Guardiões pagos: assim Trump destrói a liberdade de navegação em Ormuz. E dá um trunfo ao Irã
por Federico Fubini
Tradução: Luciano Fazio
Uma extorsão se caracteriza quando alguém cria um problema de segurança para outra pessoa e depois cobra da própria vítima para “protegê-la”. Inadvertidamente, e ao menos em suas declarações, Donald Trump pode ter ultrapassado também esse limite ontem.
Não havia problemas de segurança no Estreito de Ormuz antes que os Estados Unidos atacassem o Irã, sem compreender que o regime de Teerã reagiria bloqueando a passagem. Desde então, passaram-se mais de cinco meses, e o governo Trump mostrou-se incapaz de reduzir o controle exercido por Teerã sobre esse braço de mar estratégico para o petróleo. O Pentágono dispõe dos meios para fazê-lo, evidentemente, mas somente por meio de uma operação naval e terrestre tão arriscada, em termos de vidas de soldados americanos, que a Casa Branca não se atreve a realizá-la.
Como consequência, o Irã percebe que pode usar o controle do Estreito de Ormuz — e a eventual cobrança de pedágios pela passagem — como instrumento para impor sua predominância na região. Além disso, o próprio governo americano aceitou uma fórmula ambígua no memorando de entendimento firmado com Teerã em junho, que não exclui essa possibilidade.
O erro foi, em primeiro lugar, de JD Vance, o vice-presidente que negociou com os iranianos. Esse episódio provavelmente permanecerá marcado em sua trajetória política como uma medalha radioativa. Se Vance tentar fazer o assunto cair no esquecimento, talvez seja o próprio Trump quem volte a lembrá-lo. A alternativa, para o presidente, é ainda pior: admitir que foi ele quem conduziu os Estados Unidos a esse beco sem saída, enquanto a ampulheta corre em direção às eleições legislativas de meio de mandato (midterm), o preço da gasolina continua cerca de 60% acima do registrado em meados de fevereiro e aproximadamente metade dos estoques de mísseis de precisão já foi consumida.
Encurralado, como costuma fazer, Donald Trump agora dobra a aposta. Proclama os Estados Unidos como o “guardião” do Estreito de Ormuz e, para não parecer inferior ao adversário que o humilha, anuncia também um pedágio equivalente a 20% do valor da carga transportada por cada navio que atravessar o estreito, em troca de proteção. Em tese, seriam pagamentos por um serviço de segurança garantido por um dispositivo militar que custa ao orçamento americano cerca de um bilhão de dólares por dia.
Mas essa nova aposta, como frequentemente acontece com Trump, apenas o afunda ainda mais em um pântano de contradições.
Não apenas porque a ideia de cobrar uma tarifa em troca de “proteção” — supondo que Trump seja realmente capaz de oferecê-la, depois de meses de fracasso — rompe com oitenta anos da política externa americana. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos mantiveram centenas de bases militares ao redor do mundo justamente para assegurar os acordos internacionais que garantem o livre comércio e a liberdade de navegação, desempenhando um papel semelhante ao exercido pela Grã-Bretanha no auge de seu império, no século XIX.
Foi o próprio secretário de Estado, Marco Rubio, quem recordou que “nenhum país tem o direito de cobrar pedágios ou taxas sobre uma rota internacional”, porque “é isso que determina o próprio direito internacional”. Vinte dias depois, seu presidente anuncia exatamente o contrário.
Há, porém, uma contradição ainda mais carregada de consequências, prontamente percebida por Abbas Araghchi. Em uma publicação feita na plataforma X, o ministro das Relações Exteriores do Irã ironizou Trump:
“O presidente dos Estados Unidos está absolutamente certo. Quem quer que garanta uma passagem segura para navios comerciais através de Ormuz deve ser remunerado por esse serviço. O Irã sempre foi o guardião do estreito e continuará sendo para sempre. Os 20% (exigidos por Trump) são, obviamente, um valor excessivo. Nós seremos razoáveis.”
É claro que o magnata ainda poderá voltar atrás, como tantas vezes já fez. Mas o que escreveu permanece: a pretensão de cobrar tarifas em águas internacionais passa a ser legitimada justamente pela potência hegemônica do período pós-Guerra Fria. Afinal, por que, a partir de amanhã, o Irã deixaria de cogitar fazer o mesmo no Golfo Pérsico, a Rússia no Ártico, a China em torno de Taiwan ou a Turquia no Bósforo?
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