5 de junho de 2026

Mimeógrafo escondido no quarto sob a ditadura, por Urariano Mota

Tanto que precisávamos daquele mimeógrafo, como se fosse pistola, fuzil e metralhadoras, que não tínhamos, mas saberíamos usar.

Durante a ditadura, um mimeógrafo foi escondido sob a cama do autor para evitar a repressão.
O objeto era essencial para a produção de panfletos contra a ditadura e o capitalismo, apesar do risco.
O autor reflete sobre a ironia de ler Proust enquanto lutava clandestinamente contra a repressão.

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Mimeógrafo escondido no quarto sob a ditadura

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por Urariano Mota

“E fomos por ruas e becos, subidas, descidas e voltas para despistar possíveis perseguidores, até me deixarem na João de Barros com uma sacola, onde jazia o mimeógrafo dentro de um saco de papel. Não sei se pesava mais ao braço ou ao coração. Por que perto do quartel de bombeiros, sério, apreensivo, pus a mão no peito e subi as escadas. Lá, guardei-o no próprio saco de papelão, no único lugar que não dava na vista: debaixo da minha cama. Um espelho comprido, no entanto, que devia ter sido de um guarda-roupa, ia até o chão e refletia a minha rara prenda.

Ponho a mão sobre a testa para me dizer hoje, ‘quanta precariedade’. Tudo era frágil e grandioso, como se fossem carnívoros que se comessem mutuamente. Com tão pobres armas íamos derrubar a Ditadura e o Capitalismo, nessa ordem. Ao mesmo tempo, a derrota do capitalismo incentivava os pobres como nós, que não tínhamos um lugar na sua manutenção. Éramos os escolhidos por desejo e opção. Mas o diabo era isto: um caro mimeógrafo debaixo da cama a se refletir no espelho do quarto.

O maravilhoso objeto caía na cabeça, quero dizer, sob, onde eu me deitava. Mas o essencial é isto: eu não enxergava o espelho. Apenas sentia o peso de guardar o mimeógrafo. É nessa altura que Luiz do Carmo chega, caçado, para dormir ao lado da preciosa máquina. Em resumo, formava-se um aparelho terrorista para a repressão, se nos pegasse. Como escapamos naquele hibridismo do clandestino e legal?

Então me refugiei no ‘Em busca do Tempo perdido’. Quanta ironia do instante, percebo agora. Ler Proust naquelas horas tinha a mesma sublimação da queda pelas armas da ditadura. Vejo-me com o livro de capa vermelha, furtado da biblioteca da EMETUR, ‘No caminho de Swan’. Como aquilo tinha a ver com o terror dos assassinatos, com a urgência do age ou desaparece? O que o levante das massas contra a ditadura tinha a ver com o mimeógrafo debaixo da cama? Mas eu precisava tanto ler Proust, para saber mais do que o dedo apontava, para comer Madeleine, enquanto comia sardinha enlatada com aguardente. No bar tocava Waldick Soriano, ‘tudo o que eu precisava’, eu dizia irônico batendo com a mão na mesa. Mas precisávamos tanto dos nossos panfletos, que organizavam nossos desejos, enquanto os torturadores nos quebravam os ossos. Tanto que precisávamos daquele mimeógrafo, como se fosse pistola, fuzil e metralhadoras, que não tínhamos, mas saberíamos usar, tanto que precisávamos. E vinha um imenso paradoxo. Nós éramos os terroristas cujas bombas vinham a ser Marcel Proust e Gabroel García Márquez. Nada que nos impedisse de envergar a farda do exército revolucionário, se a história fosse outra, se o país fosse outro, se a ditadura fosse de outra natureza e patente. Ou se o lugar fosse outro, quem sabe, o Vietnã em 1970”.

(Do romance “A mais longa duração da juventude”)

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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