DR no Edifício Alameda
Uma conversa sobre modernização de portfólio
por Henrique Morrone
O Edifício Alameda é um corpo estranho na nova geografia da cidade. Suas pastilhas foscas, outrora firmes no concreto bruto, já simbolizaram um projeto de país que pretendia ser sólido. Hoje servem apenas para escorar o cansaço da Indústria. Ela está ali, sentada numa cadeira de escritório de 1980, as mãos manchadas de uma graxa que o tempo não remove, observando o PIB conferir as horas em seu relógio digital, sincronizado com o fuso de Chicago.
— Doutor, ele me propôs um casamento aberto — diz ela, com a voz seca de uma caldeira desligada. — Diz que é “modernização de portfólio”. Mas o que ele quer é a chave da casa para trazer a especulação para dormir na nossa cama.
O PIB não nega. Flutua pelo escritório com a leveza de quem não possui ativos fixos, apenas fluxos.
— É uma questão de sobrevivência, querida. Você é pesada: exige porto, ferrovia, planejamento, uma fidelidade que a taxa de juros e de câmbio não me permite jurar. Não tenho tempo para a sua maturação de dez anos. O mundo gira em milissegundos. Se posso rentabilizar com a Selic ou com um fundo imobiliário que erguerá um espigão no lugar deste prédio, por que ficaria preso ao seu chão de fábrica?
A Indústria não responde imediatamente.
Por um instante pensa nos galpões que já não existem, nos tornos vendidos como sucata, nos engenheiros que agora produzem planilhas para fundos de investimento. Talvez o problema não seja o casamento aberto, mas o fato de que ele já foi embora há muito tempo.
Ela aponta para a janela. Lá fora, os tratores da Sombra S.A. rugem. São os novos empreendimentos que não vendem moradia — vendem “unidades de rendimento”. O sol, que antes iluminava o balcão onde se desenhavam turbinas, agora foi privatizado pelo vizinho de quarenta andares.
— Você está vendendo o nosso sol, PIB. Aceitando que esses produtores de sombra apaguem o que construímos apenas porque o metro quadrado da penumbra está em alta.
— Não é sombra, é alocação eficiente de recursos — corrige o PIB, já a caminho do elevador. — E o casamento aberto continua de pé. Se quiser competir, mude-se para uma planilha de Excel. Eu não moro mais em endereços. Moro em dividendos.
O PIB sai. O elevador pantográfico do Alameda range baixinho. A sombra hipertrofiada do vizinho atravessa a sala e cobre a Indústria por inteiro. Ela não se move.
No mundo dos Produtores de Sombra S.A., aquilo que não reluz com o ouro efêmero das finanças precisa aprender a sobreviver no escuro.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
AMBAR
13 de abril de 2026 4:07 pm“Da força da grana que ergue e destrói coisas belas”, …”não verás país nenhum”
Se tiveres sorte habitarás coletivamente sob alguma marquise.