Um Controverso Legado da Pandemia, por Jorge Alberto Benitz

A pergunta que me faço: Será que tudo vai voltar a ser como era antes?

Um Controverso Legado da Pandemia

por Jorge Alberto Benitz

Quando se pensava que estaríamos curtindo o pós-pandemia veio o vírus  Ômicron – uma versão menos perigosa da Covid, para quem está vacinado, mas não menos preocupante –  e nhac!

Com a Ômicron, vírus muito mais transmissível que o anterior, de novo se fez necessário voltar ao uso de máscaras, evitar aglomerações, etc..  Como esta variante do vírus apresenta um grau menor de sintomas graves para os vacinados, as pessoas estão saindo mais ainda que com cuidados. Falo das pessoas sensatas, não da turma de burros negacionistas e malucos de toda ordem.

A pergunta que me faço: Será que tudo vai voltar a ser como era antes? O antes que me refiro agora é o antes da pandemia com todo aquele desfile de desejos e anseios que se demonstraram não serem tão importantes como levamos a supor porque são construídos socialmente e pouco tem a ver com as necessidades reais de um ser humano.  Do que estou falando? Daquele ímpeto que nos leva a sair de casa como se fosse imperativo e que com a pandemia, por termos uma desculpa perfeita, podemos recusa- lo e, surpresa!, nem doeu não o cumprirmos.

Tinha um colega de trabalho que era uma águia. Dizia ele que saímos a luta somente por dois motivos: poder ou sexo. Entendo que, embora faça sentido, para mim esta afirmação soa como   uma supersimplificação. Pior, uma sentença acusatória da superficialidade e mesquinhez do homem massificado, sequioso de satisfações que muitas vezes se resumem a ascensão na carreira e mais dinheiro. Aqui nesta última citação entra o personagem mediador por excelência da vida na sociedade de consumo.  Sociedade de consumo que introjeta em todos nós o desejo de consumir tudo que for possível. Como é impossível tudo consumir segue- se a frustração. Na psicanálise lacaniana isso tem nome: Im perativo de Gozo do Superego. Por mais empoderado e rico sempre o sujeito, adestrado por uma sociedade que mede o status de seus integrantes pelo quanto pode consumir, vai se frustrar nas suas aspirações e desejos. Sempre estará aquém do seu desejo de consumir.

Neste caso, penso que, a despeito dos horrores irreparáveis que ela representou e ainda representa, a pandemia pode ter servido como algo positivo para quem cultiva as faculdades cognitivas a seu favor e busca sair da condição passiva de um modelo social consumista perverso e irracional. Não é o caso do meu colega esperto citado que se pautava por um pensamento conservador, agindo somente movido por poder e sexo. O único ponto positivo e sua sinceridade. A maioria age movida por estes desejos nada virtuosos, porém, hipocritamente, se arrogam portadores de valores elevados.

Retomando, cabe a cada um reavaliar, depois de perceber com o confinamento devido a pandemia, o quanto são construídas de fora para dentro suas prioridades e seus valores diante do mundo e da vida e pouco significam para uma real satisfação. Uma reavaliação implicando autoquestionamento tipo “Será que aquilo que parecia tão importante antes e se revelou, devido a pandemia, algo de tão pouca valia, tão pouca urgência, merece ser retomado com a mesma intensidade? Enfim, merece ser despendido naqueles projetos e atividades a mesma energia de antes ou mais? Refiro-me aos compromissos sociais que antes pareciam tão urgentes e importantes, das tarefas que pareciam tão inarredáveis, das compras que se faziam tão imperativas e urgentes.  

Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

1 Comentário

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Maria Elisabeth De Noronha Dantas

- 2022-02-09 19:04:40

Excelente artigo e análise: "Retomando, cabe a cada um reavaliar, depois de perceber com o confinamento devido a pandemia, o quanto são construídas de fora para dentro suas prioridades e seus valores diante do mundo e da vida e pouco significam para uma real satisfação." Por enquanto, sinto uma grande tristeza no ar O mundo está de luto ainda. Nossas prioridades irão, aos poucos, surgindo e ressurgindo. Abraço!

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