Nota sobre a tentativa de censura das minhas Memórias Póstumas, por Sr Semana (psicografando o defunto autor)

Fiquei menos surpreso com a tentativa de censura (principalmente após a performance do ex-secretário nacional de cultura imitando Goebbels) do que com algumas reações.

Nota sobre a tentativa de censura das minhas Memórias Póstumas 

por Sr Semana (psicografando o defunto autor)

Na primeira semana de fevereiro o governo de Rondônia tentou censurar as minhas memórias juntamente com vários outros livros de autores como Euclides da Cunha, Mário de Andrade e Nelson Rodrigues. Falarei aqui das minhas memórias, cabendo aos demais responderem por seus livros, caso queiram, como eu, “expedir [alguma nota] para esse mundo” e assim “[distraírem-se] um pouco da eternidade” (cap. 71). 

Fiquei menos surpreso com a tentativa de censura (principalmente após a performance do ex-secretário nacional de cultura imitando Goebbels) do que com algumas reações. Desgostou-me ouvir comentários do tipo: “são tão idiotas e loucos estes capitães e coronéis fundamentalistas cristãos que assumiram o poder que até romances”—só faltou acrescentar “inocentes”—“como as Memórias Póstumas de Brás Cubas quiseram censurar”. Não leitor. Ao contrário. Os censores mostram-se leitores perspicazes do meu livro pois trata-se de um dos maiores ataques na literatura mundial às partes supersticiosas do cristianismo, justamente as que eles querem preservar de críticas (o leitor vai me perdoar a falta de modéstia exigida pela gravidade da ocorrência). Lembre que corrigi Pascal no capítulo 27. Pascal foi um grande gênio matemático e fino analista da alma humana, mas acreditava em bobagens da religião, como era comum em sua época, e que agora querem impor de novo a você que está vivo. Pascal pensava que o homem era um caniço pensante que, exaurido o caniço, iria para o céu ou—muito mais provavelmente—para o inferno. Eu demonstrei com as memórias da minha vida e da minha morte que o ser humano é uma errata pensante cuja última edição é dada aos vermes. O que resta é pura ficção: como o romance mesmo e este eu que emite esta nota. Meu ataque à escatologia cristã (não confundir com o sentido de escatologia em moda instituída pelo presidente e seu filósofo), e a outras superstições atualmente em voga como o design inteligente, dão ao meu livro uma contundência comparável à do Manifesto Comunista. A inclusão do meu livro na lista das obras censuradas mostra que estão mirando na cabecinha também na área cultural.

Despeço-me agradecendo ao Sr Semana por ceder-me seu espaço no Jornal GGN e dizendo que, tivesse eu falecido por agora no Brasil, o balanço dos prós e contras que faço da minha vida no último capítulo do livro me seria ainda mais favorável. Este último capítulo, o leitor recordará, era todo de negativas. Dizia então—cito o capítulo 190 com algumas atualizações: “não alcancei a celebridade do emplasto”, ao contrário da pílula do câncer, aprovada pelo Congresso nacional no único projeto de lei transformado em norma jurídica de autoria do atual presidente durante os 27 anos em que foi deputado. Dizia também que “não fui ministro”, ao contrário do Moro. “Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais: não padeci a semidemência [do Olavo de Carvalho nem as mortes violentas da Marielle Franco e do miliciano suspeito de envolvimento na morte da vereadora do meu hoje tão sofrido Rio de Janeiro]. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. 

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