O pai, o pânico e o coronavírus, por Willian Novaes

Os últimos 20 dias foram cruéis, sendo os primeiros 14 angustiantes, primeira consulta no hospital particular, sala de espera para o exame num PS público.

O pai, o pânico e o coronavírus

por Willian Novaes

Esse saco trouxe uma explosão de sentimentos. Todos ruins, o medo, o pavor e aflição. Nesse saco havia o coronavírus. Nesse saco havia o pânico. Nesse saco estava as coisas do meu pai. Meu pai, o louco, o zueiro, o cara com moral na quebrada, provavelmente muito diferente do seu. Faz parte, você não escolhe o pai que tem. Ali tinha a sua carteira, a calça, as suas pulseiras, o seu nike shox dourado e a sua grana. Também tinha o vírus. Os últimos 20 dias foram cruéis, sendo os primeiros 14 angustiantes, primeira consulta no hospital particular, sala de espera para o exame num PS público, com a enfermeira chefe avisando aos subordinados que na próxima semana as mortes se multiplicariam. O seu olhar de medo ao ouvir, me derrubou em pé. Isso no fim de abril. O choque do resultado positivo e os diretos e cruzados todos os dias na cara, na fuça vindo do presidente. Só porradas. Também veio a internação, a tomo, o diagnóstico (50% dos pulmões tomados) e um fígado lesado, 10 exames de sangue. Cru, simples e diretos mais fortes que as voadoras do mandatário do país dava na população com as suas teses cínicas. A médica às 02 da madru de uma quinta fria, na ZL de SP, falou na lata, seca e com o olhar de quem não sabia o que viria nos próximas horas e dias. “Ele tem problemas, não sabemos como vai reagir, a situação não é boa, se prepare”. Pá, o gelo surgiu no plexo, sem nexo travei e parei de perguntar. Fui pra casa anestesiado, flutuando com os vidros abertos. O vírus estava ao meu lado, no meu carro e estava levando meu pai pra não sei onde. Cedo às 06h, o telefone toca, tenho pânico de telefonemas fora de hora, um já me partiu ao meio. – O senhor pode vir pro hospital agora? Travo, finjo que não entendo e pergunto quem é? O senhor pode vir ao hospital onde o seu pai está internado para assinar alguns documentos. Alívio. Sigo sem sono, sem pânico, sem vida, apenas sigo. Assino o que tem que assinar e vazo. Fala com ele pelo Whats, minto para família inteira, não jogo a real, digo que está bem e já já vai voltar pra causar. Todos ficam confortados. Eu decido segurar o B.O. Destruído, sigo levando violentas pancadas diárias dessa trupe que manda na parada. 5 mil mortes. 5 mil famílias. 6 mil mortes. 6 mil famílias. 7 mil mortes. 7 mil famílias. 8 mil mortes. 8 mil famílias. Ninguém consola essa gente! Só judia, maltrata, espanca. Paro de ver TV, tenho que trampar, escrever o dia todo sobre o corona. O saco plástico ali, na entrada do apto, decido mexer e lavar tudo e garantir que meu pai vá sair com aquela roupa, mas juro que também pode ser a roupa que ele vai pro outro lado. O hospital me liga no quarto dia de internação e ele vai pra UTI, sou obrigado a ir e assinar mais papéis. Eu no térreo e ele no 12º andar B, não posso subir. A enfermeira me diz que alguém vai trazer o saco com as coisas dele. Peço para ela esperar para pelo menos ligar pra ele. Ela concorda e meu pai me liga, a voz é fraca, falha, tem medo e desespero, o velho Japa, o Novaes, o Grilo, todos seus condinomes, não quer ir embora desse mundo. Mas me passa todas as coordenadas como se fosse, diz pra cobrar fulano, as senhas dos bancos e pergunta com medo da resposta. É o pulmão? Minto mais uma vez, digo que é apenas para ele ficar num lugar melhor, com mais equipamentos e que os médicos estão me ligando todos os dias e informando que está melhor. Devolve – Se estou melhorando pq estão me levando pra UTI? Repito – só para ficar melhor. Desligo e grito para os meus irmãos falarem com ele. Invento que ele quer falar. Talvez seria a última vez. Foda. 8 mil mortes. 8 mil famílias. O pau torando, 8 dias na UTI, todos os dias os médicos me ligam e quando mudam o horário da ligação penso no pior. Estou sozinho em SP, minha vida e os dois pequenos longe, tou isolado e ainda cabreiro com o bixo. Crio histórias pra família e assim vou segurando a onda deles. Fui criado pra fazer o certo. Mas aqui inventei uma vírgula por eles. Uma médica gente fina vai com minha cara pelo fone e me passa a real. Olha seu pai é embaçado, parece que expulsou o bixo do corpo. O alívio. A paz. O conforto. Ela diz que ele começou a não dar moral pra ela, está meio ranzinza. É ele de volta! Pegou alta da UTI e levo o seu telefone. Quando chega em suas mãos me liga numa chamada de vídeo, fudeu, o rosto está pálido, magro, barbudo, ele odeia que uso barba, joga a real, está com mais medo, mijando no copo, não consegue levantar. Porra, mas a médica havia me dito outra coisa?!? Ele joga uma real, faz isso e aquilo, decisões complicadas de ouvir, começo a tremer no mercado, uma caixa de ovos explode na minha mão esquerda. Porra, o pânico voltou. Será que tiraram ele da UTI pra morrer mais rápido? Abrir um leito? Cacete, ligo no cemitério, vejo as providências, fico perplexo e seguro tudo, o que vai adiantar falar do jeito que ele está? Não entendo mais nada. Terceiro dia fora da UTI, o velho está bem melhor, a voz começa a ganhar corpo, a médica boa de papo garante que é melhor ele ir pra casa. Finjo demência e deixo ele mais dois dias internado. Não sei mais quem está falando a real. Consulto médicos e todos me garantem que é melhor continuar o tratamento na goma dele. A alta chega, instalam oxigênio na casa. Enrolo mais um dia e assino o último papel. Me ligam do hospital e dizem pra estar lá no começo da noite, levar roupa, faço a mala com os panos que ele entrou com prazer, bem devagar, pego um Uber… vou em silêncio, quieto pensando que meu pai é foda mesmo. Não é rico, nunca quis ser, é foda do jeito loco dele. Venceu a parada. Chego, despacho a mala pra cima, vou pro local das ambulâncias e dou de cara com ele numa maca e com cor, barba feita, embarcamos, ele deitado, eu ali ao lado. Os dois quietos, conversando por telepatia, como sempre conversamos, falamos pouco, mas o pouco que cada um sabe o que é pra dizer. Ele sobe as escadas da casa que cresci. O meu irmão espera, a minha irmã cola, o pesadelo começa a terminar e agora encerrou de vez, ele largou o oxigênio extra. 16 mil mortes. 16 mil famílias. Ele sobreviveu, tudo indica que já já voltará a causar. E quem manda nessa bagaça toda continua tirando um barato!!! Ontem 1.179 famílias choraram os seus mortos e João Pedro não vai sonhar mais… e quem manda falando em tubaína…

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