4 de junho de 2026

Felizes anos velhos, por Eduardo Ramos

Um Feliz Ano Novo, especialmente a todos os que, por conta de nostalgias ou não, pouco importa, sintam-se inconformados com esse Hospício

Felizes anos velhos, por Eduardo Ramos

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Esse artigo é um texto extremamente pessoal, confessa o articulista já na primeira frase. Mas sou daqueles que acredita absolutamente que é a partir do pessoal que tocamos a muitos, quando temos o privilégio de “ser espelhos” para todos os que comunguem daqueles pensamentos/sentimentos expressos. E, definitivamente, principalmente entre os de minha geração, penso ser o caso desse artigo/reflexão.

Sem fanatismos ou exageros, volta e meia sinto nostalgias diversas do tempo em que viver no Brasil me trazia cargas de perplexidade, indignação, tristezas, mas nada JAMAIS comparável a essa sensação de estar num Hospício, onde as distopias (sim, no plural, porque são muitas e formam um mosaico doloroso e sofrido) se cristalizaram e parecem se cristalizar mais a cada dia, o país fraturado, tão tragicamente fraturado que, aos mais jovens deve parecer “que sempre foi assim”, essa barbárie, essa selvageria, nossa “terras brasilis”. Mas não, prezados jovens, não foi, não era esse horror, nossos presidentes não eram negacionistas, genocidas, não falavam em matar seus adversários aos milhares, não falavam a seres humanos que perderam familiares na ditadura sem que seus corpos fossem encontrados, que “quem procura osso é cachorro”, rindo, o genocida parvo e canalha, ao lado do cartaz pavoroso, orgulhoso de sua própria imbecilidade ímpar. Pior do que isso? Sim! Vermos, assustados, que milhões de brasileiros à nossa volta, nossos familiares, colegas de trabalho, etc., não se importam com o show de horrores. Uns por ignorância estupidificante, vá lá, talvez não haja cura mesmo para certas cegueiras… Mas muitos, eis o nosso espanto de pedra, por semelhança com a criatura hedionda.

Pouco antes de escrever esse artigo, ao som inigualável de “The Dark Side Of The Moon”, Pink Floyd, assisti pela TV ao show de Caetano e Betânia, no Rio. Impossível não me remeter aos anos da infância e adolescência, os festivais da Record, o país lutando por sua liberdade nos anos 70 e 80, a arte fluindo como um rio refrescante, na música, no cinema, no teatro, na literatura, e no ABC paulista aquele operário barbudo de língua presa liderando as maiores greves da história do nosso país, o movimento lindo das “diretas já!”, a dor da derrota da seleção mágica de 82, e finalmente o voto, primeiro para governador, logo depois para presidente, e parecia que “o país do futuro” sairia das trevas da ditadura, do obscurantismo, para uma pulsante democracia, que nos levaria a algo que não sabíamos bem “o quê”, mas que parecia alcançável, bonito, promissor, mesmo cientes das muitas lutas a serem travadas.

E em 2002, o “milagre”, Lula vence as eleições! No segundo mandato, vencidas (como pudemos ser tão ingênuos!!!?????) as hostes da direita radical, mídia, forças armadas, etc., um Lula respeitado e admirado EM E POR TODO O MUNDO, LITERALMENTE, coloca o Brasil em seu auge no quesito imagem exterior, admiração e respeito de todo o planeta. Quem viajava para fora do país era cercado por curiosos querendo saber da nossa transformação, do fim da fome, dos empregos bombando, uma onda de alegria e esperança varrendo o país… E faz tão pouco tempo…

Veio a raiz, a serpente-mãe de todos os nossos pesadelos, a famigerada Lava-Jato e a podridão da Globo, Veja, Folha, Estadão, etc., obscena podridão, manipulando nossa classe média, elevando Moro a herói, e na sua esteira Dallagnol e os procuradores de Curitiba.

Nas ruas, Chico Buarque é cercado por três filhinhos de milionários, a cara, o rosto de nossas elites, e é chamado de “merda”.  Alguns eventos são tão absurdamente inacreditáveis, parecendo ficção e não realidade, que se tornam exemplares e elucidativos de um tempo. Aquela cena grotesca com  Chico e os três medíocres toscos é um desses eventos. Como as agressões aos petistas em hospitais, a prisão de Mantega por ordem de Moro, sem poder se despedir da esposa moribunda no hospital, uma das coisas mais perversas já ordenadas por um juiz, os vários artistas como Gilberto Gil e outros perseguidos no exterior, tudo, inclusive o auge da barbárie e distopia, o bolsonarismo, tudo )fruto da árvore maligna chamada “o período da Lava-Jato”, com a triste e covarde cumplicidade do nosso Supremo Tribunal.

Toco nessas feridas, PORQUE NECESSÁRIO!, porque houve um tempo, décadas, em que éramos razoavelmente “normais”, chego a sentir saudade dos nosso folclóricos corruptos dos anos 70, 80, 90, não havia o grau de CINISMO DESPUDORADO que vemos hoje, não precisávamos de um “Xandão” para garantir nossa democracia, nossos artistas eram idolatrados e recebiam o carinho do povo nas ruas, as milícias não existiam, patetas perigosos como Bolsonaro eram desprezados até pela direita (de novo: como pudemos ser tão descuidados e ingênuos???). Comparados a hoje, eram FELIZES ANOS VELHOS! A esperança não era essa coisa meio desesperada que trazemos no peito, sem saber direito como lutar contra a FORÇA da imbecilidade reinante, a selvageria da nossa direita, esse Congresso torpe e vulgar em níveis inaceitáveis ao que é minimamente civilizado, nossa grande mídia enfiada no esgoto como sempre, tratando com parcimônia o governador sanguinário Tarcísio de Freitas, o candidato de nossas elites para a perpetuação da insanidade, da estupidez, da desumanização de vez do Brasil, a privatização de todas as nossas riquezas e o domínio das ideologias violentas e assassinas do nosso povo pobre. Não é que “não aprenderam a lição”, Globo, Veja, Folha e assemelhados são isso, fazem parte do horror, se puderem trocar Lula por Tarcísio em 2026 o farão com convicção empresarial e ideológica.

Considerem todos os parágrafos anteriores um preâmbulo, repito, NECESSÁRIO! Mas não era esse o objetivo central desse texto, e sim, desejar a todos nós, os lúcidos, os inconformados, os nostálgicos de um tempo em que éramos minimamente civilizados, não exibíamos essas fraturas sociais expostas e tão sofridas, enfim, desejar a todos nós um 2025 com CORAGEM, lembrando do final da frase antológica de Guimarães Rosa: “Porque o que a vida requer da gente é CORAGEM!

Um Feliz Ano Novo, especialmente a todos os que, por conta de nostalgias ou não, pouco importa, sintam-se inconformados com esse Hospício que nos tornamos, a torpeza, a violência assassina de parte de nossas polícias, a absolvição covarde e pusilânime do militares que assassinaram um músico no Rio num domingo ao meio-dia com mais de duzentos tiros, tantas coisas a nos REVOLTAREM, a nos preocuparem, a exigir de nós essa CORAGEM DE LUTAR!

Seja essa coragem o nosso lema no ano que hoje se inicia!

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. Jicxjo

    1 de janeiro de 2025 11:56 pm

    Valeu Eduardo, compartilho seus pensamentos. Força e coragem para mais este ano de luta!

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