Entrevistas Clube Dos Garotos 4 – Marta Suplicy, por Rui Daher

por Rui Daher

Texto de “fricção” patrocinado por ESTAMPAS EUCALOL

Saímos de São Paulo para Santa Rosa de Viterbo no sábado bem cedinho. Combináramos nos encontrar na Redação, às seis e meia. A entrevista estava marcada para as 11 e seria seguida de um churrasco oferecido pelos anfitriões. Não antecipei a Nestor e Pestana a viatura que usaríamos para cruzar os quase 300 km de rodovias. Quando aterrissei com o EFFA M-100, ano 2007, na porta do casarão do Pacaembu, suas expressões, antes sorridentes, se transformaram.

– Sem reclamações. É o que temos para hoje. Minha mulher ficou com a Belina.

– Pô, mas é estrada, longe, fazenda de gente rica, chegamos com um chinesinho desses e o que irão pensar de nosso jornalismo?

– Isso se chegarmos. A candidata acabou de ser entrevistada pelos mais importantes órgãos da imprensa. Já não temos uma boa imagem, imagina com esse carro.

– Vocês parem de secar. O carro foi revisado e é econômico. Faz 15 km/litro. Bom para a crise de que o interino irá nos salvar. Se preferirem tem ônibus até Ribeirão Preto. Ou nem precisam ir.

– Aí também não. Perder um churrasco dos Matarazzo.

Cabe explicação. O encontro havia sido marcado um mês antes e seria feito na casa da senadora, no domingo 31 de julho. Na última segunda-feira, ela mesma ligou para a Redação dizendo que teria compromissos políticos e “de família” na região de Ribeirão, propondo nós nos deslocarmos até lá para entrevista e churrasco.

– Sem dúvida, senadora. Será uma honra. Mande-nos indicações de local e horário.

– Temos um livreto-convite que enviarei. Vê se o Nassif quer ir junto.

– Transmitirei.

– Obrigada, gracinha!

O tratamento carinhoso me fez lembrar os tempos em que a admirava e a achava parecida em físico e alma com Hebe Camargo. Durante as três horas e meia de viagem, eu e Pestana discutimos os temas que poderíamos abordar. Nestor dormiu o tempo todo. Não queria ver o fiasco chinês.

– Andrea, o companheiro de chapa e suas menções a Marta nas redes sociais. Serra bancando Doria para refogar o chuchu de Geraldo. Ministra de Dilma. PT por 34 anos. “Martaxa”.

– Pô, só coisa ruim! Vão me dizer que a mulher não fez nada de bom quando prefeita?

Nestor estava acordado. Pede que paremos no primeiro posto.

– Vocês leram o livrinho que ela mandou?

– Só o mapa para chegar na Amália.

– Triste. Aproveitem o resto da viagem e leiam em voz alta para termos uma noção do que é essa fazenda.

– Quer dizer que também não leu?

– Eu sou o patrão. Preferem dirigir enquanto leio?

– De jeito nenhum. Com o barulho infernal do motor deste carro ninguém vai ouvir nada.

– A Fazenda Amália ou Santa Amália, como prefere o ramo mais católico dos Matarazzo, foi o que sobrou depois que a mansão instalada nos 12 mil metros quadrados da Avenida Paulista foi vendida.

– Lembro que a Erundina quis tombá-la.

– Tombada até foi. De outro jeito. Com uma bomba no porão do imóvel e 125 milhões de reais no bolso da família, já meio quebrada.

– E a fazenda?

– Um palacete construído em 1931 pelo conde Francisco Matarazzo Jr., com a mesma arquitetura da mansão na Paulista, para a ser a residência oficial da sua família, em Santa Rosa de Viterbo. Tem estrada particular para acesso exclusivo da família e de suas visitas.

– Fica numa área de 28 alqueires ainda administrados pela família. O portão de entrada, no centro da cidade, tem dois leões, um de cada lado. Em seu entorno foi criada a Praça Maria Pia, homenagem à filha caçula do conde.

– Essa foi do peru. Será que os dois leões deixam passar um EFFA M-100?

– Não enche o saco. Estamos perto, põe aí no Waze.

………………………………………….

Passamos, depois de várias perguntas dos seguranças e respostas vindas de rádios-transmissores. Pompa. Vendo aquilo fica fácil entender o espírito conservador e escravocrata dos brasileiros ricos.

Na escadaria de entrada nos esperam a senadora Marta Tereza Smith de Vasconcellos, bisneta e trineta de barões, e seu novo chapa, o empresário e radialista Ângelo Andrea Matarazzo. Quatro empregados uniformizados e com luvas brancas retiram os equipamentos do carro. Um deles é mandado estacionar o EFFA. Percebe-se contrariedade.

Beijinhos faciais e, distante, entre impecável gramado e um bosque, percebo tendas brancas e tênue fumaça. Seria lá, provavelmente, o churrasco.

– Queridos jornalistas, eu e o Andrea vamos acompanha-los à biblioteca para a entrevista, mas antes gostaríamos que assinassem o livro de visitas especiais. É da tradição. Vejam esses dois aqui.

– Juscelino Kubistchek e Nelson Rockfeller? Puxa!

– Sintam-se à vontade, gracinhas. Querem beber algo?

Com Hebe na cabeça, quem precisa beber? Antes que Pestana aceitasse, chutei-lhe a canela.

– Senadora, Marta, apesar de polêmica, sua administração, como prefeita de São Paulo, deixou marcas importantes. Quais seus planos para incrementá-las?

– Meu querido, antes de tudo, desfazer tudo o que o poste do Lula fez.

Naquele exato momento, toca o celular, ela se desculpa e atende. Impossível não ouvir. As bochechas rubras, olhos injetados de ódio, voz ríspida e alta:

– O que você quer, porra? Não é nem louco! Me respeita. Estamos numa entrevista e num evento de família. Não foi convidado e nunca o seria.

– O quê?!!!! Nem por um $#%%&*¨%. Os filhos? Enfia cada um deles no +=-0&¨%$#. Não se atreva! Vou deixar preparados os seguranças.

Desliga.

– Desculpem, não foi nada não, continuemos.

– Como eu ia dizendo, sair do PT foi como libertar-me da corrupção. O PMDB é um partido ético, de causas nobres …

Interrompe. A gritaria no lobby deixa a todos tensos. Marta enfurece e passa a sapatear. Andrea, como uma codorna azul e amarela, corre para debaixo da escrivaninha estilo clássico. Os gritos que vêm de fora ficam mais altos:

– Devolve, devolve, usurpadora, devolve! Roubou de mim!

Sinais de luta, móveis e vasos quebrados:

– Segura, segura! O velho é maluco!

Marta se atira contra a porta e também passa a berrar:

– Seu maluco, panaca, que porra você quer? Já não chega ter empatado a minha vida por 37 anos e sair por aí dizendo que perdeu o eixo. Fique sabendo que seu eixo sempre foi uma bosta. Fora daqui!

Eduardo Matarazzo Suplicy está duro, teso, deitado no chão, mas não para de gritar:

– Esta é uma reintegração de posse de sobrenome. O Matarazzo é meu! O Suplicy é meu! Quem te deu o direito de usá-los? Vai de Smith Vasconcellos, Favre, Toledo, o que quiser, menos os de minha posse! Reintegração!

Carregado pelos seguranças da casa, Eduardo é levado embora, entre gritos de devolve(!) e estrofes de “Blowin’ In The Wind”.

Não houve churrasco.

 

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13 comentários

  1. Quantos anos ainda serão necessários?

    Pra ficarmos livres desta elite nobre decadente?

    The answer, my friend, is blowin’ in the wind
    The answer is blowin’ in the wind

  2. entrevistas…

    “A verdade vos libertará”. A democracia continua maravilhosa porque ela não é estática. Para grande parte da esquerda, até ontem uma Marta Suplicy valia umas dez Katia Abreu. Aonde está a verdade, aonde está o caráter, aonde está o futuro? Não sei se descobrirão coisa melhor, mas até agosto de 2016, tenho certeza está na democracia. Abs.

  3. Este pessoal septuagenário deveria pendurar a chuteira

    O que uma anciã desta pode fazer por São Paulo?

    Lugar de velha gaga é no asilo.

  4. Claro que é uma alegoria mas

    Claro que é uma alegoria mas os ramos de Marta e Andrea não tem relação com a Fazenda Amalia de Santa Rosa do Viterbo, a familia Matarazo empresarial e patrimonialmente é bem dividida desde a sucessão do primeiro Conde em 1937, Andrea é do ramo de Ciccilo Matarazzo (METALMA -Metalurgica Matarazzo) e a sogra Matarazzo de Marta, dona Filomena, tampouco tem relação com a Agro Industrial Amalia S.A.,do ramo Conde Chiquinho-Maria Pia, onde está a fazenda descrita no artigo, alem de patrimonialmente divididos os Matarazzo sempre estiveram em lados apartados e muitas vezes conflitantes em relação a bens.

    • Tudo certo, André

      já fui lá e inclusive vi o nome da Maria Pia, em nome de praça. Mas não tinha como prosseguir no mote de que “a Marta não fica sem um Matarazzo”. Abraços.

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