5 de junho de 2026

Relatos de Viagem: Punga em Roma, por Jorge Alberto Benitz

 Ressalto que este incidente não diminuiu em nada meu fascínio por esta cidade de pessoas, na maioria, acolhedoras

Relatos de Viagem: Punga em Roma

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por Jorge Alberto Benitz

    Edmund Wilson, autor de Rumo à Estação Finlândia e Castelo de Axel, em suas memórias, editadas por Leon Edel, conta que, nos anos 20 do século XX, caiu em um golpe manjado de punguistas em Florença. O golpe consistia em instalar um homem gordo, desculpas, um indivíduo fisicamente avantajado ou horizontalmente privilegiado, no corredor impedindo a passagem. Para passar era necessário espremer- se e neste momento entrava em ação seu comparsa que batia a carteira.

    Munido desta informação, em viagem pela Europa, fiquei ligado quando andava no trem internacional ou metrô, tentando achar um sujeito com aquele, digamos, perfil, naquela posição tática de apoio ao comparsa punguista, e me quebrei. O golpe se atualizou, se repaginou. Adesso, como dizem os italianos, são outros os personagens, outras as táticas.

    Fui entrar no metrô em uma estação que não me recordo o nome, e me deparei com um jovem barbudo me barrando a entrada. Não me dei conta que, apesar do trem estar com bastante gente, não se justificava aquela atitude. Logo descobri o motivo daquele bloqueio da passagem. De modo desafiador empurrei- o e ele reagiu, demonstrando agressividade. Era a tática, substitutiva do barrigudo bloqueando a passagem usada com Edmund Wilson, para desviar minha atenção enquanto seu comparsa fazia o resto do serviço. Alguém, que conhecia o golpe e o viu ocorrendo na sua frente, gritou avisando. De pronto, botei a mão no bolso e me dei conta da falta da carteira, onde estavam algum dinheiro, cartão de crédito e carteira de motorista. O resto da narrativa desenhou uma coreografia digna dos filmes pastelão de Chaplin, com o Carlitos driblando um atanazado policial. Só que quem faz o papel de otário, digo, de policial, no caso, sou eu. Um ou mais passageiros gritaram “Vai atrás! ”, em italiano, claro. Mesmo sabendo pouco italiano, entendi o recado e me pus em ação. Olhei e vi um sujeito sair correndo e entrando de novo por outra porta no trem. Ele, que já tinha entrado de novo no trem, ao perceber que o identifiquei saiu do trem. Sumiu atrás de um corredor. Fui atrás e o encontrei escondido em um canto. Encurralei- o e gritei “Minha carteira?”. Ele se fez de desentendido. Acho que disse “No cartera”. Na Itália os punguistas, batedores de carteira, também, são chamados de carteristas. Não ouvi ninguém chamando eles de borsaiolo, como diz o google tradutor. Daí, que ele entendeu o que eu disse. Entendeu mais ainda quando gritei “Polícia! ”. Eu estava pronto para sair na mão com ele. Podia me dar muito mal. Ele era jovem e forte. Sua reação foi escapar do meu cerco, ir em direção ao trem, que ainda não tinha saído, dar um giro, se abaixar e largar algo no chão da plataforma, bem próximo da Beth, minha mulher, e se escafeder. Era a minha carteira.

    Ao contar o ocorrido para uma brasileira, que morava já há muito tempo em Roma e era muito distinta e simpática, que encontramos em um bar perto do Circo Máximo – Arena das celebres corridas de Bigas e depois, muito depois, local utilizado, segundo o google, como cenário das filmagens de Ben Hur – ela, que era negra e dizia ter consciência de sua condição, e, por isso, tinha cuidado para não emitir juízos de valor racistas, em resposta, disse “Não tem punguista indiano ou africano. Eles passam dificuldades como imigrantes, mas são, na maioria, trabalhadores e não partem para a criminalidade. Os punguistas na maioria, são do Leste Europeu. São albaneses, romenos, ciganos. A propósito, nunca de esmola para aquelas mulheres vestidas toda de preto que se postam próximo a igrejas e lugares turísticos. Elas fazem parte da quadrilha. ”

    Ao voltar para o Brasil, em um reencontro com amigos, narrei o episódio a Arnoldo Doberstein, um amigo muito viajado e bom observador, como historiador que é, comentou ter sido também vítima de batedores de carteira na Itália. No caso dele, foram italianos mesmo, os “carteristas” ou “carteiristas”. Pensando bem, no meu caso pode até serem italianos e não albaneses ou romenos. Fisicamente, eles lembravam os membros jovens das gangues mafiosas da Série de TV “Gomorra”, que só são formadas por italianos. A referida Série é inspirada em fatos reais narrados no livro de mesmo nome “Gomorra” de Roberto Saviano. Para q uem se interessa no assunto: No último livro dele “Os Meninos de Nápoles: Conquistando a cidade”, Editora Cia das Letras, ele mostra com mais ênfase do que em Gomorra que, devido as prisões dos velhos chefes e da saída de cena dos mafiosos mais velhos, os jovens, que são mais violentos e niilistas, estão assumindo o protagonismo vide link https://www.revistabula.com/12243-jurado-de-morte-roberto-saviano-lanca-novo-livro-e-afirma-que-italia-e-um-pais-cruel/,

    Ops! Isso embaralha e complica tudo. Desmonta a imagem visível para o turista de que só o imigrante exerce atividades criminosas na Itália. Imagem que é verdadeira, mas só conta um pedaço de toda a história. Igual o conto dervixe que mostra cegos, desculpas de novo, deficientes visuais apalpando um elefante e dando uma opinião sobre o bicho todo baseado no que sentiram ao tocar em uma pequena parte dele. A impressão é que a criminalidade miúda, como a de batedor de carteiras, fica a cargo de imigrantes enquanto que a graúda, tráfico de drogas, é com a máfia comandada agora por jovens cujo lema parece ser “Fique rico logo ou morr a tentando”. 

    Voltando a questão da punga: Ao comentar o episódio com um brasileiro, morador de Campinas, na fila de embarque de volta ao Brasil, ele comentou “No Brasil a coisa seria diferente. Usariam violência no assalto”. Penso que tem razão, mas acredito que os brasileiros, como ele, da classe média alta para cima – que são quase praticamente todos os que viajam para fora do país – fazem este tipo de comentário mais para demonstrar seu complexo de vira-lata do que para espelhar a realidade. Já tinha ouvido, de outro turista brasileiro, com este mesmo perfil, em outro momento da viagem, o mesmo tipo de comentário depreciativo do país, só que sobre outro assunto que não me lembro mais. Não estranharia se descobrisse serem eles bolsonaristas.

    Ressalto que este incidente não diminuiu em nada meu fascínio por esta cidade de pessoas, na maioria, acolhedoras; de obras de arte e arquitetura de embasbacar pela beleza, imponência, monumentalidade. Lugar onde você se depara a todo momento com uma peça fundamental da história deste mosaico chamado civilização ocidental.

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

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