Resoluções Apocalípticas Semestrais
por Luiz Henrique Lima Faria
Sou professor. Logo, sou a entidade que assiste à formação e à dissolução de pequenos universos chamados disciplinas. Existências que colapsam em ciclos rigorosamente semestrais.
Para os estudantes, meu nome às vezes soa como bênção, outras vezes como castigo, mas quase sempre lhes parece um enigma a ser decifrado. Um enigma que, na verdade, tem solução simples: sou apenas o guardião do registro da jornada bem ou mal vivida pelo estudante, nesse diáfano microcosmo.
Embora essa descrição pareça a representação de um ser frio, sem alma, entendo meu ofício docente como descrito por Hannah Arendt em seu ensaio A Crise na Educação. Sou o adulto que assume a responsabilidade de introduzir os mais jovens em um mundo que não é deles, mas que lhes será legado.
Educar, para mim, é um gesto de amor pelo mundo e, ao mesmo tempo, de confiança na capacidade de renovação das gerações que chegam. Não se trata de preservar o passado como relíquia, mas de oferecer aos estudantes os instrumentos para que possam habitá-lo criticamente, transformando-o a partir daquilo que encontram.
Assim, apenas como uma forma de sobrevivência, habito o tempo suspenso entre a expectativa e a realização. No início, lanço sementes no vazio: um plano de ensino, uma proposta, um conjunto de possibilidades. Crio, com meu verbo que se faz carne, os contornos do que poderá vir a ser. E, então, observo.
Observo as ausências e as presenças, as tentativas e os adiamentos, o esforço genuíno e a preguiça, muitas vezes, mal disfarçada. Nada deve escapar ao meu olhar, ainda que, por escolha misericordiosa, eu frequentemente suspenda minha intervenção, não por indiferença, mas por benevolência.
Mas é no limiar do fim que sou mais lembrado. Quando o semestre se encontra na perna descendente da parábola, em sua queda inevitável, sou invocado com fervor. Professor, ainda dá tempo? Tem algum trabalho para recuperar a nota? Se eu tirar 10 na prova, eu passo? Há algo de litúrgico nessas súplicas.
O desespero final reveste os mais aflitos de coragem. Cada mensagem parece uma oração dirigida a mim, como se eu fosse capaz de operar milagres sem a fé do crente, sem a força imperativa da justiça que só emerge da necessária caminhada do peregrino.
Para além do destino dos aterrados, o curioso é que, apesar de assistir ao fim, eu nunca habito o pós-apocalipse. Não permaneço no vazio que resta depois da última nota. Já sou, antes disso, o novo cosmos do próximo semestre.
Enquanto corrijo as provas finais, já escrevo os planos que hão de inaugurar a próxima era. Para mim, não há o nada. Há sempre o próximo universo, com seus novos fiéis e infiéis.
Assim, embora pareça ser a deidade que decide, sou, na verdade, apenas o guardião do ciclo. Não crio nem destruo. Apenas acompanho o eterno retorno de mundos que nascem inseguros, amadurecem na pressa, tremem diante do juízo final e partem para uma nova existência, de preferência diferente e, no pior dos casos, muito parecida com a anterior.
Por fim, eu assisto. Assisto tudo. Aceitando o melhor conselho dado por Albert Camus, assisto tudo de novo, por rebeldia lúcida, optando pela melhor escolha humana possível.
Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).
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