Dormentes, por Lúcio Verçoza

Sáuba sorria. Olhava para a gente como se ouvisse dormentes. Parecia sentir o sentimento do mundo. Começou um cricrilar. Eu fiquei imaginando qual seria o pensamento dos grilos

Foto: Jonathan Lins

Dormentes

Por Lúcio Verçoza

Quando Seu Sanfoneiro recolheu a sanfona, pedi que Saúba nos contasse uma de suas histórias. Ele ficou pensativo, mexia em silêncio com o espeto as brasas da fogueira. As faíscas subiam em direção ao céu e depois sumiam. Era como se quisesse que as faíscas iluminassem a sua memória. Esperamos com a paciência de quem já havia saciado o estômago com a carne de gado. Foi somente no voo da última fagulha que Saúba começou a contar:

“Pois bem… Se vocês querem uma história, lá vai: Quando eu era menino, ainda na época em que menino não usava calças e nem sapato ou sandália, eu era capaz de ouvir o pensamento das coisas. Eu via um raio e sabia que era o céu querendo tocar a terra. Ouvia o trovão e sabia que era o céu querendo ser escutado. Nesse tempo, meu mundo era o terreiro do Engenho do Gamelo. As formigas carregavam tanto peso nas costas, mas sonhavam com o dia em que teriam asas de passarinho. Os escorpiões picavam as pessoas, mas não era por maldade, era por medo. As cigarras cantavam alto com saudade das mães. A noite era o sol com os olhos fechados. Os galos tinham receio do escuro e, por isso, eram os primeiros a chamar o dia”.

“Pois bem… foi nesse tempo que meu pai me levou para ver a feira da cidade. Na época eu conseguia distinguir claramente quem era da rua, quem morava no engenho e quem vivia nos sítios. Percebia pelos pequenos rastros deixados na forma de olhar, virar a cabeça e nas curvas dos lábios. Esses rastros eram muito evidentes para mim. Quando meu pai se distraiu com uma coisa qualquer na rua da feira, escapuli sozinho em direção ao trilho do trem. Lá, encontrei um senhor com anéis coloridos nos dedos e com o pescoço enrolado por uma corrente dourada. Cada ruga do seu rosto parecia cavada pela pá do segredo. Ele se acocorou para falar bem perto de mim e disse que depois de velho reaprendeu a ler o pensamento das coisas, que era um dom que havia esquecido, quando tinha mais ou menos o meu tamanho. Apontou para as toras de madeira debaixo dos trilhos, e perguntou: ‘Sabe o que são? São dormentes’. Eu nunca havia escutado aquela palavra, nunca havia visto sequer o trem que vinha de Catende. Ele disse que chamavam as toras de madeiras que sustentam o trilho de dormentes, porque elas são árvores adormecidas: algumas sonham em retornar para floresta, outras sonham em ser teclas de piano. Falou que no sonho de ser piano cada uma seria uma nota, e quando o trem de ferro passasse sobre elas se faria a música. No pensamento das dormentes, cada trecho entre uma estação e outra seria uma composição diferente e única.

“O tempo passou. Mais rápido do que um cavalo alazão montado por Belarmino. A agonia do tempo e a penugem dos primeiros fios ralos do bigode me tiraram a curiosidade de observar, com a cabeça colada ao chão, a paciente marcha das formigas de roça; a agonia do tempo me roubou a despreocupação que me fazia passar horas contando os anéis no corpo do escorpião, ou decifrando a linguagem das cigarras. O tempo me trouxe um desassossego, enferrujou os trilhos que vinham de Catende e quase levou a minha memória.

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“Essa história toda andava esquecida, perdida não sei desde quando. Talvez perdida a partir do exato momento em que achei que tinha tomado consciência do mundo. Foi somente antes de vir para cá, quando vi uma criança sozinha nos trilhos da Estação Lourenço de Albuquerque, que me lembrei dela. A lembrança veio clara como a cor dos meus olhos. Perguntei para a criança se ela sabia o que eram dormentes. Ela olhou para mim com a mesma cara que fiz para o velho cigano de anéis com pedras coloridas.

“O pai do menino puxou ele pelo braço e saíram caminhando. Mas, antes de virarem a esquina, o trem de ferro apitou por sobre as teclas de dormentes. O menino fechou os olhos para escutar melhor. Depois, ficou se perguntado porque em alguns momentos havia um longo silêncio entre uma parte e outra da música. Gritei que vinha das dormentes caladas, das que sonhavam em voltar para floresta, das que queriam voltar a ser árvore e não se conformavam em ser peça de piano”.

Depois disso ficamos em silêncio. Sáuba sorria. Olhava para a gente como se ouvisse dormentes. Parecia sentir o sentimento do mundo. Começou um cricrilar. Eu fiquei imaginando qual seria o pensamento dos grilos. Albino pensava se aquele era mesmo o final da história; para ele, a história nunca tem fim.

 

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