou a nossa pátria mãe gentil, choraram marias ritas, joãos marcelos, pedros, anas e hugos.

Foi em janeiro de 1982. Poucos anos depois, nunca mais falei com Hugo Prata. Reencontrei a ambos, juntos, no século XXI, 2016, Brasil, São Paulo, só podia ser aqui, nessa outra morada. Elis – o filme de Hugo Prata – dizia o cartaz. Quantos setembros entraram trazendo a boa nova, desde então; e águas de março, quantas fecharam tantos verões; e outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz. Eu estava com medo, muito medo do que iria encontrar; medo de não gostar, medo de sentir o cruel constrangimento dos reencontros decepcionantes, breves e definitivos; medo que foi, no entanto, se dissipando suavemente, e se transformando em júbilo logo nas primeiras cenas, com a presença de uma Elis viva de alma, no corpo e na voz que Andrea Horta lhe emprestou para fazê-la reviver para sempre na tela do cinema. Agora, ela era uma estrela. Agora, lá estava eu, vidrada na tela, atenta a todos os detalhes de uma história que já conhecia de cabo a rabo, do fim ao começo, nos mínimos detalhes, pois são coisas muito grandes pra esquecer.

O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou? O que foi feito da vida? Da vida foi feito um belíssimo filme, no qual se lê uma narrativa cênica e dramática sensível, poética, elegante, digna; digna talvez seja a palavra justa que ficou muito tempo por dizer, e que na canção do vento não se cansou de voar, e que agora pousou na arte de meu amigo adolescente Hugo Prata, que agora só conheço de vista, de revista, de tv, e agora de filme; esse Hugo que passou a limpo e cortou os laços, soltou os cintos e fez a festa por mim; um festival da primavera e da canção, pois além da narrativa cênica e dramática, ouvi a voz de Elis cantando e contando sua própria história. De modo incrivelmente justo, o filme é testemunhal, passando a limpo uma história absurdamente íntima, sem ser obscena, porque é política na mesma medida e intensidade. O testemunho paralelo à narrativa acontece através das músicas, que a própria Elis escolhia para cantar, que Hugo recolheu como um florista, e que compõem a trilha sonora de nossas vidas. Na cena final eu já não mais escondia minhas lágrimas, mas confessava a mim mesma minha angústia, aos soluços, ouvindo aos nossos filhos, agora que faz tempo que sou mãe, e que nossos filhos estão na primavera da vida, e que de novo, os dias eram assim.

Elis, o filme lavou minha alma, minhas mágoas e meus olhos; e hoje sinto que quase sempre andei com as pessoas certas. Passei anos me debatendo no divã com esse pedido de perdão que atribuía aos dias tanta falta de escolha; afinal, quem em nós escolhe? Ah, Elis menina, quero te contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo, quero te contar que você me ajudou a escolher a vida. Hoje andando ainda com Hugo Prata, viu Elis giganta, companheira e amiga, digo que não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão. E agora que já colhemos os frutos, te digo: O gosto é agridoce como a vida.

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