Sintagma, por Wilson Ramos Filho

As fotos, como quase todas as construções humanas, permitem distintas interpretações, complementam-se, integrando-as hermeneuticamente, pelo sujeito cognoscente.

Sintagma

por Wilson Ramos Filho – Xixo

Pensei na foto da garotinha, emburrada, recusando-se a apertar a mão do Gen. Figueiredo e, como uma coisa puxa outra, naquela com uma porção de milicos fazendo a saudação nazista e um sujeito lá no meio, sem elevar o braço. Sempre desconfiei das reais intenções da enfezadinha e do caboclo inerte. Sei lá, ele podia ter um problema no braço.

As fotos, como quase todas as construções humanas, permitem distintas interpretações, complementam-se, integrando-as hermeneuticamente, pelo sujeito cognoscente. O sentido do registro é atribuído pelo intérprete do objeto contemplado. Assim, a foto, como qualquer obra humana, transcende ao que pretendia o fotógrafo ou à vontade de quem foi fotografado. Há, sempre, uma autonomia relativa entre a expressão material e a realidade em que ela se insere, entre a intenção do fotógrafo e o que foi revelado. Essa epistemologia se presta a qualquer campo da cultura. O sentido da obra não existe de modo atemporal, nem se atrela absolutamente ao que pretendia o artista. Seu sentido se completa na mente do observador, podendo cambiar segundo contextos e conjunturas historicamente determinadas.

Há obras que são concebidas para produzirem um resultado, de acordo com o que pretendia o artista, e outras que adquirem novos sentidos com o passar do tempo. Também há as que se resumem a expressar o que nelas está materializado, algumas vezes como inovação, outras como invenção ou como inversão do ordinariamente estabelecido, sem uma preocupação maior com a leitura que delas se fará. A fotografia constitui-se em plataforma semântica que se presta bastante a estas distintas possibilidades interpretativas, assim como o cinema, fotos em movimento.

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Por associação de ideias recordei de um jornal televisivo em que, simulando improvisação, a repórter faz a pergunta a um jovem que sapeca o antológico “primeiramente Fora Temer” antes de responder ao vivo a questão que lhe foi posta. Entre o que pretendiam a jornalista e a linha editorial da emissora de televisão e o resultado obtido houve grande distância, como consequência da resistência individual do entrevistado. O mesmo se repete com bastante frequência nos últimos tempos.

Recentemente uma jovem da favela da Maré, no Rio de Janeiro, de modo ousado, enganou a Globo. A reportagem era sobre o ensino do idioma coreano em uma escola pública, chamada Olga Benário Prestes, na comunidade onde militava a vereadora assassinada Marielle Franco. Solicitada a escrever algo na lousa (credo, que anacronismo) a moça garatujou ideogramas que, por transliteração fonética, seriam lidos como Fora Bolsonaro. Melhor explicar: como cada ideograma tem um som ela grafou fonemas que lidos em voz alta resultam em algo próximo ao Fora Bolsonaro. A isso se denomina transliteração. A menina foi esperta, passou a perna na Globo, e transmitiu o seu recado com um sintagma. A reportagem foi ao ar sem que a emissora se desse conta. Outro exemplo de resistência individual nesses tempos sombrios.

E como a interpretação só se completa com a interferência do observador, permito-me supor que a politizada estudante do idioma coreano naquela escola periférica, que enverga o nome da companheira do legendário líder comunista Luis Carlos Prestes, resistiu ao seu modo pensando em Marielle e em milhões de vítimas do bolsonarismo.

O resultado pretendido pela repórter, fazendo uma matéria tola, foi totalmente inesperado em razão da sardônica iniciativa da estudante. Assim como o moleque do Primeiramente Fora Temer, essa jovem entrou para a história com seu Fora Bolsonaro grafado em coreano.

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E a menina que se negou a apertar a mão do milico ditador no final da década de setenta? Para mim foi birra, não queria transmitir uma mensagem. Como também sou, além de esquisito, birrento, reitero a premissa epistêmica: tanto faz o que pretendeu o fotógrafo ou a mimada garotinha. Ali naquela foto se expressou um senso comum em construção naquele momento histórico.

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1 comentário

  1. Sempre achei que as fotos revelam mais do que gostariam aqueles que ficam ali eternamente registrados naquele momento que poderia ser um que “seja eterno enquanto dure”.
    A menina Rachel Clemens Coelho, que se recusa por “birra” – como ela mesmo afirmou ao jornal O Globo ha alguns anos – a cumprimentar Figueiredo, morreu no ultimo sabado, preconcemente. Mas fato é que ela estara para sempre, na historia brasileira, encarnando a geração rebelde, resistente e que ansiava por liberdade e frescor. Infelizmente não passa de uma imagem trucada, como demonstra esses tempos.

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