O setor que intermedia o inexistente
por Henrique Morrone
O consultório tinha paredes desmaiadas — um bege que outrora fora neutro — agora apenas cansado. A luz desferia-se de forma irregular sobre o divã, indecisa quanto ao que deveria iluminar.
A taxa de juros chegou pontual.
Sentou-se com cuidado. Anunciou que ficaria pouco. Tinha compromissos.
— Podemos iniciar — disse o analista.
— Eu reajo. Reajo reativamente.
O analista anotou.
Reagia à inflação.
Reagia às expectativas.
Reagia ao clima.
Era o que dizia. E, por um tempo, parecia suficiente.
Havia ali um certo orgulho.
Diferentemente de alguns de seus primos estrangeiros — mais dados a antecipar, a sinalizar, a conduzir — a taxa insistia em sua natureza reativa. Não guiava. Acompanhava.
Mas, ao alinhar as reações com o que vinha ocorrendo, surgiu um descompasso discreto — não um erro, algo mais difícil de esquadrinhar.
Subia — mesmo quando o investimento fraquejava.
Subia — quando o crescimento desacelerava e a incerteza aumentava.
E, ao subir, não a debelava. No máximo, reorganizava seu semblante.
— Não produzo isso — disse.
— Apenas respondo.
— E, ao responder, o que acontece?
A pergunta pairou um tanto desamparada.
Do lado de fora — ou talvez a partir dali — ninguém identificou um ponto de início.
Não houve ruptura. Nem anúncio. Apenas continuidade.
Formou-se um setor.
Em economias como a brasileira, ganhou escala.
Não produzia bens.
Tampouco serviços, ao menos no sentido prosaico da palavra.
Sua função era outra: intermediar o que não existe.
Ou, por vezes, o que infelizmente existe — mas não produz.
Fluxos eram registrados antes de ocorrer.
Rendimentos, antecipados antes de serem gerados.
Expectativas circulavam como ativos líquidos — e, com o tempo, passaram a render.
Não havia fábrica. Nem máquina.
Nem trabalhador com rosto.
Ainda assim, havia lucros.
Robustos. E, sobretudo, justificáveis.
Tentou-se descrevê-lo.
Dizia-se que organizava o que ainda não havia acontecido.
Que dava forma à incerteza.
Que permitia decisões onde antes havia apenas espera.
Tudo isso parecia coerente — desde que não se observasse por muito tempo.
Porque, à medida que crescia, o setor não reduzia a incerteza.
Passava a depender dela.
E mais: começou a produzir algo específico.
Não bens.
Não serviços.
Mas necessidade de intermediação.
Quanto mais incerto o ambiente, maior sua relevância.
Quanto maior sua relevância, mais difícil se tornava prescindir dele.
Na segunda sessão, a taxa de juros foi mais cautelosa.
— Eu estabilizo — proclamou.
— O quê?
— O sistema.
— Qual sistema? Metabólico?
Houve uma pausa curta, suficiente para não parecer hesitação.
— O que está dado.
O analista anotou, dessa vez sem levantar os olhos.
Ao elevar-se, reorganizava decisões.
Adiava investimentos.
Reordenava fluxos.
Recompensava posições que não dependiam da produção.
E, ao fazê-lo, reforçava o ambiente em que o próprio setor — aquele que intermedia o que não existe — se tornava necessário.
— Então você participa do processo? — perguntou o analista.
— Eu reajo a ele.
A diferença parecia pequena. Não era.
Do lado de fora, a economia mantinha suas formas reconhecíveis.
Havia produção, ainda que irregular.
Havia investimento, ainda que hesitante.
Havia trabalho, ainda que pressionado.
Mas isso já não organizava o restante.
Ou apenas servia de referência para algo que operava por outros critérios.
Na última sessão, a taxa chegou no mesmo horário.
Deitou-se. Ajustou-se.
O analista esperou.
Nada.
Então, quase como um reflexo — ou um gesto aprendido — a taxa ensaiou uma leve queda.
Discreta. Quase imperceptível.
Nada que alterasse o quadro.
Apenas o suficiente para sugerir melhora.
Por um instante, pareceu responder menos ao sistema do que à própria cena.
Não havia mais o que esclarecer — não porque estivesse resolvido, mas porque a explicação deixara de ser necessária.
Do lado de fora, os fluxos seguiam circulando.
Sem origem que importe.
Sem destino que organize.
E, sobretudo, sem a necessidade de passar por aquilo que, por muito tempo, se chamou de produção.
No prontuário, não havia diagnóstico.
Apenas registros de variação.
E, ainda assim, os sinais — curiosamente — seguiam estáveis.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
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Agnaldo
1 de abril de 2026 1:19 pmMuito bom.