O canto devoto de Dona Rita – A matriarca do Quilombo Custaneira no Piauí, por Eduardo Pontin

Cantadeira do sertão do Piauí é detentora de segredos de folguedos, ritos e brincadeiras como Dança de São Gonçalo, Reisado e Lezeira

Série PIAUÍ CULTURA REGIONAL (II)

O canto devoto de Dona Rita – A matriarca do Quilombo Custaneira no Piauí

Por Eduardo Pontin

Fotos: Francisca Sousa

Dona Rita é matriarca da Comunidade Quilombola Custaneira/Tronco, do município de Paquetá, sertão do Piauí, a pouco mais de 300 km da capital do estado, Teresina. Mesmo não alfabetizada, Dona Rita é detentora dos segredos de seu povo em brincadeiras como a Lezeira, rituais como a Dança de São Gonçalo, além de folguedos, como o Reisado. Prestes a completar 80 anos, Dona Rita (Rita Maria da Conceição, 8/10/1942) aprendeu tudo o que sabe da forma mais sábia possível: a oralidade passada do mais velho para o mais novo. E hoje é Dona Rita quem ensina seus filhos, netos e todas as pessoas da comunidade, que formam uma grande família.

Logo ao chegar à frente da casa de Dona Rita no Quilombo Custaneira, você se depara com um enorme mandacaru, plantado por ela mesma. No alpendre da casa, é possível encontrar Dona Rita com cachimbo na boca tragando o fumo que ela mesma plantou, na roça que ladeia a sua casa. A sonoridade do ambiente é composta por bodejadas de cabras, cocoricar de galos e o grunhido de porcos. O olhar distante de Dona Rita mira o horizonte a perder de vista na paisagem da natureza do sertão do Piauí.

Todos na região conhecem Dona Rita, afinal, ela já andou por quase todos os povoados que a rodeiam ajudando a pagar promessas para São Gonçalo e tirando Reisado. Noite de São Gonçalo é dia de fartura, muitas vezes o dono da promessa mata um porco só pra servir as dançadeiras e os caqueiros que estão ali num ato de devoção, lhe ajudando a pagar a sua promessa, sem nada cobrar.

Dona Rita com todos fala e com todos se comunica, muito popular, por onde chega semeia amizade. Mas quando na Dança de São Gonçalo os caqueiros ferem as primeiras pancadas no caco, os pandeiros troam e a sanfona fala, a simpática Dona Rita do dia a dia dá lugar a uma senhora concentrada em seu ser, com sobrancelhas rebaixadas e olhar vibrante.

Todos sabem, é chegada a hora do início do pagamento da promessa e não há mais espaço para brincadeiras, o sagrado habita os presentes e Dona Rita é quem mantém a todos na energização da fé. Dona Rita se entrega por inteiro, naquele momento ela está ali se doando, com todas as suas forças e toda a sua fé.

Seu canto é devoto, bravo, firme, fiel, convicto, é como estar diante da verdade em forma sonora. Não há como presenciar Dona Rita pagar uma promessa de São Gonçalo e ficar imune, aquele momento é impactante, magnetiza a todos.

A voz de Dona Rita quando canta numa promessa de São Gonçalo é uma verdadeira potência da natureza e, num lugar calmo como o sertão do Piauí, pode ser escutada a mais de uma légua de distância, segundo relato na comunidade.

Aliás, Dona Rita não canta na promessa de São Gonçalo, reza, literalmente. Rezar significa cantar nesse ritual sagrado do catolicismo popular que já chegou a ser praticado em várias regiões do Brasil, mas que hoje sobrevive em poucos lugares. O Piauí é um verdadeiro reduto da Dança de São Gonçalo, que é uma das manifestações mais fortes ainda hoje no estado.

Todo o saber de Dona Rita e toda a devoção de seu canto podem ser vistos no documentário “São Gonçalo: Promessa se Paga Dançando”, feito por mim e por Francisca Sousa de forma totalmente independente, sem nenhum tipo de recurso público ou privado.

Já a tradição do Reisado, Dona Rita herdou de seu pai, Seu Pedro de Sinhara, maior Mestre de Reis de sua região. Mocinha, Rita acompanhava o seu pai e com o tempo foi se tornando Mestra de ofício.

Dona Rita de Custaneira é hoje mantenedora de uma rara forma de Reisado: o que é feito em decorrência de uma promessa. Acometida por uma doença há mais de 30 anos atrás, fez uma promessa de realizar o Reisado todos os anos caso ficasse boa de saúde.

Desde então Dona Rita cumpre a sua promessa ininterruptamente de tirar o Reisado entre os dias 13 de dezembro e 6 de janeiro e os malefícios da doença nunca mais se manifestaram.

Dona Rita relata que as pessoas que comparecem ao seu Reis, choram de emoção, e ela também chora, pois naquele momento imagina se para o ano estará com saúde para poder pagar novamente a sua promessa. E o escriba dessas linhas, a mais de 2.300 km de distância, derruba lágrimas somente em lembrar os momentos raros vividos na companhia de Dona Rita, quando o seu cantar arrebatava a todos e sua simples presença era motivo de alegria.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]r.

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Maria Carvalho

- 2022-07-20 00:03:50

Parabéns por resgatar uma cultura "escondida" das academias! É a cultura popular! Das comemorações locais, que pode desaparecer. Vale muito o seu registro, assim não se perderá.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador