Auditoria no estômago: quem absorve não produz
por Henrique Morrone
O Estado não foi ao nutricionista por estética. Foi por falência funcional.
Suas juntas rangiam como engrenagens sucateadas e a pressão subia como juros em dia de pânico. Era o retrato de uma economia que inflou calorias sem produzir energia — uma base inchada sem PIB real.
A Dra. Regina, nutricionista de pulso firme e visão estruturalista, recebeu o paciente como quem lê um balanço em frangalhos. Não havia espaço para a homeopatia bancocentralina dos 0,25 pontos percentuais. Era caso de reforma de base.
A nova matriz nutricional
A regra era simples: o prato como orçamento.
50% de vegetais — investimento em infraestrutura. Fibras. Sem elas, o trânsito trava, surgem gargalos e inflamação sistêmica.
25% de proteína — base industrial. Sem músculo, o corpo se canibaliza para pagar juros e se desindustrializa.
25% de carboidratos complexos — âncora energética. Nada de liquidez imediata: açúcar refinado é populismo metabólico. Energia de maturação lenta.
A patologia oculta
O plano funcionava no papel. O corpo, não.
A auditoria revelou o problema: o Parasita Rentista.
Instalado no “Copom” do duodeno, operava em spread, interceptando nutrientes nobres e devolvendo ao organismo apenas o passivo residual. Pequenas variações na glicose não alteravam seu apetite extrativista — não passavam de ruído.
O problema não era ingestão. Era vazamento.
O sobrepeso do Estado era uma ilusão estatística. Acumulava gordura como reserva contra um dreno que não conseguia estancar. A austeridade de quem come para sustentar o luxo de quem subtrai.
O desfecho
A Dra. Regina entendeu que não se combate o rentismo com placebos monetários. Foi necessário um choque de soberania.
Ao zerar a taxa de retorno real do Parasita, ela provocou o seu default biológico. Sem o fluxo constante de transferências sequestradas, sua estrutura sofreu uma depreciação acelerada.
Não houve honras, nem nota oficial.
Inexoravelmente, o Parasita foi reduzido à sua insignificância orgânica e saiu dissolvido nas fezes.
Aquele que outrora sequestrava o PIB nutricional foi convertido em resíduo — uma massa amorfa descartada pela descarga da história biológica.
Ao puxar a alavanca, o Estado sentiu o alívio da desalavancagem. O inchaço cedeu.
Sem o pedágio do atravessador, o Prato Colorido finalmente gerou dividendos reais.
Livre do dreno especulativo, o Estado enfim goza de seu vigor nutricional.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
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