A beleza da palavra solo num dia de comemorar o amor em par, por Mariana Nassif

A troca de presentes fica pequena tamanha a viagem que é encontrar esse tal de amor assim, antes em mim.

A beleza da palavra solo num dia de comemorar o amor em par

por Mariana Nassif

Casais.

Quase inevitável falar disso hoje, o dia 12 de Junho, dia dos namorados no Brasil. Andei pesquisando e a data vem de um hábito capitalista, a troca de presentes, segundo o site da EBC: “no Brasil, a data foi criada com o intuito de fazer com que as pessoas comprassem mais presentes. O dia escolhido foi o 12 de junho, véspera do dia dedicado ao Santo Antônio, o santo casamenteiro, segundo a crença popular.” Acabou o romantismo crônico, carente e, ufa, enfim, seguimos.

Num país de cunho extremamente machista, é enorme a popularidade do tal santo casamenteiro e, ao mesmo tempo, o culto aos pequenos prazeres chantagistas do catolicismo, que promete “trazer o amor” em troca da paga de promessas, dá o tom e afasta o amor daquilo que mais se aproxima de uma energia alegre, leve e gostosa, apesar de intensa. Desejo do fundo do coração que todos tenhamos essa oportunidade de ressignificar os amores, mas alerto: é preciso uma dose ou duas de coragem.

Coragem para modificar energias que causam incômodos individuais tão enormes que transbordam para o lado de lá, rompendo as bordas da individualidade. Coragem para mudar de opinião e experimentar aceitar profundamente a vasta diversidade de energias que existem e celebrar o encontro. Coragem para perceber que talvez algumas histórias não tenham sido de tanto amor assim. Coragem para assimilar que pode ser que o amor que você deseje do outro seja, na realidade, um pedido de amor-próprio. E é aí que a graça da transformação começa: é provável que você só se dê conta disso quando estiver perante um amor daqueles bem fortes que revira seu mundo todo de pernas pro ar, mesmo que tudo pareça estar exatamente no lugar. Inebriante e lisérgico, chega a ser difícil de acreditar que determinados encontros realmente aconteçam, intensa sutileza entre o estar e o ser e, então, você se pega namorando.

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Somos feitos de energia e, acho eu, ela é recarregável – ao longo do dia consumimos tanto e fazemos a reposição nos alimentando: de sono, de comida, de sol, de encontros. De amor, que deve ser algo entre paz interior e prazer nas trocas.

E as trocas, sabemos, especialmente para as mulheres, quase sempre são injustas, ainda mais numa relação que se diz amorosa. Estejamos atentos para o tipo e ainda mais para a qualidade das relações que cultivamos e que, estas, por cuidado e afeto, sejam cultivos de partilha. Partilha, essa coisa tão linda que pressupõe uma certa paz e equilíbrio, além de ajustes e reajustes em prol da qualificação da troca. Ô, delícia que é experimentar um passeio desses: me sentir solo fértil e também fertilizante de outras terras.

Namorando – dá pra brincar com a palavra e dizer que ando-namorando-de-amor ando. Ando num solo novo. Olha que beleza a palavra solo: além de solitude, estado de plenitude ainda que solitário, é também a terra, elemento deliciosamente natural, que faz morada de tudo aquilo que a gente precisa pra viver. Solo: que eu seja. Mesmo que aos trancos e barrancos, que ainda haja terras. Para sementes, amores, flores e espadas, regada pelas águas salgadas, todas elas, e pelas doces também. Que me alimenta quando meu solo recebe presentes poderosos como os que andam aparecendo por aqui e acolá, axé.

A troca de presentes fica pequena tamanha a viagem que é encontrar esse tal de amor assim, antes em mim. Em paz, bem acompanhada, celebro diferente, indicando o podcast que mais me encanta neste momento: o podcast das emoções, da Nathália e da Isabela. Chega lá e se dá um presente de alegria neste dia!