26 de junho de 2026

O nosso Balzac do Recife, por Urariano Mota

Importa escrever sobre quem conheço mais de perto. Eu me refiro ao grande  Antonio Luis da Silva Filho, que todos chamavam de “O Gordo”

O nosso Balzac do Recife *

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por Urariano Mota

Domingo que vem, a civilização em todo o mundo lembra Honoré de Balzac, falecido em 18 de agosto de 1850. Para o gênio de Balzac, pretendo me atrever a escrever algumas linhas nos próximos dias.   

Importa agora escrever sobre quem conheço mais de perto, de viva experiência. Eu me refiro ao grande  Antonio Luis da Silva Filho, que todos amigos chamavam  no Recife de “O Gordo”. Com estatura em torno de 1,70m, ele pesava muito acima de 100 quilos, mas parecia nem se importar com o próprio  vulto e peso. O título destas linhas faz referência não só à sua aparência física, mas também à presença de gênio de espírito que deixou algumas vítimas, entre as quais me inscrevo sem mágoa, e com admiração.

Havia outra coincidência entre O Gordo e Balzac. Tarcizo de Lira, intelectual que foi seu amigo mais próximo, me informou que O Gordo nasceu em 20 de Maio de 1949, dia e mês iguais aos de Balzac. E que faleceu  em 1989, antes de completar 40 anos. O Gordo viveu pouco e de modo intenso. Trágico e amoroso, gênio e mulato que conhecia frevo e cultura popular como  ninguém vi até hoje.

O Gordo era um homem de esquerda, socialista de amor extremado pelo povo do Recife, amigo de todos os deserdados e humilhados. Funcionário do Banco do Nordeste, numa terra de miséria e subemprego, nunca fez da sua posição uma diferença contra os amigos de infância, de lá do mangue na Rua da Lama, em Afogados, onde se criou.  Neto do Velho Barroso, do pastoril, era filho de Dona Dagmar, a quem adorava acima de todas as coisas no céu e na terra. 

Observo a injustiça que pessoas fundamentais, dotadas de gênio e cultura e ações, sejam esquecidas, e não fica sobre elas uma só linha, nem memo no túmulo, que é destruído ao fim como todos anônimos. Trata-se de uma crueldade feroz e bárbara! O apagamento de tais humanidades nem de longe imagina o valor das pessoas que joga ao lixo e ao vento. Um homem como Antonio Luis da Silva Filho, além da cultura histórica e literária (na época, era o único de nós que havia lido todo o Dom Quixote),  era dotado de um humor, de um gênio fino, que sorria de todo esquerdismo e sectarismo. Lembro que uma jovem de classe média, estudante de História, ficou encantada ao saber que  o Gordo morava na favela e exclamou:

– Que coisa linda, Gordo! Eu queria morar na favela!   

Ao que o Gordo, sem falar na miséria da vizinhança, apenas  respondeu:

– Já eu, estou procurando sair.

Uma pessoa tão genial, eu procurei narrar no meu romance “A mais longa duração da juventude”, que recupera a formação dos jovens sob a ditadura no Recife. A seguir, algumas páginas que fal do Gordo.

“Chegávamos na vasa do Gordo aos domingos. Ali, aprendíamos, sentados no chão de cimento, que o melhor da espera do almoço era a espera. Isto porque enquanto não vinha a grande hora ouvíamos frevos de Capiba, de Nelson Ferreira, de Edgard Moraes, de João Santiago, e bebíamos cachaça, e cerveja, e cachaça, que explodia, para os desatentos, nesta alegria:

‘Eu quero entrar na folia, meu bem
Você sabe lá o que é isso?
Batutas de São José, isto é
Parece que tem feitiço
Batutas tem atrações que
Ninguém pode resistir
Um frevo desses que faz
Demais a gente se distinguir.

Deixe o frevo rolar
Eu só quero saber se você vai brincar
Ah, meu bem, sem você não há carnaval
Vamos cair no passo e a vida gozar’

Por isso o Gordo nos convidava. Existe coisa melhor que uma solidão compartilhada, uma “solidão socializada”, como poderíamos então dizer? Mas naquela hora não dizíamos isso, nem isso queríamos ou mesmo conseguiríamos ver. Ele nos chamava para algo mais solar, dominical, feliz.

– Domingo, lá em casa, bobó de camarão. Feito por mim!

Ficávamos a olhar a promessa maravilhados. De que não era capaz o nosso Balzac? Bobó de camarão é um prato baiano, e o Gordo, um genuíno pernambucano, ia nos dar mais uma prova da sua versatilidade. Bobó de camarão, feito por esse leitor de Kazantzakis, por esse extraordinário conhecedor de frevos, por essa autoridade na arte de rir do próprio sofrer! Por isso, como se fosse por isso, chegávamos e chegamos. Na sala, tocava Luiz de França. Aguardente no terraço, para todos. Menos para o Gordo, que se demorava a vir.

– Cadê o Gordo?

Está na cozinha, a sua mãe nos responde. Então Luiz do Carmo se levanta, para ver com os próprios olhos a oitava maravilha dos nossos domingos, o Gordo em ação. E vê, e vê diante de um imenso caldeirão, o nosso amigo com uma colher de pau em uma das mãos e na outra um livro de receitas. Que decepção: tudo no Gordo era conhecimento maduro, solidificado. Isto não batia: com um livro a copiar a receita do prato, logo ele, o Gordo, que era a anticópia por natureza. E por isso, Luiz do Carmo lhe faz a censura:

-Cozinhando com um livro, Gordo?

– Sim… Mas o autor é marxista”.

Em outra oportunidade, eu fui a merecida vítima do gênio do Gordo.

“Na Portuguesa com os amigos na mesa, uma noite, depois de ouvir o Gordo contar que muitas vezes, ao fim do expediente na Portuguesa, se encontrava com os garçons em outro bar, no Gambrinus, lá na zona do Recife Antigo. Eu não me contive. Aquilo era demais, não era prática de vida de quem se associa à dor dos explorados. Que anarquia. E o Gordo, na maior serenidade, sorria:

– Lá me chamam de rei dos garçons. O lugar principal na mesa é meu. Olhe, eu não sou só o rei. Sou o sábio também. Os garçons do fim da noite me ouvem como se eu fosse a reunião de Sócrates, Platão e Dostoiévski.

– Que é isso, Gordo? – eu lhe perguntei com a maior censura. – Isso tem um preço alto. Você paga a conta na mesa. Com esse modo de vida, como você retornará à leitura dos clássicos? Como é que vai poder estudar, produzir?

E o Gordo em silêncio, com os seus olhos escuros, negros, brilhando. Mas em silêncio. Eu pensava que ele estava convencido dos próprios erros. Afinal, ele compreendia que tinha de mudar de vida. E por isso continuei:

– É absurdo que um socialista se estrague dessa maneira, Gordo. Olhe os exemplos de disciplina de Gregório Bezerra, Prestes, João Amazonas…. Eles jamais iriam cair nessa de Rei dos Garçons.

Então o Gordo falou uma daquelas frases fundamentais, improvisadas e imprevisíveis, que desarmavam as melhores pregações revolucionárias. Virou para mim o seu corpanzil, abriu os fortes braços e me falou:

– Pra você eu digo a mesma coisa que a voz falou para Saulo no caminho de Damasco: ‘Saulo, por que me persegues?’.

A mesa explodiu às gargalhadas”.

Eu só compreendi o Gordo quando escrevi o romance “A mais longa duração da juventude”. Até antes, ele era uma admiração dos meus dias. Mas a partir do romance, descobri-o como amigo, irmão, camarada e gênio, com quem   tive a sorte viver no Recife. Hoje, posso responder a ele, muito tempo depois: “Gordo, eu te persigo porque a tua memória não me deixa”.

*Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/o-nosso-balzac-do-recife/

Urariano Mota é escritor e jornalista. Autor do “Dicionário Amoroso do Recife”, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude” (traduzido para o inglês como “Never-Ending Youth”). Colunista do Vermelho e do Brasil 247. Colaborador do Jornal GGN.

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Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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