O taxista que falou de pão, por Wilson Luiz Müller

Foi esse contingente de anônimos que deu a vitória ao Lula na eleição presidencial, pois se conectam diretamente à alma do líder popular

O taxista que falou de pão

por Wilson Luiz Müller

Bem cedo cheguei no ponto de táxi. Encostado ao carro, o taxista comia uma banana. Perguntei se podia me levar ao aeroporto. Prontamente largou o resto da banana e abriu a porta do carro.

– Não queria atrapalhar teu lanche, falei.

– Gosto de comer banana porque ela dá sustento.

Simpático, logo puxou conversa. Elogiei o Catete, dizendo que tinha gostado da minha estada ali. Ele comentou, um pouco desgostoso, que a vida já foi melhor ali,  que as coisas pioraram depois que o bairro foi catalogado como Zona sul do Rio de Janeiro.

– Tudo ficou caro. Um pãozinho aqui custa R$ 2,00. Na periferia onde eu moro dá para comprar seis pãezinhos, dá pra família toda.

Depois passou a reclamar da fiscalização, disse que ninguém mais fiscaliza nada. Que antigamente as mulheres fiscalizavam os aumentos de preços, que aquilo funcionava bem, porque elas botavam a boca no mundo.

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– Lembro disso, respondi, acho que era o movimento contra a carestia.

– Foi no governo Sarney, ele disse, cada vez que a inflação subia tinha aumento de salário. Depois disso só veio governo bosta.

O cidadão era preto, tinha idade para estar aposentado, o carro era velho e barulhento (como há muito não tinha visto), ele comia banana no café da manhã porque “dava sustento”, falava do preço do pão, do movimento contra a carestia, lembrava do governo Sarney porque dava aumento salarial quando a inflação subia, e finalizou com  a sentença de que depois disso “só veio bosta”.

Não sei se ele assim se pronunciou por suspeitar estar em presença de um bolsominion – por causa da minha cor e do meu sotaque gaúcho – , ou se, na dúvida, quis definir como bosta o governante de plantão sem citá-lo expressamente, pois é como a gente do povo aprendeu a exercer a sua crítica sem correr o risco de ver a sua opinião atacada por alguém que eles julgam estar numa posição de superioridade.

Não pude deixar de me intrigar: em qual candidato a presidente esse homem teria votado na eleição da semana passada?

Como ele deixou a bola quicando, fiz a provocação:

– Eu gostei do governo do Lula, acho que ele fez muito pelo povo; e penso que agora fará um governo melhor ainda.

Quando falei isso, o homem abriu o coração.

– É a nossa esperança, disse ele.

Se eu não tivesse provocado o homem, certamente ficaria com a impressão de que era apenas mais um taxista confuso.

A partir disso, a conversa deslanchou sobre política, no sentido estrito, uma vez que o preço do pão também é política. O homem era informado, no melhor sentido da palavra. Informado sobretudo sobre a parte que interessava à sua classe social, que é a luta pela sobrevivência.

Falou da façanha de Lula ter saído da pobreza para se tornar presidente; pareceu-lhe relevante comentar que Lula, condenado e preso, suportou a tudo com tranquilidade,  sem nunca apelar à violência.

Falou das mansões da família Bolsonaro; das sacanagens do Moro, e opinou que a hora da justiça para eles haveria de chegar, porque a “coisa virou”.

Paguei a corrida de R$ 20,00 dando-lhe uma nota de R$ 50,00, pedindo para me retornar R$ 20,00. Ele me devolveu R$ 30,00. Insisti: só me devolve R$ 20,00, porque atrapalhei o seu café da manhã e porque o senhor me atendeu muito bem.

Ele agradeceu e desejou-nos boa sorte – passei a ser considerado um parceiro, não um simples passageiro – , com a sinceridade de alguém que estava de fato pensando para além de si. Despediu-se sorrindo:

– E vamos ver se agora podemos comer nossa picanha de novo.

Senti uma alegria genuína com esse evento tão simples, mas tão determinante do momento histórico atual.

O taxista negro integra esse contingente de milhões de brasileiros que foram reduzidos ao anonimato. Foram subjugados econômica e ideologicamente a ponto de terem que autocensurar pensamentos e opiniões sob risco de perder seus precários meios de subsistência.

Mas foi esse contingente de anônimos que deu a vitória ao Lula na eleição presidencial, porque esses milhões se conectam diretamente à alma do grande líder popular que veio da pobreza, que sofreu perseguições de toda ordem (como é comum suceder com os mais pobres), que nunca esmoreceu, nunca se desesperou e nunca desistiu, porque isso também não é permitido aos pobres; um líder que construiu um partido que se manteve fiel na defesa  dos que não são ouvidos nem vistos pela outra parte da sociedade que tem direitos  e para a qual as instituições funcionam de forma adequada.

Esses milhões esperanciam em Lula, porque a sociedade civil, o conjunto das instituições, sequer garante que eles tenham garantido o direito a manifestar seu pensamento; que dirá ganrantir seus direitos efetivos!

Sem alarde, esses milhões foram votar no domingo do último dia 30 de outubro. Sem precisar se justificar para ninguém, no isolamento da cabine de votação conectaram novamente sua vida com a vida do homem que eles conhecem de longa data, que lhes fala ao coração, que quando fala de pobreza e esperança, as palavras soam a esses desprovidos de direitos como verdadeiras e familiares.

Esses milhões de anônimos salvaram nossa democracia e o nosso futuro.

Viva o povo brasileiro!

Viva a sua inteligência e sua capacidade de saber resistir e avançar nas horas decisivas!

Wilson Luiz Müller – Integrante do Coletivo Auditores Fiscais pela Democratização – AFD

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Redação

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  1. Há quem diga que quando bandeiras de um candidato aparecem nas carroças de mendigos ele está eleito. Sim, estiveram um pouco amendrontados, mas os vi em S. PAULO. Pós-eleições, quando taxistas, segmento conservador declaram voto no vencedor, é a melhor auditoria de urnas.

  2. Há quem diga que quando bandeiras de um candidato aparecem nas carroças de mendigos ele está eleito. Sim, estiveram um pouco amendrontados, mas os vi em S. PAULO. Pós-eleições, quando taxistas, segmento conservador declaram voto no vencedor, é a melhor auditoria de urnas. Parabéns

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