4 de junho de 2026

O setor que intermedia o inexistente, por Henrique Morrone

Uma taxa que reage, um sistema que se organiza — e uma economia que já não precisa produzir para funcionar
Reprodução

O setor que intermedia o inexistente

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por Henrique Morrone

O consultório tinha paredes desmaiadas — um bege que outrora fora neutro — agora apenas cansado. A luz desferia-se de forma irregular sobre o divã, indecisa quanto ao que deveria iluminar.

A taxa de juros chegou pontual.
Sentou-se com cuidado. Anunciou que ficaria pouco. Tinha compromissos.

— Podemos iniciar — disse o analista.
— Eu reajo. Reajo reativamente.

O analista anotou.

Reagia à inflação.
Reagia às expectativas.
Reagia ao clima.

Era o que dizia. E, por um tempo, parecia suficiente.
Havia ali um certo orgulho.

Diferentemente de alguns de seus primos estrangeiros — mais dados a antecipar, a sinalizar, a conduzir — a taxa insistia em sua natureza reativa. Não guiava. Acompanhava.

Mas, ao alinhar as reações com o que vinha ocorrendo, surgiu um descompasso discreto — não um erro, algo mais difícil de esquadrinhar.

Subia — mesmo quando o investimento fraquejava.
Subia — quando o crescimento desacelerava e a incerteza aumentava.

E, ao subir, não a debelava. No máximo, reorganizava seu semblante.

— Não produzo isso — disse.
— Apenas respondo.

— E, ao responder, o que acontece?

A pergunta pairou um tanto desamparada.

Do lado de fora — ou talvez a partir dali — ninguém identificou um ponto de início.
Não houve ruptura. Nem anúncio. Apenas continuidade.

Formou-se um setor.

Em economias como a brasileira, ganhou escala.

Não produzia bens.
Tampouco serviços, ao menos no sentido prosaico da palavra.

Sua função era outra: intermediar o que não existe.

Ou, por vezes, o que infelizmente existe — mas não produz.

Fluxos eram registrados antes de ocorrer.
Rendimentos, antecipados antes de serem gerados.
Expectativas circulavam como ativos líquidos — e, com o tempo, passaram a render.

Não havia fábrica. Nem máquina.
Nem trabalhador com rosto.

Ainda assim, havia lucros.
Robustos. E, sobretudo, justificáveis.

Tentou-se descrevê-lo.

Dizia-se que organizava o que ainda não havia acontecido.
Que dava forma à incerteza.
Que permitia decisões onde antes havia apenas espera.

Tudo isso parecia coerente — desde que não se observasse por muito tempo.

Porque, à medida que crescia, o setor não reduzia a incerteza.
Passava a depender dela.

E mais: começou a produzir algo específico.

Não bens.
Não serviços.

Mas necessidade de intermediação.

Quanto mais incerto o ambiente, maior sua relevância.
Quanto maior sua relevância, mais difícil se tornava prescindir dele.

Na segunda sessão, a taxa de juros foi mais cautelosa.

— Eu estabilizo — proclamou.
— O quê?
— O sistema.
— Qual sistema? Metabólico?

Houve uma pausa curta, suficiente para não parecer hesitação.

— O que está dado.

O analista anotou, dessa vez sem levantar os olhos.

Ao elevar-se, reorganizava decisões.
Adiava investimentos.
Reordenava fluxos.

Recompensava posições que não dependiam da produção.

E, ao fazê-lo, reforçava o ambiente em que o próprio setor — aquele que intermedia o que não existe — se tornava necessário.

— Então você participa do processo? — perguntou o analista.
— Eu reajo a ele.

A diferença parecia pequena. Não era.

Do lado de fora, a economia mantinha suas formas reconhecíveis.
Havia produção, ainda que irregular.
Havia investimento, ainda que hesitante.
Havia trabalho, ainda que pressionado.

Mas isso já não organizava o restante.

Ou apenas servia de referência para algo que operava por outros critérios.

Na última sessão, a taxa chegou no mesmo horário.
Deitou-se. Ajustou-se.

O analista esperou.

Nada.

Então, quase como um reflexo — ou um gesto aprendido — a taxa ensaiou uma leve queda.
Discreta. Quase imperceptível.
Nada que alterasse o quadro.

Apenas o suficiente para sugerir melhora.

Por um instante, pareceu responder menos ao sistema do que à própria cena.

Não havia mais o que esclarecer — não porque estivesse resolvido, mas porque a explicação deixara de ser necessária.

Do lado de fora, os fluxos seguiam circulando.

Sem origem que importe.
Sem destino que organize.

E, sobretudo, sem a necessidade de passar por aquilo que, por muito tempo, se chamou de produção.

No prontuário, não havia diagnóstico.
Apenas registros de variação.

E, ainda assim, os sinais — curiosamente — seguiam estáveis.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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1 Comentário
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  1. Agnaldo

    1 de abril de 2026 1:19 pm

    Muito bom.

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