Miró da Muribeca, da poesia marginal do Recife, por Urariano Mota

Então este é  o momento, para que todos saibam o valor humano e literário do poeta que se encontra hospitalizado à espera de doações.

Miró da Muribeca, da poesia marginal do Recife

por Urariano Mota

Acabo de ler um apelo que pede contribuições para Miró da Muribeca, que se encontra hospitalizado:

“Seguimos no cuidado de Miró da Muribeca. Todo apoio é bem-vindo para garantir a rede de suporte de cuidadores. Também aceitamos doações de luvas e máscaras. #VivaMiró

para doação direta:
JOAO FLÁVIO CORDEIRO DA SILVA
CAIXA
AG 0050
CC 37563-3
CPF 341.126.264-87 (também é a chave de pix)”

Então este é  o momento, para que todos saibam o valor humano e literário do poeta que se encontra hospitalizado à espera de doações. Quem é Miró da Muribeca? Ele é um dos homenageados em nosso Dicionário Amoroso do Recife, do qual copio os trechos a seguir.

“Em um mundo globalizado conforme a ótica WASP, Miró é um acúmulo de surpresas. Pois imaginem as senhoras ladies e os senhores gentlemen que ele é um poeta que jamais entrou na universidade. Pelo menos, para assistir a lições como estudante universitário, nunca. E, continuem a imaginar, isso não lhe faz nenhuma falta, devíamos mesmo dizer, para a sua poesia é um bem, porque lê e se educa em obediência a uma ordem que não está no currículo de um currículo estéril. A quem não o conhece, a sua pessoa física reserva uma grata e grada graça: Miró tem a pele escura, e, ladies and gentlemen, não finjam, por favor, naturalidade. Mesmo em um povo mestiço, Miró é uma exceção: as pessoas sensíveis, até mesmo no Brasil, têm uma estranha gradação na cor da pele da sensibilidade. Quanto mais claros, mais poetas. Quanto mais escuros, mais trabalhadores braçais, ou, se forem artistas, mais jogadores de futebol. Daí que faz sentido o nome artístico do poeta Miró vir de Mirobaldo, o craque do Santa Cruz Futebol Clube. Mas a melhor surpresa de Miró vem da sua poesia. Acompanhem-nos, por favor, assim como o acompanhamos em um auditório.

Onde Ascenso Ferreira realizava ao recitar um uso extraordinário da voz, da modulação ao acento, do corte da sílaba à ênfase, como dizê-lo? Uma utilização da voz como um ator de rádio, Miró usa a imagem, física, melhor dizendo, ele usa o próprio corpo, ele faz evoluções pelo auditório, como um cantor de rap, quase diríamos. Mas sem microfone. E não só. Ele acrescenta caretas, esbugalha os olhos, fecha-os, e aponta os seus versos com um dedo contra a assistência. Como um Tio Sam invertido, que em vez de conclamar um alistamento, nos enfiasse a realidade cara a dentro.

A plateia, divertida, sorri, gargalha, diante de versos que não chegam a ser bem cômicos. Como aqui:

‘Tinha lido num livro de autoajuda, de um

desses psicólogos

De araque, que aparecem nesses

                             programas matinais que dão

                             Receitas pra tudo, inclusive de bolo,

                             Que na hora que a vida vira uma merda

                             O melhor é sair da fossa’.

Ou nestes versos:

‘Acho que foi a primeira vez que conheci a dorUm domingo de 1971

Naquele tempo o domingo era o dia mais feliz,

Minha mãe fazia um macarrão com carne de

lata e Q-suco

Ficávamos brincando de mostrar a língua vermelha

Pra provar que éramos felizes…

Norma era tão linda com seus cabelos negros,

Que me deu um branco aos 11 anos

Quando me pediu um biscoito maizena e um

gole de fratele vita …

Domingo era o dia mais feliz

Antes de Norma beijar um outro na boca.’

A plateia, o distinto público, vai ao delírio. De rir, de gargalhar. Miró fala de um mundo abaixo do nível do auditório. O primeiro elemento cômico é que a miséria é cômica. A maior comicidade é a desgraça que não sentimos na própria pele. A dor que não é a nossa, a dor pela qual não temos empatia, ah, ladies and gentlemen, como é cômica. Não iremos consultar nada agora, mas em algum lugar deve estar observado que o riso é manifestação pela desgraça alheia. O riso atesta a nossa superioridade ante o ridículo que não nos alcança. Quem jamais bebeu ‘sucos’ em pacotinhos de pó, de ‘morango’, de ‘uva’, com bastante açúcar e gelo, como bebem os que não podem comprar frutas em um país tropical, acha isso irresistivelmente cômico. Quem jamais saboreou carne enlatada no país de maior rebanho bovino do mundo, quem jamais pôde sentir o sabor, o gosto e a maravilha da carne Swift, da carne da Wilson, com macarrão rubro de colorau aos domingos, que piada genial é esse macarrão se transformar no dia da felicidade. E aquela prova de amor, da cumplicidade que tem o amor, quando a musa pede refrigerante, guaraná da frattelli vita, com o biscoito miserável de maisena. Que cara! E Norma beija um outro, mirem o detalhe, na boca! na boca! Menos, por favor, você é demais, cara!

O poeta gira em torno da assistência. A sua arma, a sua graça e cômico é a verdade. Aquelas coisas mínimas, constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo louco, arrebenta de si. Mais do que escrever por vezes transcreve. Com uma sensibilidade que observa o inobservável.

‘Já perceberam como tem pontas de

cigarro em pontos de ônibus?

                            Tem uma tese de um amigo que diz:

                            Que as empresas de ônibus são

responsáveis por 5% dos cânceres de pulmão.

                            Curioso perguntei, como assim?

É que os ônibus demoram’.

A recepção da plateia a essas coisas é vê-las apenas como o lado sujo, trash, de uma estética suja e trash, de um maluco que escreve e não tem nenhuma vergonha de escrever sobre essa miséria como um bárbaro sem educação. (Nós, os cultos. Nós, os que, se algum dia fomos dessa desgraça, bem que a superamos. Nós, os de outro mundo. Nós, os pretensos limpos, clean, e educados.)  O poeta gira, e deixa a aparência, como um bom gira, de fazer também uma rotação. Então ele declama, recita, pula, contorce-se, cospe e pragueja uns versos que a expectativa do distinto e cultíssimo público não percebe. O clima em torno da sua performance não permite a degustação, a permanência que tem a beleza, a que sempre por necessidade voltamos. Então ele fala, enquanto o público espera dar mais uma risada, então ele faz uma prece, um poema que somente hoje pela manhã pudemos sentir, ao ler e mastigar, e ruminar como as cabras mastigam e ruminam uma erva muito amarga. Este poema não precisa do poeta, da sua pessoa. Basta uma sensibilidade.

‘Deus, Tu que agora carregas um homem,

Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns

                            sacos de cimento

De cada lado um sol insuportável …

                            Deus,

                            Choves agora no meu coração

                            Para que eu não pense em comprar um

                            guarda-chuvas de balas

                            E fazer justiça com as próprias mãos.’

Nos mais recentes dias doente, internado em uma clínica, ele falou ao poeta Valmir Jordão estes versos de improviso: 

“Para mim, Deus lavou as mãos

  Eu só não sei com que sabão”

Este é o gênio de  Miró da Muribeca.

Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/miro-da-muribeca/

Urariano Mota – Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

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1 Comentário

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Calucha

- 2022-05-20 23:35:34

Miro Poeta Lúcido Das Belezas da periferia retorcidas em versos inversos de universos negados aos negros de Belezas expressiva em cada dia vivo , esperado

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