Um pouco menos mórbido
por Rui Daher
Em minha mais recente coluna para o GGN, as maiores dificuldades de mobilidade fizeram-me martelar na cabeça do prego a proximidade dos 80 anos de idade. Ajudavam-me as mortes de pessoas a quem amo ou admiro.
Relendo o texto e constatando sua boa repercussão, achei ter sido funesto demais. Talvez, efeito do patrulhamento que, hoje em dia, sofro de coisas que amo e um dia fizeram parte de minha felicidade.
Dois ou três “puros” por semana. Tabagismo. Não pode. Taças diárias de vinho no jantar ou no escrevinhar. Alcoólatra. Não pode. Andar de forma um tanto corcunda. Não pode. Postura! Faltar às duas sessões diárias de fisioterapia. Displicência (e olha que as duas fisioterapeutas são lindas). Viajar pelos maravilhosos campos, verdejantes ou não, conforme a região e cultura do agro. Não pode. “Só se for um bate-volta” – Marsilac (SP), por exemplo. Cascavel (PR), onde tenho grandes amigos? Nem fodendo. Autoridades do trânsito, consideram-me inabilitado para dirigir veículos. Triciclos de plástico com um metro de altura? Não tentei.
Mas confesso o mais dolorido. É no capítulo alcoolismo. As cachaças mais curiosas, desde as purinhas ou moreninhas, que dividia com meus amigos de agricultura, pecuária, fruticultura, olericultura, e tudo o mais em que se plantando dá neste Brasil inzoneiro, terra de Caymmi e Pixinguinha, de muitos risos e abraços, quase perdemos em nome de um mito genocida.
Quero! Quero-quero!
Junto a baiões, forrós pé-de-serra, rasqueados, galopados, xotes prá dançar coladinho, com a cabocla, campesina, sertaneja, tabaroa, mais linda que queira conhecer o mais dilapidado escritor “deste país”.
Que venham Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Maria Inês, Alceu, Geraldinho Azevedo, Zé Ramalho, Chico César, Lenine, os trios Virgulino e Nordestino, cachaça temperada com o que for: cannabis – a última que ganhei; babosa; uvas passas várias; damascos, tâmaras e figos secos (Feliz Natal); mates gaúchos e leões. Estas, há 20 anos, no frio de uma cabanha sulina, vento zunindo e vindo do amor de Pepe Mujica, espetos de carne cravados na terra, ouvindo Renato Borghetti e seu acordeom gauchesco, e Yamandu Costa.
Quero! Quero-quero! Ou volto à morbidez.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
Raquel Ornellas
10 de fevereiro de 2023 8:13 amNão sei se vc é alcoólatra ou não. Só vc pode dizer e ninguém mais. Eu como ex mulher de um alcoólatra que não se consideras como tal, sei o que passei e passo e a filha também. Uma doença de merda, com muito preconceito social, com muita apologia e propaganda. É uma epidemia nacional, sem política pública. Antes o álcool fosse visto como o cigarro, hoje tão mal visto soccialmente, e que tem ajudado muitos jovens a não entrar nesse vício. O contrário do álcool. O que é pior o alcoolismo destrói lenta e continuamente a pessoa e quem está por perto. Ou seja, uma merda!!!