Que a história faça justiça com o dia 1º de janeiro de 2023
por Fernando Castilho
É sempre com tristeza que vejo apostilas de história para o Ensino Médio tratarem de maneira extremamente superficial acontecimentos de grande importância para o Brasil e para o mundo.
Invariavelmente, independente de quem editou, as publicações não gastam mais que duas páginas para contar o que foi o golpe e a ditadura militar que acometeram o Brasil em 1964. A Segunda Grande Guerra também não ocupa muito espaço nessas apostilas.
A consequência disso é a irrelevância desses fatos para nossos estudantes. É por isso que há tanta gente defendendo Jair Bolsonaro, golpe militar, fascismo e nazismo no país.
Foi mais de um ano de campanha eleitoral extremamente acirrada e que culminou na vitória da democracia, do estado de direito, das instituições, da tolerância, da diversidade, enfim, da civilização, como disse Lula em seu discurso, contra a barbárie.
E o símbolo dessa vitória não poderia ter sido mais expressivo do que a subida da rampa do Planalto com os mais variados representantes da sociedade, desde o indígena até a catadora negra. Méritos para Janja!
Por esse aspecto, foi muito bom que Bolsonaro se recusasse a passar a faixa presidencial a Lula. O capitão nos poupou de sua expressão azeda e do constrangimento. Foi bom ter ficado em Orlando assistindo inconformado a concretização de sua derrota.
O fato político acontecido em 1º de janeiro merece ser retratado pelas apostilas e pelos livros de história com a dimensão que ele merece, pois se reveste da importância da retomada do rumo da nação desvirtuado a partir do golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, que nos colocou à beira de um colapso civilizatório projetado para ser colocado em prática pelos 26 anos que Bolsonaro tencionava permanecer à frente do poder executivo, caso vencesse Lula em 30 de outubro.
A grande imprensa, pelo que vimos no dia da posse de Lula, deu-lhe uma trégua. A cobertura da Globo, da Folha e do Uol, por exemplo, não foi muito diferente da dos canais progressistas do YouTube. Havia claramente uma sensação de alívio, justamente porque, se Jair tivesse vencido, a perseguição a jornalistas seria muito maior do que a que se iniciou em 2019.
Uma das frases que ouvi nessas coberturas foi: “acabamos de nos livrar de uma corda no pescoço.” Por si só isso ilustra o alívio.
Sabemos que temos um imenso desafio pela frente, já que é muito mais fácil destruir do que reconstruir, mas há esperança.
Os ataques certamente virão de todos os lados, como aconteceu a partir de 2003, quando do primeiro mandato de Lula, mas, tenho certeza, aos poucos as peças se encaixarão e deveremos chegar ao fim de 2026 com um país muito melhor e com condições de elegermos um sucessor à altura do atual presidente.
Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor
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