O anjo e o demônio, por Petronio Portela Filho
Despertei uma hora mais cedo, preparado para sofrer. Era um dos dias mais frios do ano. Não pude comer nem tomar café porque estava proibido.
Fui de carro até o laboratório Sabin. Chegando lá, uma surpresa amarga. O estacionamento estava lotado. Tive que estacionar na quadra residencial, dois quarteirões distante.
A coleta de sangue foi dolorosa. Fui furado duas vezes. O enfermeiro encheu uns dez tubinhos de sangue. Estando descafeinado, sonolento e com frio, sofri uma quase hemorragia.
Caminhei até o carro. Quando cheguei lá não acreditei no que vi. Tinha um flanelinha “quardando” os carros.
— Ninguém merece isso. Ainda nem são oito horas. Faz um frio do capeta. Como é possível que um parasita já esteja lá, tentando me arrancar dinheiro?
O flanelinha estava meio que fantasiado de guarda de trânsito. Ele é baixo, quase branco e tímido. Ele não ficou rondando meu carro. Seria o cúmulo da cara de pau. Quase descarreguei minha ira nele.
— Meu carro tem seguro e alarme. Não preciso de um vagabundo tomando conta dele. Por que você não volta para o seu barraco lá em Samambaia?
Quando sentei no banco do carro, o diabinho que falava no meu ouvido direito foi interrompido pelo anjinho do ouvido esquerdo.
— Como você ousa xingar o trabalhador humilde de vagabundo? Lembra do artigo sobre o desemprego que você próprio escreveu? Os flanelinhas são classificados como trabalhadores pelo IBGE no PNAD contínuo. E você ainda tem o descaramento de se dizer de esquerda?
— Mas é claro que eu sou de esquerda.
— Se fosse de esquerda teria feito o vestibular para sociologia, não para economia.
— Mas eu fiz o doutorado na Unicamp.
— Sim. E terminou o curso fascinado por Keynes, não por Marx. Só leu os cinco volumes de O Capital porque seus colegas de curso o fizeram — e você era vaidoso demais para ficar atrás.
— OK. Você venceu,
Abri a carteira e tirei uma cédula. Fiquei acenando o dinheiro com o braço fora do carro. Mas o flanelinha tinha sumido.
— Ele sumiu porque você fez uma careta quando o viu. Você é naturalmente antipático. Não consegue sorrir nem para foto. Espantou o flanelinha. E pensou coisas horríveis sobre ele.
— Não fui eu. Foi o diabinho.
— Ele faz parte de você. Como eu. Assuma a autoria dos seus pensamentos.
Buzinei rapidamente. Não queria acordar as pessoas. Estava em área residencial. Logo o flanelinha apareceu, pegou o dinheiro e agradeceu.
Liguei o carro e me dirigi para casa. Infelizmente o anjinho ainda não tinha terminado.
— Vou torcer para que você tome café no dia da eleição. Se for votar descafeinado, vai cravar Flávio Bolsonaro.
— Agora você foi longe demais! Como ousa? Eu nunca votaria num Bolsonaro. Aliás, você está imitando minha mulher, notou isso? Cristina me interrompe em hora imprópria para iniciar discussão trivial. Eu concordo de imediato para ter sossego. Mas ela não se cala, continua falando.,
— Não mude de assunto. Você acha que alguém esqueceu que você votou em Donald Trump em 2024?
— Como poderia eu votar nele se sou brasileiro e moro no Brasil? Eu apenas torci pelo Trump. Estava assustado com o militarismo insano os democratas. E tinha tinha ódio a Joe Biden. Com aquela cara bondosa, Biden iniciou três genocídios e estava tentando iniciar guerra contra a Russia. Eu votaria em qualquer um, inclusive em um ladrão, para impedir a reeleição democrata.
— Chegamos onde eu queria. Você votou em Trump por ódio a Biden. Votou com o fígado em um extremista de direita porque queria mudanças. Você fez exatamente como os isentões brasileiros que votaram nos Bolsonaros. Seu “voto de protesto” foi um respaldo ao Massacre de Minab, no Irã. Trump disparou em sequência três mísseis inteligentes Tomahawk, os três com filmadora acoplada, numa escola de crianças. Matou 168 pessoas.
— Touché. Agora pode por misericórdia calar a boca?
Quando finalmente cheguei em casa tomei uma xícara dupla de café. Da próxima vez que for tirar sangue, vou levar garrafa térmica cheia de café. Eles têm café lá no Sabin, mas é intragável.
E em nenhuma hipótese posso votar em jejum, sem tomar café.
Petronio Portella Filho é consultor concursado do Senado Federal. Ele se formou em Economia na UnB, fez mestrado na University of Minnesota e doutorado na Unicam. Ele é autor de três livros.
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