Seguindo em frente (III)
por Izaías Almada
Alguns anos depois desse episódio, quando conclui o curso colegial, o meu professor de Português, Samir Sirihal, no início de uma das últimas aulas do ano letivo, perguntou-me se gostaria de ser o orador da turma de formandos. Alguns olhares de colegas, sobretudo das meninas (normalmente as melhores alunas), quase que exigiam que eu dissesse um sonoro “não”.
Num átimo consegui entender o convite, pois eu já era estigmatizado por ter ideias de esquerda e o professor Samir sabia disso. Mais à frente voltarei a esse assunto. Voltemos ao tio Luís Minardi.
Convidei-o para minha formatura no Colégio Estadual de Minas Gerais em 1961, uma cortesia que talvez não fosse entusiasmá-lo.
Foi grande o número de pessoas que compareceu à solenidade e muitas dessas pessoas pertenciam (com perdão das más palavras) à elite da sociedade belorizontina e mineira, pois fazendeiros, empresários e gente da “alta sociedade” costumava ter seus filhos num colégio público de qualidade, preterindo paradoxalmente os colégios particulares e caros pela simples razão da fama – que a realidade sempre comprovou naqueles anos – ser o Estadual um dos melhores, senão o melhor, dos colégios do Estado de Minas Gerais, por sua exigência na qualidade do ensino tanto para os professores e em especial para seus alunos.
O texto do discurso que li na formatura chegou a ser vaiado por alguns dos presentes por fazer breve menção à vitória da Revolução Cubana em 1959, o que dava urticária na burguesia mineira e não só… (não foi por mero acaso que o Golpe civil/militar de 1964 teve seu início em Minas Gerais com o total apoio do governador e banqueiro Magalhães Pinto), mas na saída fui cumprimentado pelo professor Samir e também pelo tio Luís que, para surpresa de todos, elogiou o discurso, segundo ele um ato de coragem diante de grande parte das pessoas que lá estavam.
Selou-se ali a amizade que perdurou presencialmente entre tio e sobrinho até a decisão de me mudar para a cidade de São Paulo em 1963.
Luís Minardi era um italiano de pensamento liberal com pitadas esquerdistas e isso foi uma grande surpresa para mim. E para que o amigo leitor não tenha dúvidas quanto ao tal discurso de formatura, quero acrescentar aqui que já nos meus dezessete anos de idade eu pertencia a uma base secundarista do Partido Comunista Brasileiro em Belo Horizonte.
Essa opção ideológico/partidária, que reconheço ser ingênua para um adolescente belorizontino do início dos anos 60, se me ajudou a ser indicado orador da turma, foi motivo de gozação de outro grande professor do Colégio Estadual na época, professor de filosofia, Arthur Versiani Veloso.
Um tanto brincalhão, o professor Veloso tinha por costume exigir de seus alunos, no final do primeiro semestre de aulas, que preparassem durante as férias de julho um trabalho por ele indicado.
Na sua terceira ou quarta aula após as férias, o professor entrou na classe sorridente e colocou o maço de trabalhos entregues pelos alunos, devolvendo-os a cada um de nós e indicando a nota recebida pelo autor.
Fez a distribuição começando pelas notas mais baixas. “Fulano de tal, nota quatro e meio… Fulana de tal, nota cinco”… E fazia pequeno comentário sobre o porquê de tal nota para cada um dos alunos.
Comecei a ficar intrigado, pois os trabalhos iam sendo devolvidos, com as meninas sempre conseguindo as melhores notas da classe e o meu nome não surgia.
Após devolver o penúltimo trabalho e erguer duas folhas de papel almaço, o professor elevou um pouquinho o tom de voz e apregoou; “Izaías do Vale Almada, nota dez”… Espanto geral e a expectativa do comentário: “O senhor teve a maior nota entre todos os trabalhos por ter sido suficientemente corajoso para citar Joseph Stalin como filósofo”…
Ironia fina que amenizava o absurdo escrito por mim… Eu só viria a compreender anos depois o significado irônico do comentário do professor Veloso, ao tomar conhecimento de como Stalin governou a União Soviética, seu método de governo que, com a morte de Lenin e o assassinato de Leon Trotsky no México, apesar de sua luta contra a Alemanha nazista, fez muito mal à criação do socialismo não só na União Soviética, mas em vários países vizinhos.
Uma pena, pois eu ainda considerava e considero o socialismo a alternativa mais civilizada e economicamente mais justa para os povos de todos os continentes.
Do metodismo ao socialismo: uma evolução ideológico-religiosa e cultural da qual nunca me arrependi, muito pelo contrário.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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